Super Bowl

E aquela vez em que Janet Jackson mostrou o peito? As peripécias do intervalo do Super Bowl

Trinta segundos de publicidade no intervalo custam 50 milhões de dólares. Mas nem tudo corre sempre bem. Já houve atuações que mudaram a Internet e outras que salvaram carreiras. Reveja-as.

AFP/Getty Images

Justin Timberlake está prestes a tornar-se no artista que mais vezes subiu ao palco que coroa o intervalo do Super Bowl, o maior evento desportivo do país e um dos maiores do mundo. Fazia-lhe falta, já que as estatísticas dizem que os cantores que atuam neste evento veem subir as vendas dos álbuns que lançaram no passado. Mas levar Timberlake para o palco do Super Bowl é o mesmo que trazer à memória aquele evento que, no início do milénio, seria suficientemente ultrajante para mudar o mundo da Internet. Lembra-se quando o autor de “Can’t Stop The Feeling” expôs o seio de Janet Jackson em direito para mais de 143 milhões de pessoas?

Recorde este e outros momentos marcantes do intervalo mais caro do mundo.

Há dois lançamentos na segunda parte por culpa da televisão

1967

No primeiro Super Bowl de sempre — que não se chamava assim à época, mas antes “The AFL-NFL World Championship Game” porque juntava os dois campeonatos de futebol americanos antes da fusão –, havia duas televisões a transmitir o evento em direto. A CBS tinha contratado Pat Summerall, antigo jogador e narrador de futebol americano, para acompanhar o Super Bowl; enquanto a NBC tinha escolhido Charlie Jones, jornalista desportivo com sete anos de experiência. Acontece que a NBC perdeu o lançamento da segunda parte porque tinha aproveitado o intervalo para entrevistar o comediante Bob Hope, que era também conselheiro do Los Angeles Rams.

Como a jogada não apareceu na televisão, o árbitro ordenou a repetição do lançamento e pediu ao narrador da CBS que fosse avisar Vince Lombardi, o lendário treinador dos Green Bay Packers (que viriam a ganhar a partida) do que tinha acontecido. Mas Pat Summerall não foi: tinha vergonha porque já tinha sido treinado por Vince Lombardi em Nova Iorque.

Michael Jackson fica três minutos só a receber aplausos

1993

É a Michael Jackson que o Super Bowl deve o facto de as audiências terem parado de baixar para três quartos durante os intervalos. Durante os primeiros vinte anos do evento, os intervalos das partidas eram preenchidos com produções baseadas em temas e normalmente entregues à Walt Disney e outras empresas que tais. Nos anos 80, a organização quis fazer do intervalo um verdadeiro programa dentro do programa, mas foi preciso esperar até à chegada de Michael Jackson para que a nova técnica desse realmente resultado: essa foi a primeira vez que um espetáculo no intervalo envolveu arranjos pirotécnicos, jogos de fumos e coreografias complexas. Michael Jackson saltou do meio do palco e ficou quieto, de óculos de sol e roupa inspirada nas fardas militares apenas a receber aplausos durante três minutos.

Foi bom para toda a gente: para o Super Bowl porque o espetáculo tinha sido tão mau em 1992 que boa parte da audiência tinha mudado de canal para a FOX para ver a série “In Living Color”; era bom para o artista porque o hip-hop estava a ganhar espaço ao pop e Michael Jackson estava a perder popularidade; e era bom para o público porque nunca mais tinha de ver aborrecidos espetáculos “amigos das famílias”.

Janet Jackson mostra a mama no intervalo do Super Bowl

2004

Janet Jackson, irmã de Michael Jackson, era uma espécie de madrinha musical para Justin Timberlake, que era um adolescente na altura a dar os primeiros passos com os N’Sync. Com apenas 23 anos, Justin já tinha acompanhado Janet Jackson em dois espetáculos mundiais da cantora, usando-os como montra para a banda, mas também para uma carreira a solo que pode ter começado quando Timberlake cantou “Overjoyed” de Stevie Wonder a capella na turné The Velvet Rope World Tour. Os dois tornaram-se tão amigos que Justin Timberlake convidou-a para participar na canção “(And She Said) Take Me Now” do álbum Justified. Sobre essa colaboração, Timberlake disse: “Escrevi o refrão a partir de uma perspetiva feminina. Pensei que nós poderíamos ter uma mulher nessa parte. O nome dela foi o primeiro que surgiu na minha mente porque eu adoro a voz dela. Parece plumas. Quero dizer, ela soa como um anjo”.

