Picasso tinha nome de rei: Pablo Diego José Francisco de Paula Juan Nepomuceno María de los Remedios Cipriano de la Santísima Trinidad Ruiz y Picasso. E as histórias da sua vida – as que sabemos e as que ainda estão por contar – também são dignas de escândalos reais. À margem da criação do cubismo e da obra-prima que é Guernica, a vida pessoal de Pablo Picasso foi turbulenta, controversa, adúltera e complicada. Duas mulheres, várias amantes, quatro filhos, nem todos legítimos – é este o balanço final do génio espanhol.

E agora, 44 anos depois da sua morte, Picasso volta a estar na atualidade internacional. A sua última morada, a casa de Notre Dame de Vie, na Côte d’Azur francesa, vai ser vendida em leilão a 12 de outubro. O valor ronda os 20 milhões de euros – naquela que é a ponta pendurada final da polémica herança do pintor.

A casa fica num dos sítios mais caros do mundo, a Côte d’Azur francesa

O El Mundo conta que em 1953, já com 72 anos, Picasso conheceu Jacqueline Roque, que na altura tinha apenas 27. A rapariga, que tinha sido casada com um engenheiro infiel, divorciou-se e levou a filha para França, depois de anos a viver em África. Encontrou trabalho numa oficina de cerâmica em que Picasso era visitante recorrente e foi ali que se viram pela primeira vez. Em relatos antigos, o pintor diz que se apaixonou à primeira vista – mas ela não. O galanteio levou longos meses e Picasso revelou o romântico que tinha dentro dele: dava-lhe uma rosa todos os dias, desenhou uma pomba na parede da sua casa, escreveu-lhe poemas. E Jacqueline rendeu-se. Casaram em 1961, com um advogado como padrinho e uma empregada da limpeza como testemunha. Sem convidados. Sem cerimónia. Jantaram pato, beberam champanhe e depois Picasso fechou-se no ateliê a pintar.

O casal foi viver para a Villa California, uma mansão neoclássica, completamente pintada de branco, em Cannes. Parecia o cenário idílico mas a construção de um arranha-céus ali perto tapou toda a paisagem que era visível a partir da propriedade. Picasso decidiu mudar-se. Comprou à família Guinness uma casa de campo discreta, Notre Dame de Vie, perto da localidade de Mougins. O pintor remodelou-a por completo, instalou um gigantesco estúdio para pintar e até desenhou cada centímetro do jardim.

A mansão foi totalmente renovada antes de Picasso e Jacqueline se mudarem

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Quando Pablo Picasso começou a ficar doente, três dos seus filhos exigiram uma atualização do testamento que os designasse como herdeiros únicos. Acusaram Jacqueline de sequestrar o pai e de o manter refém. Enviaram advogados e notários à propriedade, enquanto Picasso gritava “fora daqui!” da cama e prometia que nunca mais falaria com os três filhos. Cumpriu.

A 8 de abril de 1973, Picasso morreu. E a batalha pela herança do génio tinha no meio Jacqueline. Em 1975, uma nova lei ditou que os filhos ilegítimos tinham direitos diretos sobre tudo o que os progenitores tinha deixado; e nesta altura, os filhos que Picasso tinha tido com uma amante conseguiram, legalmente, inventariar todo o património do pai, incluindo os objetos que estavam dentro de Notre Dame de Vie.

Notre Dame de Vie acabou por se tornar uma propriedade amaldiçoada

Jacqueline Roque entregou-se ao alcoolismo. Zangada com Catherine, a filha do primeiro casamento, viveu a última década da sua vida fechada naquele que foi o seu lar com Picasso. Decidiu concentrar-se na criação de um Museu Picasso em Paris e ofereceu ao Louvre muitos quadros da coleção pessoal do pintor. Ordenou ao advogado que a mansão de Mougins se convertesse num lar de idosos depois da sua morte. A 15 de outubro de 1986, às três da manhã, abriu a gaveta da mesa de cabeceira, tirou uma pistola e deu um tiro na cabeça.

Notre Dame de Vie ficou entregue a Catherine – que preferiu viver no castelo de Vauvenargues, outra das mansões que herdou. Esqueceu-se do último desejo da mãe, de ali fundar um lar de idosos, e deixou a incrível casa da Côte d’Azur vazia e ao abandono. Rebatizada como Antro do Minotauro, num esforço comercial para encontrar um comprador, deteriorou-se durante 21 anos.

Um dos 15 quartos da mansão

Finalmente, em 2008, um comprador belga, colecionador de arte, adquiriu a propriedade por dez milhões de euros. Investiu o mesmo valor para recuperar a casa e em 2013 tentou o quase impossível: colocou-a à venda em leilão pelo valor de 170 milhões de euros. Ninguém a quis comprar. Em 2016, um milionário investidor do Sri Lanka fez uma oferta de valor desconhecido e o belga aceitou. Mas, por motivos que ainda hoje permanecem um mistério, o investidor acabou por desistir da compra.

O jardim foi pessoalmente desenhado por Picasso

Agora, depois de mais uma operação de renovação, a Notre Dame de Vie volta a estar à venda em leilão: desta vez por 20 milhões de euros. A mansão, que fica num dos sítios mais caros do mundo – a Côte d’Azur francesa – tem quadros originais de Picasso e os detalhes enumerados no site da imobiliária responsável são incríveis: 17 mil metros quadrados construídos num terreno de 33 mil metros quadrados, com sete apartamentos para hóspedes, um jardim desenhado pelo próprio pintor, 15 quartos, nove casas de banho, três lareiras, ar condicionado, uma adega com capacidade para 5 mil garrafas, piscina, ginásio e banho turco.

A imobiliária refere ainda que uma centena de trabalhadores estiveram durante dois anos às ordens do designer de interiores Axel Vervoordt para restaurar a casa exatamente como Jacqueline a deixou: incluindo os óculos de leitura de Picasso.

A casa custa 20 milhões; um quadro de Picasso não custa menos de 100 milhões.