A apresentação do Semi, o camião eléctrico da Tesla, abafou quase por completo a primeira aparição perante o público do novo Roadster da marca americana. E é pena, pois se ao veículo pesado não faltam características entusiasmantes, então o que dizer do coupé, que se assume, de forma folgada, como o desportivo mais rápido do mundo.

Com linhas fluidas e elegantes, em certos aspectos a recordar algumas soluções estéticas dos McLaren, o Roadster tem um aspecto discreto, o que só é possível porque os seus motores eléctricos não necessitam de tantas entradas de ar, para alimentar o motor e refrigerá-lo, bem como saídas, para extrair o calor que seria gerado caso montasse uma mecânica possante a gasolina. Mas se a carroçaria é mais elegante do que agressiva, sob as suas roupagens está um verdadeiro monstro de força e rapidez.

Taco a taco com um Fórmula 1

Os números falam por si, com ênfase na capacidade de aceleração de 0 a 60 milhas por hora (96,6 km/h). Esta fasquia é ultrapassado pelo novo desportivo de 2+2 lugares nuns céleres 1,9 segundos, no modo de condução mais desportiva, a que Musk já não chama Ludicrous, mas sim Maximum Plaid. Estamos a falar de uma aceleração ao nível de um Fórmula 1, pelo que o esforço aplicado sobre o pescoço é de tal forma elevado que pode provocar uma lesão muscular se a cabeça não estiver bem encostada às costas do banco.

Se a diferença entre chegar a 96,6 ou a 100 km/h, num desportivo que com cerca de 800 cv é de apenas 0,1 segundos (caso do Ferrari 812 Superfast ou do McLaren 720S), é mais que provável que para o Roadster seja apenas uma fracção disso, o que lhe deverá permitir continuar dentro dos 1,9 segundos de 0-100 km/h.

Mas, depois de atingir 100 km/h, o desportivo da Tesla continua a acelerar por aí fora a um ritmo alucinante, com os 0-160 km/h a serem consumidos em somente 4,2 segundos, e o quarto de milha (medição muito cara aos americanos, que consiste em acelerar até aos 402,25 metros) nuns incríveis 8,8 segundos. Se quer ter uma ideia da importância deste valor, sempre lhe podemos recordar que os monstros sagrados dos desportivos – estamo-nos a referir aos míticos Ferrari LaFerrari, McLaren P1 e Porsche 918 Spyder – fazem todos 9,8 segundos. O novo McLaren 720S cumpre esse objectivo em 9,9 segundos, o Porsche 911 Turbo S em 10,5 segundos e até o Koenigsegg Agera RS (uma versão especial com 1378 cv, o novo recordista na aceleração de 0-400 km/h e travagem até zero), passa pelo quarto de milha em 9,96 segundos, não se esperando que o Bugatti Chiron anuncie um valor muito melhor do que este.

50.000 dólares pelo carro mais rápido do mundo

Depois de, durante a apresentação, se tornar evidente a capacidade de aceleração do Roadster da Tesla, com o coupé eléctrico a “aviar” praticamente um segundo a superdesportivos com cerca de 1.500 cv, não faltaram os clientes que, no final do evento, se dirigiram aos terminais que Elon Musk montou na área em que decorreu a revelação ao público do Semi e do desportivo, para serem os primeiros a se tornarem nos felizes – espera-se – proprietários do Roadster, transferindo para a Tesla um depósito de 50.000 dólares, como sinal.

Isto é de salientar, mais que não seja por confirmar a confiança que os clientes continuam a ter no construtor, quando se sabe que o fabricante está com dificuldades em produzir ao ritmo necessário o Model 3. E só depois de resolver este problema, que lhe está a afectar gravemente as finanças, é que se poderá dedicar ao Semi, com o Roadster a ser o projecto que se segue ao veículo pesado.

A todos os clientes que realizaram a transferência, bem como a alguns convidados, foi permitido experimentar ao lado de um piloto da marca, a imensa capacidade de aceleração do coupé. Tendo em conta que o Roadster vai ser capaz de superar os 400 km/h (Musk afirmou que ultrapassaria as 250 milhas por hora, ou seja, 402,25 km/h), o arranque de zero a 81 milhas, qualquer coisa como 130 km/h, deveria saber a pouco. Mas foi o suficiente para que todos saíssem de lá muito animados, a começar por Brooks Weisblat, o homem da DragTimes que possui uma garagem recheada, com destaque para o novo McLaren 720S, que já colocou frente a frente inúmeras vezes com o também seu Model S P100D.

