Donald Trump e a comunicação têm um problema. Por excesso, como se percebeu na atividade que teve durante as férias na sua conta oficial do Twitter, ou por escassez, como se viu na recentes polémica em torno dos protestos em Charlottesville que vitimaram três pessoas, que só mereceu uma posição firme após variadas críticas de democratas e republicanos por não condenar prontamente os atos de racismo e violência. E também o cargo de diretor de comunicação da Casa Branca não é a coisa mais fácil do mundo – que o diga Anthony Scaramucci, que mudou radicalmente de vida por uma aventura que chegou ao fim passados apenas dez dias.

Agora, Hope é a nova esperança de Donald Trump para a posição: a Casa Branca anunciou o nome de Hope Hicks, de apenas 28 anos, como nova diretora de comunicação interina. Conforme é explicado em comunicado, a escolha pessoal de Trump é uma forma de preencher a vaga enquanto se procura alguém com maior experiência para o posto, duas semanas depois da saída prematura de Anthony Scaramucci.

Hicks, que já era diretora estratégica das comunicações na Casa Branca depois de ter sido modelo e trabalhado com Ivanka Trump, filha do presidente norte-americano, tinha estado num papel de relevo da estrutura do atual líder do país durante a campanha, passando agora a gerir a pasta diretamente com Sarah Sanders. Mas não terá uma tarefa fácil: a própria “promoção” na Casa Branca já tinha sido anunciada por diversos meios horas antes da confirmação oficial, destapando de novo o problema das fugas de informação.

Nascida em Connecticut, Hope cresceu com a política e a comunicação na família: é filha de Paulo Burton Hicks III, antigo CEO da reputada agência Ogilvy & Mather que foi durante cinco anos vice-presidente executivo para a parte da comunicação da Liga de Futebol Americano antes de passar a diretor do Glover Park Group, e Caye Ann Hicks, auxiliar legislativa do congressista democrata Ed Jones que conheceu o futuro marido quando este era chefe de gabinete de Stewart B. McKinney, congressista republicano. Até o avô materno foi administrador assistente do Departamento de Agricultura durante as administrações de Lyndon B. Johnson e Richard Nixon.

Mas Hope Hicks teve dois outros grandes interesses quando era mais nova, além da política e da comunicação: foi modelo durante a sua adolescência, tendo mesmo feito uma campanha com a irmã mais velha, Mary Grace, para a Ralph Lauren, além de ter sido capa do ‘The It Girl’, spin off da popular ‘Gossip Girl’ (o New York Post comparou-a a Hilary Rhoda), e jogou (chegou a ser campeã) durante vários anos lacrosse (também sempre gostou de golfe), na Greenwich High School e na Southern Methodist University, onde se especializou em Relações Públicas. Uma particularidade: uma antiga colega de equipa explicou à GQ que tentava dar o exemplo e era contra as festas universitárias com álcool.

https://twitter.com/JuliaArciga/status/800440833975554048

Começou a trabalhar como relações públicas em 2010, após a licenciatura, no Zeno Group, sendo dois anos depois contratada pela Hiltzik Strategies, agência a partir da qual conheceria Ivanka Trump.

O objetivo inicial da nova diretora interina de comunicação da Casa Branca era dar uma nova imagem à linha de roupa e produtos de luxo de Ivanka, ao mesmo tempo que iria trabalhar no desenvolvimento de outros projetos. As coisas correram tão bem que Hope Hicks acabou por juntar-se ao império Trump em agosto e, cinco meses depois, caiu no goto do presidente dos Estados Unidos, que a contratou com apenas 26 anos para fazer a ligação com a imprensa quando ainda não era candidato assumido à liderança do país.

Foi também nessa altura que fez uma produção de moda para Ivanka Trump. Ficou, ficou, ficou (e podia ter continuado apenas na Trump Tower), teve uma rara aparição dando a cara num discurso em dezembro de 2016 e saltou para a Administração Trump após a eleição com o salário mais alto entre todos: 180 mil dólares.

Num longo perfil escrito pelo Politico, Hope Hicks, ou “Hopester”, como o presidente dos Estados Unidos a trata, é descrita como alguém que “entende de forma profunda Trump mas que também percebe o porquê das pessoas não o compreenderem”. A ligação é pessoal ao ponto de haver convites para os pais visitaram a casa de férias de Trump. “É incrível, tem uma incrível capacidade para lidar com a imprensa”, disse o antigo diretor de campanha, Paul Manafort, ao Hartford Courant sobre a quinta pessoa a assumir a direção de comunicação da Casa Branca.

Ao mesmo tempo, é essa relação de cumplicidade a nível profissional que levanta dúvidas na própria imprensa que trabalha na Casa Branca: será ela uma espécie de Sininho que tenta abafar os ímpetos mais explosivos de Trump ou uma incitadora de tomadas de posição radicais? Certo é que “a sua lealdade nunca foi colocada em causa, o seu estatuto no círculo mais próximo do presidente nunca esteve em risco e nunca foi alvo de facadas nas costas por parte de quem trabalha com ela”. É assim também que o Washington Post a descreve.

Alguns exemplos concretos do trabalho com Trump: durante a campanha, era Hicks que tratava dos cerca de 250 pedidos de entrevistas diários e, ao mesmo tempo, funcionava como elo intermédio entre o magnta e a pessoa responsável pelas redes sociais; agora, é a pessoa que se chega à frente nas entrevistas para dizer que pode não responder a algumas perguntas, caso as mesmas possam ser prejudiciais para a Administração (algo que variadas vezes acaba por bater na trave – Trump raramente deixa algo por dizer…). Por isso, muitos estranham o facto de ter sido a única na sala quando Donald Trump deu a mais polémica entrevista do mandato ao The New York Times.

Um dos segredos para a “longevidade” no cargo é a forma como se resguarda, ficando longe dos olhares dos media, recusando fazer intervenções públicas e não utilizando as redes sociais (não tem conta do Twitter e a do Instagram é privada). A amizade com Ivanka, essa, é pública, tendo mesmo feito parte da delegação que visitou o Papa.