“Então Padre Dâmaso, deixou-se embrulhar pelo Vale e Azevedo?”, perguntaram alguns presos da Carregueira ao capelão, em 2013, a meterem-se com ele. O sacerdote, falecido esta quinta-feira aos 87 anos, tinha acabado de escolher o ex-presidente do Benfica, João Vale e Azevedo, como seu sacristão. Já o tinha ajudado a celebrar a missa uns anos antes, quando estava preso no Estabelecimento Prisional da Polícia Judiciária.

Quando o homicida que estava com as funções de sacristão saiu da prisão da Carregueira, Vale e Azevedo aproveitou a oportunidade e pediu para ficar com a vaga. O padre Dâmaso informou o chefe dos guardas, que ainda ficou de pé atrás face ao pedido do ex-presidente do Benfica, mas aceitou.

“Ele comporta-se fantasticamente. Ficou contentíssimo por me voltar a encontrar”, contou o padre Dâmaso na altura à revista Sábado. “Tem que montar a mesa para o altar, tem de pôr as toalhas, o pé para o crucifixo, montar a capela. Fica ao meu lado durante a missa, entrega o vinho, usa a patina das hóstias. Depois arruma tudo.” A escolha de Vale e Azevedo para sacristão fez na altura capa do Correio da Manhã. O ex-dirigente do Benfica, que esteve preso 11 anos e meio por crimes de burla e apropriação indevida de dinheiros, entre outros ilícitos económico-financeiros, tinha a chave do armazém onde se guardava o que se usava na missa, como se fosse uma verdadeira sacristia: Vinho, toalha, hóstias. Bíblias e livros. E era ainda ele que informava o capelão (que o tratava por “amigo”) sobre os presos que precisavam de lhe falar.

O antigo presidente do Benfica João Vale e Azevedo fala aos jornalistas depois de sair em liberdade da prisão da Carregueira (Foto: Lusa)

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O Padre Dâmaso ia duas tardes por semana à Carregueira, à segunda e à sexta, celebrar missa para 30 a 40 reclusos, com os guardas do lado de fora da sala. No último dia de 2014, um dos reclusos presentes era Isaltino Morais, actual presidente da Câmara de Oeiras, que aceitou o pedido do capelão: fazer a primeira leitura, a carta da 1.ª Epístola de S. Paulo aos Coríntios. O sacerdote  apontou para Isaltino, em plena missa, e disse:

Está ali um homem que sabe amar. Não gosto de vê‑lo aqui. A justiça dos homens é o que é, mas eu sei o que é o amor deste homem pelos outros”.

A história foi contada pelo autarca em “A Minha Prisão”, editado pela Esfera dos Livros, onde recorda o dia-a-dia na cadeia, entre abril de 2013 e junho de 2014, depois de ter sido condenado a 2 anos de prisão efectiva por fraude fiscal e branqueamento de capitais.

Quando chegou ao estabelecimento prisional, falaram a Isaltino da “missa às sextas‑feiras dada pelo padre Dâmaso”. Estavam a assistir à celebração 33 reclusos — um número que o deixou “surpreendido” porque “esperava mais”. Desde logo, Isaltino Morais percebeu que o padre Dâmaso  transmitia “um carisma próprio pela sua maneira de falar e pelo diálogo com os participantes na cerimónia”. 

No seu livro, admite que começou “por ir como mais um pretexto para passar o tempo, mais uma rotina”, mas rapidamente percebeu que era algo de que necessitava “espiritualmente”. “As homilias do padre Dâmaso, nada ortodoxas, sendo aparentemente todas iguais pela incidência de palavras comuns, são adequadas à população prisional, mas diferentes e variáveis pelos temas abordados”, justifica, explicando que o “amor, compreensão e perdão” eram os temas que mereciam o “desenvolvimento do padre”.

Além das missas que ouvia, Isaltino não esquece a relação que estabeleceu com o padre Dâmaso e relembra no livro um lamento que ouviu ao sacerdote na altura do Natal: “Isaltino, tenho tanta pena de não passares o Natal em casa! Não merecias isto! Sempre entendi que não merecias estar na prisão, mas esta é a justiça dos homens. Confia em Deus”.

Isaltino Morais, abandona o Estabelecimento Prisional da Carregueira, em Sintra a 24 de junho de 2014 (Foto: Lusa)

Também Carlos Cruz e Carlos Silvino — presos no âmbito do processo Casa Pia — recebiam todas as semanas a visita do capelão. “Só peço que deixem os homens em paz e a justiça fazer o seu caminho”, disse na altura ao Correio da Manhã. “Todas as semanas visito o ‘Bibi’ e o Carlos Cruz. Tenho pena pelo que a imprensa fez deles, acho que tem exagerado”, acrescentou.

Nem Vale e Azevedo nem Isaltino Morais tiveram disponibilidade para partilhar com o Observador as suas memórias do Padre Dâmaso, que encontrou a sua vocação em 1959: depois da visita a uma prisão feminina de Tires, para uma conferência, foi convidado para fazer o mesmo noutras cadeias do país. Começou por ir como visitador e depois como capelão. “E eu, que queria dedicar a minha vida aos mais pobres e mais necessitados, descobri que a minha vocação era dedicar a minha vida aos presos”, disse ao Correio da Manhã. Era presença regular na Rádio Renascença, mas ficou conhecido como o “padre das prisões”.

Morreu o padre Dâmaso Lambers, o padre das prisões