Para quem já está habituado aos 2,9 segundos de 0 a 100 km/h do McLaren e aos 2,3 segundos do P100D em modo Ludicrous, bem que se pode dizer que Weisblat ficou impressionado com a sua mais recente aquisição. O que não é de estranhar para um modelo que anuncia a brutalidade de 10.000 Nm de binário (o motor de 16 cilindros e quatro turbocompressores do Chiron debita uma força de “apenas” 1.600 Nm) e, ainda que se desconheça a potência total, sabe-se que os três motores (um à frente e dois atrás) são alimentados por uma bateria com a capacidade de 200 kWh, o dobro da que impulsiona o P100D.

Acompanhe aqui a experiência de Brooks Weisblat, do momento em que deposita o sinal – de 250.000$, ou seja o valor total do coupé, uma vez que encomendou a versão Founders Series, que obriga ao pagamento total antecipado – até às sensações a bordo do Roadster, similar ao que a Tesla lhe vai entregar em 2020, 2021…

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O melhor desportivo por uma pechincha

Depois de impressionar os potenciais clientes com a sua capacidade de aceleração e velocidade máxima, o Tesla Roadster tinha ainda um argumento na manga para aliciar os mais indecisos. E este trunfo é o preço, que começa nos 200.000 dólares (cerca de 170.000€), com os primeiros 1.000 clientes a terem a hipótese de adquirir uma versão especial do coupé eléctrico denominada Founders Series, com mais uns pormenores não especificados e um preço de 250.000 dólares.

As primeiras unidades do Roadster vão começar a ser produzidas em 2020 – e com a tendência da Tesla em atrasar os calendários de entregas, é melhor esperar sentado até 2021 –, mas nada disto parece assustar os clientes, ou mesmo a bolsa, uma vez que as acções do construtor subiram generosamente nos dias antes e depois da apresentação dos novos modelos. Contudo, o que verdadeiramente surpreende é o preço de 200.000 dólares para a versão normal do Roadster. Primeiro, porque quando comparado com o mais possante dos Model S, o P100D, proposto por 140.000 dólares nos EUA (e 152 mil euros entre nós, valor que já inclui 28.000€ de IVA), o Roadster custa apenas mais 42%, pouco se tivermos em conta que tem o dobro da bateria (a peça mais cara do modelo), deverá ter várias vezes a potência e usufrui de 10 vezes mais força (10.000 Nm contra 967 Nm do P100D).

Para vermos até que ponto é mais barato do que a concorrência o coupé eléctrico americano – a que se pode retirar a parte central da capota para o converter num descapotável tipo targa –, este que passa a ser o desportivo mais rápido do mundo, e um dos mais velozes, é proposto por menos 90.000 dólares do que o McLaren 720S (290.000$), menos 94 mil dólares do que o novo Porsche 911 GT2 RS (294.000$), menos 115.000 dólares do que o Ferrari 812 Superfast (315.000$) – a Ferrari tem mesmo de repensar esta designação –, e menos 240.000 dólares do que o Lamborghini Aventador S (440.000$), isto considerando sempre os valores pelos quais os modelos são propostos nos EUA. A vantagem do Roadster é enorme, mesmo apesar de todos estes desportivos serem consideravelmente menos velozes e mais lentos.

E se está a pensar que o Tesla vai ter desvantagem na autonomia, prepare-se para uma surpresa. E das boas. Elon Musk anunciou que o Roadster tinha a capacidade de percorrer 620 milhas (998 km) entre recargas de bateria, à velocidade de auto-estrada, ou seja, entre 115 e 130 km/h, consoante os diferentes estados americanos. Se acha pouco os quase mil quilómetros de autonomia, à velocidade de passeio, é bom recordar-se que, com base igualmente nos valores anunciados pelos fabricantes, o depósito cheio do Lamborghini dá-lhe apenas para percorrer 500 km e o do Ferrari pouco mais de 600 km. É claro que, se acelerarmos a fundo, a situação muda de figura, mas para todos os desportivos, sejam eles a gasolina ou eléctricos. Se não acredita, então lembre-se que o Bugatti Chiron, por exemplo, se andar a fundo, esgota o seu depósito de 83 litros em apenas nove minutos. Mesmo a 420 km/h, percorre 7 km por minuto, o que significa que devora o conteúdo do depósito em 63 km. A uma média de 76 l/100 km.

É claro que atestar com gasolina é ainda menos moroso do que com electricidade, mas também aqui a Tesla prepara algumas surpresas. Estas tornaram-se óbvias depois de a marca anunciar que o camião Semi pode recarregar a energia suficiente para lhe assegurar mais 620 km, em apenas 30 minutos.