O que aconteceu no intervalo do Super Bowl de 2004 não foi, no entanto, nada de angelical. Janet Jackson atuava em Houston quando Justin Timberlake apareceu no espetáculo como artista surpresa e cantou “Rock Your Body” com ela. Tudo bem até aqui — pelo menos tendo em conta que as coreografias sensuais entre os dois eram parte normal — até à parte em que Timberlake cantou o verso: “Gotta have you naked by the end of this song”. Em português isso significa: “Tenho de te deixar nua até ao fim desta música”, mas até para quem não entendia nada de inglês, o que veio a seguir foi bastante explícito: Justin Timberlake agarrou numa parte do corpete de Janet Jackson e arrancou-o, expondo a mama direita para 143 milhões de pessoas. Durante meio segundo, toda a gente pode olhar sem censura para o peito da irmã de Michael Jackson com um piercing a ocultar o mamilo.

O mundo mudou a partir daquele dia. Os agentes de Janet Jackson e Justin Timberlake desculparam-se dizendo que era suposto expor apenas o soutien vermelho da cantora, mas que uma falha na criação da roupa fez com que a parte exterior também foi retirada. Foi por isso que organização do Super Bowl implementou um atraso obrigatório de cinco segundos em todas as performances para evitar que outro “Nipplegate” — sim, esse foi o nome dado à “nudez acidental” de Janet Jackson — voltasse a acontecer na televisão norte-americana. Ainda assim, a Comissão Federal de Comunicações aumentou a multa para indecência na comunicação social de 27,5 mil dólares para 325 mil dólares.

Esses números nem sequer foram os mais impressionantes da história. À conta do “Nipplegate”, Janet Jackson entrou no livro do Guinness como “a mais procurada na Internet” e “a mais procurada nas notícias”. O episódio com Justin Timberlake foi o mais visto de sempre da TiVo, um famoso gravador de vídeo digital, e até o termo “wardrobe malfunction [problema no vestuário]” entrou no Webster’s Dictionary, um dos dicionários mais utilizados da língua inglesa. Em 2007, três anos depois do Nipplegate, o co-fundador do YouTube também admitiu que aquele episódio motivou ainda mais à criação da marca.

O sugestivo perfil de Prince no concerto do intervalo

2007

Está tudo a correr bem, não fosse Prince o icónico dono e senhor do intervalo mais caro do mundo. Vestido de azul, cor de laranja e, claro, púrpura, Prince entrou no Dolphin Stadium, em Miami, com uma chuva miudinha que vinha mesmo a calhar para tocar “Purple Rain”. Antes de tocar a música mais famosa do repertório, o artista levou o público ao rubro ao cantar covers de outros grandes cantores, desde “We Will Rock You” dos Queen a “Best of You” dos Foo Fighters. Claro que a chuva que caía naquela noite tinha de se transformar em púrpura e Prince não desiludiu quando trocou de guitarra para uma com um formato extravagante só para interpretar a música mais famosa que lhe é conhecida.

Há quem diga que o que veio depois é provavelmente a melhor performance ao vivo que Prince alguma vez protagonizou de “Purple Rain” — mas pode tirar as suas próprias conclusões no vídeo mais em baixo. No entanto, Super Bowl não é espetáculo merecedor desse nome se não houvesse uma polémica. É que, ali mesmo a chegar ao solo de guitarra, baixou-se um lençol branco. Prince pôs-se atrás dele em contraluz para continuar o espetáculo, mas foi tramado: daquela perspetiva, o perfil dele com o braço da guitarra originaram um formato demasiado sugestivo. Estava lançado o burburinho, mesmo no seio de um dos concertos mais memoráveis do Super Bowl.

A luz do estádio vai abaixo e interrompe jogo por 34 minutos

2013

O jogo entre os Baltimore Ravens e os San Francisco 49ers, em New Orleans, estava a entrar no primeiro minuto da segunda parte quando as luzes do Estádio Mercedes-Benz Superdome foram abaixo. Embora algumas das luzes de presença tenham ficado ligadas durante todo o tempo, a partida teve de ser interrompida durante mais de meia hora e até a transmissão televisiva teve de ser parada porque, bem… não havia nada para ver. A Entergy, empresa responsável pelo fornecimento de luz àquele estádio, disse que a quebra de eletricidade tinha sido causada por uma “anormalidade no sistema”: ao que parece, um equipamento que monitoriza a carga elétrica “detetou uma anormalidade” que levou ao corte. Talvez tenha sido consequência do show frenético, de luz e cor, que a cantora Beyonce tinha acabado de dar.

