Pelo menos 68 grandes clientes do Banco Popular retiraram 2,9 mil milhões de euros em depósitos e aplicações na semana que antecedeu a resolução do banco espanhol. Nesta lista de depositantes, divulgada no dia 31 de dezembro pelo jornal El Mundo, estão várias empresas portuguesas, a Amorim Energia, a EDP Servicios Financeiros e a TAP. Mas também o Banco Espírito Santo, em processo de liquidação. No total, os clientes com depósitos acima de dez milhões de euros, terão retirado perto de quatro mil milhões de euros.

O Banco Popular com sede em Espanha tinha uma operação em Portugal que foi também alvo do processo de resolução por parte das autoridades bancárias espanholas e que resultou na venda ao Santander por valor simbólico em junho do ano passado.

A Amorim Energia, holding que controla a participação do empresário Américo Amorim na Galp Energia, e onde são também acionistas a Sonangol e Isabel dos Santos, levantou 30 milhões de euros. O empresário português, que faleceu em 2017, chegou a ser um dos maiores acionistas do Banco Popular. Amorim chegou a participar nos órgãos sociais do banco espanhol, mas já não era acionista qualificado quando a instituição bancária colapsou.

A lista inclui ainda a TAP, a Transportes Aéreos Portugueses, identificada como uma entidade do setor público, provavelmente porque o Estado tem 50% do capital. A TAP tirou 35 milhões de euros do Banco Popular em Portugal, confirmou entretanto o Observador junto de fonte oficial da empresa.

A EDP Servicios Financieros España retirou 13 milhões de euros, segundo a lista revelada pelo El Mundo onde surgem ainda o Banco Espírito Santo em liquidação, o chamado BES mau que resultou a resolução do banco em 2014, com a retirada de 11 milhões de euros.

Na lista surge igualmente a Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública, designação do IGCP, com a retirada de 12 milhões de euros, e a Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Leiria, com 10 milhões de euros. O Observador questionou o IGCP sobre este movimento, mas ainda não obteve esclarecimento.

Apesar do levantamento de importantes somas por parte de clientes portugueses a dias da resolução, o Observador sabe que algumas destas instituições mantiveram ainda dinheiro no Popular que passou entretanto para a gestão do Santander em Portugal e Espanha.

De acordo com o El Mundo, os grandes clientes do Popular, terão retirado quatro mil milhões de euros na semana que antecedeu a resolução do banco espanhol, anunciada a 7 de junho de 2017. Os depositantes ligados a entidades portugueses foram responsáveis pela saída de mais de 100 milhões de euros. Com este movimento, os grandes clientes, com mais de 10 milhões de euros aplicados no banco, evitaram o risco de serem apanhados nas perdas que foram imputadas a outros investidores.

Segundo as regras europeias de resolução bancária, os grandes clientes podem vir a ser chamados a assumir uma parte das perdas em caso de intervenção pública numa instituição financeira. Este cenário não aconteceu na resolução do Banco Popular. Tal como aconteceu nos bancos intervencionados em Portugal, a maior fatura, de 30 mil milhões de euros, foi parar aos contribuintes espanhóis.

Para a fuga de depósitos, contribuíram ainda grandes instituições públicas espanholas como a Segurança Social, que retirou mais de mil milhões de euros, o governo regional das Canárias, que terá levantado 608 milhões de euros e o câmara de Barcelona, 340 milhões de euros. Outra entidade que levantou dinheiro — 52 milhões de euros — foi a seguradora Allianz, que era acionista de referência do banco, tendo até um vogal no conselho de administração.

Estes levantamentos aconteceram num momento em que o Popular procurava desesperadamente atrair investidores para um aumento de capital que já tinha sido adiado. E tiveram um impacto negativo na liquidez do banco que, conta ainda o El Mundo, pediu ajuda de emergência ao Banco de Espanha dois meses antes de ser sujeito a uma resolução.

A fuga de depósitos é um sintoma recorrente nas semanas que antecedem a resolução de bancos e aconteceu também nos casos portugueses do BES e do Banif, tendo contribuído para a queda destas instituições. Quando é protagonizada pelos maiores clientes pode ser também um sinal de que os grandes investidores teriam mais informação sobre as dificuldades financeiras do Popular e sobre as soluções que estavam a ser preparadas do que o público em geral.

O cenário de que os grandes investidores, sobretudo os públicos, tiveram acesso a informação privilegiada foi logo afastado pelo Governo espanhol. O ministro da Economia, que tutela as finanças espanholas, Luis de Guindos, considerou disparatado pensar que as instituições públicas foram avisadas para retirar o seu dinheiro do Popular, quando deu explicações no Parlamento espanhol a 12 de junho. Para o ministro, os clientes reagiram aos alertas das agências de rating e a informação que já era pública sobre os problemas do banco espanhol.