A 70 metros de distância já se ouviam os gritos. Eram 10 horas da noite do dia 25 de dezembrode 2016. Pedro e Adolfo (nomes fictícios atribuídos pelo jornal El Español) estavam a passar na rua Bao, no Boiro, na Corunha, Espanha, que estava “vazia e muito escura”.

Primeiro, não demos importância aos gritos. Seria uma coisa qualquer. Mas quando subimos a rua, o volume da pessoa a gritar era maior, embora ainda não pudéssemos ver nada”, recorda Pedro ao jornal El Español.

Quanto mais próximos, mais se ouviam os gritos. Os dois rapazes começaram a andar mais rapidamente. À medida que subiam a rua, tornou-se mais claro: os gritos eram de uma rapariga. Naquele momento não o sabiam mas eram os de Beatriz (também um nome fictício escolhido pelo mesmo jornal): uma rapariga que estava prestes a ser uma vítima de José Enrique Abuín Gey, conhecido na região como El Chicle, que confessou no passado dia 31 de dezembro ter tentado violar Diana Quer e a estrangulado até à morte. A história de Beatriz não teve o mesmo desfecho da de Diana Quer: Pedro e Adolfo impediram El Chicle de sequestrar a jovem. Depois de salva, Beatriz contou o episódio aos dois rapazes que agora a contaram ao jornal El Español.

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“Uma névoa fina cai como um manto sobre as ruas abandonadas de Boiro”. Às 10 horas da noite do dia 25 de dezembro, a jovem, Beatriz, passava no cruzamento da rua do Cruceiro com a Bao. Ia encontrar-se com amigos para beber um copo. Num dos lados do cruzamento, estava um Alfa Romeo cinzento estacionado e o seu condutor está do lado de fora.

— Carla, você é Carla.

— Não, eu não sou Carla.

— Sim, você é a Carla. Vem, esta é uma pequena brincadeira do teu namorado.

Naquele momento, El Chicle agarrou Beatriz e começou a tentar enfiá-la na bagageira do carro. A jovem, em pânico, tentou defender-se e começou a gritar: “Não sou a Carla. Eu mostro a minha identificação!”. Tentou lutar com ele com as unhas e com os dentes. Foi nesse momento que Pedro e Adolfo chegaram ao cruzamento. “O porta-bagagem estava aberto e ele estava a lutar com ela. A jovem tinha todo o corpo metido dentro do porta-bagagem, exceto as pernas”, recorda Pedro. “Venham aqui, rapazes, ajudem-me, por favor!”, terá gritado a jovem. Nesse momento, Pedro e Adolfo aproximaram-se para ajudar . “Cuidado, ele tem uma faca”, alertou Beatriz. Quando El Chicle se apercebeu que não estava sozinho, libertou Beatriz, que correu em direção aos dois rapazes.

A verdade é que tudo aconteceu muito rapidamente porque, assim que a menina chegou a onde Adolfo e eu estávamos, ele fechou o porta-bagagem e entrou no carro para escapar”, lembra Pedro.

Beatriz, desorientada e nervosa, ainda pediu aos dois rapazes para tirar a matrícula do carro. “Por sorte, conseguimos tirar a matrícula: termina com DYN”, disse Pedro. Os dois jovens levaram Beatriz para um bar perto do cruzamento, o bar Las Vegas, para acalmar e chamaram a polícia. “A menina chorou e chorou. Enquanto isso, eles [Pedro e Adolfo] chamaram a polícia e uma ambulância. Eles apareceram após cinco minutos”, recorda o dono do estabelecimento.

O bar estava cheio mas ninguém se apercebeu do que estava a acontecer lá fora, garante o dono. Algo de que Pedro duvida: “Não percebo como ninguém se apercebeu. Nós estávamos a cinquenta metros e os gritos foram ouvidos. Quero acreditar que qualquer pessoa que passasse ali faria o mesmo que nós”.

Pedro conta que a jovem foi levada para o hospital e encontrou-se com ela no dia seguinte. Beatriz contou-lhe a história, com mais pormenor. Esclareceu que El Chicle não tinha uma faca mas, sim, um pé de cabra. Enquanto a tentava pôr no carro, El Chicle terá dito: “Dá-me o teu telemóvel, dá-me o teu telemóvel, dá-me o teu telemóvel”.

Beatriz conseguiu que ele não lhe tirasse o telemóvel e chegou mesmo a gravar, sem querer, um áudio — que foi mostrado às autoridades — onde se ouvem os gritos e a voz de El Chicle. Menos sorte terá tido Diana Quer, que foi encontrada morta 496 dias depois de desaparecer.