A ex-Presidente do Brasil Dilma Rousseff disse esta terça-feira que setores da sociedade brasileira aproveitaram a crise financeira para criar uma crise política e organizar um golpe parlamentar, com ingredientes misóginos, contra o seu Governo.

“Eu diria que (a misoginia) foi um dos ingredientes, mas não o único, mas certamente um dos ingredientes. O meu processo de afastamento, na verdade, foi um golpe parlamentar”, declarou Dilma durante uma conferência de imprensa na Fundação José Saramago, em Lisboa.

Dilma Rousseff foi afastada do Governo brasileiro pelo Senado a 31 de agosto de 2016, num processo bastante polémico, por irregularidades administrativas e fiscais. De acordo com a antiga chefe de Estado e de Governo do Brasil, o seu processo de afastamento do poder “foi visivelmente manipulado”, na medida em que não houve algum crime de responsabilidade durante o seu Governo.

Do ponto de vista de Dilma Rousseff, os argumentos utilizados para o seu afastamento poderiam ser considerados como “irregularidade administrativa”, que poderiam merecer uma advertência, mas nunca o ‘impeachment’. Indicou ainda que as mesmas medidas governativas também foram utilizadas por governos brasileiros anteriores, sem maiores consequências.

Dilma considera Portugal “referência e exemplo” pela sua atual governação

Dilma disse também que Portugal é uma “referência e um exemplo” no que diz respeito ao caminho encontrado para a sua governação, nomeadamente com a união de “forças progressistas”.

Esta solução (governativa) encontrada por Portugal é hoje uma referência e um exemplo”, disse Dilma Rousseff, numa conferência de impressa, em Lisboa.

A antiga governante brasileira referiu-se ao acordo firmado entre o atual Governo do Partido Socialista, o Partido Comunista e o Bloco de Esquerda para a governação, que ficou conhecido como Geringonça.

Penso que Portugal, de uma forma clara, mostra um caminho, que é um caminho com uma coligação progressista e com uma proposta e que, ao invés de separada, a esquerda vai junta”, declarou a ex-Presidente brasileira.

Isso ocorre, segundo a antiga chefe de Estado, “ao contrário da onda conservadora no mundo, que tem levado ao poder grupos de extrema-direita ou grupos que têm como base o populismo, que na verdade trata-se de políticas conservadoras”.

Estas são políticas de corte, direitistas no sentido dos valores, no fundamentalismo, na visão de mulher e dos imigrantes (…)”, complementou.

Dilma Rousseff está em Lisboa para proferir uma comunicação, intitulada “Neoliberalismo, Desigualdade, Democracia sob Ataque”, na quarta-feira, no Teatro da Trindade, a convite da Fundação José Saramago, Casa do Brasil, INATEL, entre outros.