Só ao fim de 34 minutos a luz voltou e o jogo foi retomado. Mas o incidente teve reflexos no confronto entre as duas equipas: é que se até ali os Baltimore Ravens estavam a dominar completamente o jogo e a ganhar aos San Francisco 49ers por uns estrondosos 28-6, o intervalo forçado no Estádio Mercedes-Benz Superdome parece ter dado tempo aos 49ers para respirar fundo, repensar a estratégia e reentrar para o jogo com outro fôlego. Iam conseguindo dar a volta. No final da partida, os Baltimore Ravens ganharam, sim, mas tiveram de suar as estopinhas — mais do que alguém poderia prever antes do black out: o marcador ficou nos 34-31, para os Ravens.

Red Hot Chili Peppers atuam, mas instrumentos não estavam ligados

2014

Neste ano, Bruno Mars já era um fenómeno mas ainda não tinha chegado aos píncaros da carreira, como parece ter acontecido agora, passados quatro anos. Ainda assim, o espetáculo que deu no intervalo do Super Bowl não desiludiu. O que desiludiu nesse ano foram, isso sim, os parceiros de performance de Bruno Mars, os Red Hot Chili Peppers. E não, o problema não foi exatamente a falta de qualidade da banda, que foi ao MetLife Stadium interpretar “Give It Away” com o cantor pop. Na verdade, estava tudo perfeito. Demasiado perfeito.

A questão foi toda essa. Um olhar mais atento para o palco ali montado e descobria-se facilmente porque é que os instrumentos dos Red Hot Chili Peppers, com especial atenção para as guitarras, soavam tanto a um CD gravado: é que era mesmo um CD gravado. Nem o guitarrista nem o baixista tinham os instrumentos ligados: “Quando a NFL e o Bruno nos pediram para tocar a nossa música “Give It Away” no Super Bowl, ficou claro para nós que as vozes seriam ao vivo, mas o baixo, a bateria e a guitarra seriam pré-gravados. Eu entendo a posição da NFL sobre isso, uma vez que eles têm poucos minutos para configurar o palco. Há um monte de coisas que podem não funcionar e arruinar o som. Não havia espaço para argumentar sobre isso, a NFL não quer arriscar que seu espetáculo seja esmagado por um som mau, ponto final”.

Beyoncé presta polémica homenagem aos Black Panther

2016

Os Coldplay eram os cabeça de cartaz do intervalo há dois anos, mas vamos passar à frente deles (porque, na verdade, é o que muitos fãs têm feito). Bruno Mars voltou aos palcos, mas foi Beyoncé que dominou o espetáculo ao levar para palco a música “Formation” com um exército de dançarinas bem coreografadas. Como toda a gente está habituada a uma boa performance de Queen Bey, o que mais chamou a atenção naquele intervalo foi a roupa da cantora. E não, não foi por ser extremamente parecida à fatiota que Michael Jackson usou nos anos 90: foi porque era em tudo igual às fardas dos Black Panther, um partido ligado ao nacionalismo negro.

Naquele dia, toda a gente se apercebeu que, afinal, Beyoncé era negra e que gostava de levar os assuntos raciais para a forma de fazer arte que adotou — nada que quem estivesse atento ao videoclip de “Lemonade” estranhasse, já que tinha muitos sinais evidentes de que Beyoncé estava alinhada com o movimento #BlackLivesMatter. Os departamentos policiais de algumas cidades declararam que nunca iam ceder segurança a concertos que a cantora viesse a dar nas áreas de atuação das autoridades. Outros até se disseram “enojados” com o espetáculo de Beyoncé. Mais grave ainda, foi a forma como a cantora escolheu manifestar-se: é que os Black Panther não são um partido qualquer. São considerados uma organização política extremista revolucionária.

Um jornalista rouba a camisola de Tom Brady

2017

Não foi no intervalo, mas sim no fim do jogo em que os New England Patriots venceram os Atlanta Falcons com Tom Brady a ser considerado o melhor jogador da partida. Ainda assim, a história vale a pena ser contada: é que no fim do encontro, a camisola do atleta foi roubada. Ninguém soube dela até março de 2017, quando o FBI a encontrou e a NFL, liga profissional de futebol americano, emitiu um comunicado a explicar tudo: a camisola tinha sido levada por um jornalista credenciado para cobrir o Super Bowl. A peça foi encontrada no México na casa desse mesmo jornalista. O mais estranho é que as autoridades encontraram outra camisola na casa do jornalista. E também era de Tom Brady, de um jogo de 2015.

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