Nos últimos dias de 2015, o Banco Popular foi uma das instituições convidadas a fazer uma oferta para comprar ativos do Banif. Mas o entusiasmo nunca foi muito grande e quando o processo entrou na fase decisiva da resolução, e foi pedida uma proposta vinculativa, o grupo deixou o seu concorrente espanhol sozinho no processo.

O Santander comprou o Banif por 150 milhões de euros e com o apoio de uma confortável almofada financeira pública. Dois anos e meio depois, o Santander volta a resgatar um banco, desta vez em Espanha, ao comprar por um euro o Banco Popular, numa resolução inédita decidida pelo conselho único de resolução do BCE.

A queda do Popular, o sexto maior banco espanhol, foi precipitada pelas mesmas circunstâncias que causaram o colapso de bancos em Portugal, uma crise de liquidez que se agravou nos últimos dias, levando as entidades europeias a declarar que a instituição estava em risco de cair. A decisão foi tomada na madrugada desta quarta-feira, embora já na véspera tivessem saído notícias sobre um aumento de capital do Santander para absorver o Popular. Se em Portugal, as resoluções do BES e do Banif foram digeridas num fim de semana, aqui o processo parece ter sido decidido em horas, em nome da “salvaguarda da estabilidade do sistema financeiro”.

Santander prepara compra do Banco Popular

A compra por um “preço simbólico” feita por uma instituição com dimensão para absorver no imediato as necessidades financeiras e de liquidez foi a solução em Portugal e Espanha, mas há diferenças.

No caso do Popular, não existe qualquer ajuda de Estado ou apoio financeiro, via empréstimo ou assunção de responsabilidade, a esta operação. Aliás, o ministro da Economia, Luís de Guindos, já tinha sinalizado a indisponibilidade do Governo espanhol para apoiar a instituição que procurava há meses um investidor para realizar um aumento de capital. Para além do Santander, o BBVA e o Bankia terão também olhado para a operação.

O Santander vai assumir todos os encargos da compra do Banco Popular, uma transação que será financiada com o recurso a um aumento de capital em mercado, no valor de sete mil milhões de euros e que se dirige preferencialmente aos atuais acionistas do grupo liderado por Ana Botín.

Em Portugal, a resolução do Banif envolveu ajudas de Estado que podem ir até 3.000 milhões de euros, incluindo o destaque dos ativos e responsabilidades que ficaram do lado do Fundo de Resolução. O valor foi financiado com um empréstimo do Estado.

Quem é salvo e quem perde

Esta foi a primeira resolução bancária feita pelas novas regras europeias, comandada a partir da autoridade de resolução europeia, e não pelo supervisor nacional. No entanto, os grandes depositantes, com valor acima de cem mil euros, foram poupados, pela informação disponível, tal como os detentores de dívida sénior, que passa para o Santander, e as carteiras de investimentos dos clientes.

Já os acionistas do Popular e os detentores de dívida subordinada, que pode ser convertida ou funciona como capital, vão ter perdas. Os cerca de 300 mil acionistas do Popular perdem 100% do seu investimento — as ações já tinham caído 50% em bolsa nos últimos dias, mas a capitalização bolsista do Popular ainda estava acima dos quatro mil milhões de euros.

Os obrigacionistas de dívida subordinada e híbrida, que foram penalizados no Banco Espírito Santo e no Banif, também vão assumir perdas. Segundo o El País, estão em causa investimentos superiores a dois mil milhões de euros. Esta partilha de perdas (na expressão inglesa bail-in) foi uma das razões pelas quais a Comissão Europeia deu a luz verde à transação que terá ainda de ser avaliada do ponto de vista do seu impacto na concorrência em Espanha. O Santander consolida a sua posição como líder do mercado vizinho e também o maior banco ibérico.

E porque caiu o Popular?

A história repete-se. Em Portugal e em Espanha. A instituição com tradição no crédito a empresas, acumulou uma herança de empréstimos em incumprimento que ascendia a 37 mil milhões de euros no final do primeiro trimestre, segundo dados da Bloomberg. Para ter uma ideia da dimensão destes créditos, o malparado em Portugal no final do ano passado estava nos 42 mil milhões de euros.

Os problemas do crédito começaram com a crise de 2008 e com a exposição à bolha no setor imobiliário e de construção no mercado espanhol. Em 2012 — ano em que a banca espanhola teve um resgate internacional de quase 40 mil milhões de euros — o Popular evitou recorrer às ajudas do Estado para o setor depois dos testes de stress terem apontado para insuficiência de capital. Em Portugal, e depois de prejuízos avultados em 2013, acima dos cem milhões de euros, o banco tem apresentado lucros modestos, mas cortou uma parte da sua rede.

O Banco Popular, com uma grande dispersão acionista — Américo Amorim chegou a ter mais de 5%, mas vendeu quase tudo em 2013 — conseguiu levantar mais de cinco mil milhões de euros de capital privado nos últimos anos. Atualmente tinha um rácio principal de 7,33%, um dos mais baixos na banca europeia e procurava investidores para reforçar o seu balanço. Em abril o banco tinha perdido o presidente-executivo, que saiu apenas sete meses depois de ter sido nomeado para o cargo.