É vermelho, descapotável – não que o clima marciano seja propício a conduzir de cabelos ao vento – e vai deixar a Terra rumo a Marte a uma velocidade nunca vista, ao ritmo da canção Space Oddity, de David Bowie. Este é, resumidamente, o programa da viagem prevista para o Tesla Roadster da primeira geração, que Elon Musk, o homem aos comandos da Tesla e da SpaceX, está a preparar breve. E a novidade é que o Roadster já está devidamente instalado dentro do porão de carga do imenso foguetão, com 70 metros de altura e 27 motores, divididos por três grupos.

Esta é uma viagem que dificilmente arranjaria voluntários – ou até mesmo astronautas profissionais, pagos a preço de ouro – para seguir a bordo. A SpaceX necessita de testar o seu maior foguetão, o Falcon Heavy, basicamente formado por três corpos do Falcon 9 juntos, lado a lado, sendo que o Falcon 9 acabou de bater o recorde de eficácia, atingindo 18 missões espaciais num só ano (entre viagens à Estação Espacial Internacional e lançamento de satélites), sem qualquer problema.

O problema é que o Falcon Heavy não pretende visitar a Estação Espacial Internacional (408 km), nem colocar um satélite numa órbita estacionária de baixa altitude (2.000 km), ou até mesmo posicioná-lo numa órbita geoestacionária (35.786 km), operações que o Falcon 9 é exímio a realizar, com a melhor eficácia da história. E os custos mais reduzidos também.

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Aliás, o Falcon Heavy nem pretende rumar à Lua, a uns mais respeitáveis 384.400 km da Terra, pois o seu objectivo é Marte, que está “só” a uma distância média de 225 milhões de quilómetros do nosso planeta (na realidade está entre 54 e 401 milhões, dependendo da ocasião, pois ambos os planetas orbitam em torno do Sol de forma não concêntrica). Ora sucede que, à semelhança de muitos outros desafios de Musk, este voo nunca foi tentado. E, como quase sempre acontece, o sul-africano está apostado em consegui-lo primeiro.

A viagem, que terá lugar já em Janeiro de 2018, será um teste. Ou, melhor, permitirá vários testes num só lançamento, pois a SpaceX vai querer saber primeiro se o Heavy voa, depois se consegue recuperar intactos (como já faz com o Falcon 9) os 18 motores (9+9) e os dois depósitos de combustível laterais, destinados apenas a elevar o foguetão para fora da atmosfera terrestre (o que irá acontecer em pouco menos de três minutos). Se tudo correr bem, então será altura de perceber até onde o Heavy poderá ir e apreender com a experiência, sabendo-se que a próxima vez que a Terra vai estar mais próxima de Marte vai ser em Julho do próximo ano (cerca de 55 milhões de quilómetros), cerca de seis meses depois do Falcon Heavy descolar da Terra.

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Se tudo correr bem, o Roadster não voltará à Terra e será mais um objecto produzido pelo homem a divagar eternamente pelo espaço, na esperança que um qualquer extraterrestre tenha uma paixão por desportivos vermelhos e descapotáveis. Será um sucesso para a SpaceX e para a Tesla, bem como para Elon Musk, que irá comercializar de seguida o maior potencial para transportar carga do Heavy, face ao actual Falcon 9, até para lançamentos em órbitas geoestacionárias e de baixa altitude. Isto enquanto não tem pronto o seu próximo grande foguetão, que deverá surgir depois de 2020, o denominado BFR – sendo que o B significa Big e o R é de Rocket, não existindo muitas alternativas para o F…

Caso o lançamento seja um fiasco, não passará de um dispendioso deslize, pouco grave quando comparado com o que aconteceu com a família de foguetões Saturno V, que levou os astronautas à Lua e até o Space Shuttle. E o Tesla Roadster? Bem, o descapotável será, muito provavelmente, a “peça” mais barata entre as muitas que estão a bordo, pelo que se tudo terminar numa imensa bola de fogo na rampa de lançamento, será apenas mais um automóvel de reparação altamente improvável.