Se perguntarmos a qualquer criança (estamos a generalizar, mas será certamente a maioria) o que quer ser quando for grande, há uma resposta que salta sempre para o top das nomeações: jogador de futebol. Depois, a partir daí, há aquela distância entre o querer e o poder, que vai filtrando, filtrando e filtrando nomes até aos 18 anos. Aí, a melhor prenda já é um telemóvel novo, um carro no limite. Para Mile Svilar, que chegou a Lisboa e ainda nem a maioridade tinha atingido, não foi nem telemóvel, nem carro mas sim um contrato profissional para assinar pelo Benfica.

Estávamos no final de agosto e teríamos de esperar até hoje, meio de outubro, para fazer a estreia com a camisola dos encarnados. Uma estreia pelo Benfica e que foi também uma estreia para si, como profissional sénior. E uma estreia para a história: o jovem belga tornou-se o guarda-redes mais novo de sempre entre os mais de 70 que já passaram pela baliza das águias, superando a marca de Manuel Abrantes (18 anos e cinco meses) que vinha de 1966/67, quando foi lançado num encontro frente à Ovarense. Mais novo só mesmo João Persónio, que ainda com 17 anos, no longínquo ano de 1907, alinhou num jogo a contar para o Campeonato de Lisboa.

Filho de um ex-guarda-redes (Ratko Svilar, que esteve na seleção da Jugoslávia presente no Mundial de 1982 e que fez sobretudo carreira no Antuérpia), o belga foi internacional em todas as camadas jovens e deu nas vistas pelo Anderlecht sobretudo na Youth League, com 15/16 anos, o que lhe valeu um período experimental no Chelsea entre outras sondagens dos grandes de Inglaterra como o Manchester United ou o Arsenal. Acabou sempre por ficar no Anderlecht apesar desse assédio até que, este Verão, quis mesmo sair para a Luz a troco de 2,5 milhões de euros.

Quando chegou, mostrou que tinha a lição estudada: falou de Eusébio, das duas Taças dos Clubes Campeões Europeus, de Rui Costa e do estádio da Luz. E vinha em forma, até porque, mesmo quando está de férias, tem um personal trainer para ir trabalhando durante as paragens competitivas. Tudo pensado para lutar pela titularidade e poder transformar-se no próximo Oblak (que, curiosamente, também se estreou frente ao Olhanense no Algarve, entrando para o lugar do lesionado Artur Moraes) ou Ederson, como o próprio referiu na apresentação. Sabia ao que vinha e contou também com os conselhos de alguém que conhece bem o clube encarnado: Matic.

É comparado com Thibaut Courtois mas Iker Casillas, agora rival no FC Porto, foi a primeira grande referência (tem até um par de luvas e uma camisola do campeão europeu e mundial), como contou ao site da UEFA durante o Campeonato da Europa Sub-17, em 2016 (ganho por Portugal). No entanto, Manuel Neuer, o número 1 do Bayern, também lhe enche as medidas. E, a ver pelas constantes referências na conta oficial nas redes sociais, Keylor Navas, do Real Madrid, é outro dos guarda-redes que admira. Mas podia ser Cristiano Ronaldo, Messi ou Hazard: além da rapidez da execução e da agilidade, vem rotulado como um guarda-redes com tanta técnica a jogar a bola com os pés que poderia sem problemas ser um jogador de campo. E esta, hein?

Svilar não é o jogador mais novo de sempre a atuar pelo Benfica. Há Hugo Leal, que tinha 16 anos e dez meses, há Chalana, há José Gomes, há Maniche, há Gonçalo Guedes, todos a estrearem-se com menos de 18 anos. Mas tornou-se a partir de hoje o guarda-redes mais novo de sempre a defender a baliza encarnada nos últimos 100 anos, superando a anterior marca de Manuel Abrantes e de outros jovens como Bráulio, Dyson, Moreira, Rui Nereu ou Machado.

Mas fomos mais longe e andámos a ver nos livros históricos como o ‘Almanaque do Benfica’ com que idade se tinham estreado os dez guarda-redes com mais presenças de sempre pelas águias. E os resultados encontrados foram estes:

* Manuel Bento, 465 jogos: fez a estreia com 24 anos em abril de 1973 frente ao Farense (5-0)

* Costa Pereira, 358 jogos: fez a estreia com 24 anos em setembro de 1954 frente ao V. Setúbal (5-0)

* José Henrique, 297 jogos: fez a estreia com 24 anos em junho de 1967 frente à Académica (0-2)

* Martins, 265 jogos: fez a estreia com 25 anos em outubro de 1938 frente ao Sporting (1-2)

* Silvino, 258 jogos: fez a estreia com 27 anos em agosto de 1986 frente ao FC Porto (2-2)

* Michel Preud’Homme, 199 jogos: fez a estreia com 35 anos em agosto de 1994 frente ao FC Porto (1-1)

* Quim, 157 jogos: fez a estreia com 29 anos em outubro de 2005 frente ao FC Porto (2-0)

* Artur Moraes, 144 jogos: fez a estreia com 30 anos em julho de 2011 frente ao Trabzonspor (2-0)

* Moreira, 138 jogos: fez a estreia com 19 anos em novembro de 2001 frente ao V. Guimarães (0-0)

* Neno, 133 jogos: fez a estreia com 24 anos em novembro de 1986 frente ao Alverca (2-0)

O mais curioso é que, neste “impasse” entre Bruno Varela (que começou a época a titular), Júlio César (que ganhou entretanto a titularidade) e Svilar (que vai agora lutar para se manter como número 1), o Benfica assegurou a contratação do internacional Sub-21 alemão Vlachodimos, que estava (e ainda está) no Panathinaikos.

Durante a semana, e após a devida autorização do exército grego (está a cumprir serviço militar obrigatório), o guarda-redes deslocou-se a Lisboa (terá estado em três hotéis diferentes em dois dias, para passar despercebido e não ser apanhado) e terá assinado contrato com os encarnados até 2022 ou 2023. A única dúvida do negócio, que envolverá uma verba a rondar os 1,7 milhões de euros, é apenas se vem já em janeiro ou só na próxima época.

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