Rádio Observador

Genética

Já não existem cavalos selvagens no planeta

204

Os cavalos de Przewalski eram considerados os últimos cavalos verdadeiramente selvagens do planeta, mas a análise do seu genoma acabou de pôr a sua história em causa.

Pouco se sabia sobre a domesticação dos cavalos, mas os cientistas acreditavam que os cavalos modernos seriam descendentes dos mais antigos cavalos domesticados conhecidos. Os resultados da análise do genoma dos cavalos de várias épocas trouxe, no entanto, uma surpresa. Na verdade, duas. Nem os cavalos modernos descendem desses primeiros cavalos domesticados, nem o cavalo de Przewalski — tido como o último verdadeiro cavalo selvagem do mundo — o é na verdade. Os resultados foram publicados esta quinta-feira na revista Science.

O povo Botai é, à data, o povo mais antigo a domesticar cavalos, há cerca de 5.500 anos. Este povo, que viveu na região onde hoje se localiza o Cazaquistão, mudou subitamente de caçadores-recoletores nómadas para criadores de cavalos em grandes povoamentos sedentários. Prova disso são as ferramentas encontradas no local, associadas ao aproveitamento da pele e carne dos animais, aos currais para guardar os animais, aos inúmeros ossos de cavalo enterrados e aos vasos de cerâmica com vestígios de gordura de leite de égua.

Naturalmente que os cavalos do povo Botai, enquanto cavalos domesticados mais antigos de que se tem conhecimento, eram bons candidatos a serem ancestrais dos cavalos domésticos modernos. Mas o genoma dos cavalos analisados, no máximo com quatro mil anos, mostraram que não há relação com os cavalos de Botai. Quer dizer que, nos últimos cinco mil anos, um ou mais grupos de cavalos domesticados em um ou vários locais terá dado origem aos cavalos modernos. O problema é que não existe material genético dessa altura para que possa ser feita a comparação.

Os cavalos domesticados pelo povo Botai teriam uma coloração semelhante à desta ilustração — Ludovic Orlando, Seas Goddard and Alan Outram

Para chegar a esta conclusão a equipa internacional analisou o genoma de 20 cavalos antigos, recuperados dos locais arqueológicos relacionados com o povo Botai, e o genoma de 22 cavalos de localizações na Europa e Ásia. Estes genomas foram comparados com os genomas já anteriormente publicados de 18 cavalos antigos e 28 cavalos modernos.

O que os investigadores não esperavam era que os mais antigos cavalos domésticos fossem os ancestrais dos cavalos de Przewalski, tidos como os últimos cavalos selvagens do mundo. Assim, os cavalos de Przewalski passam a ser considerados cavalos assilvestrados — que readquiriram características selvagens depois de terem sido domesticados — tal como os mustangues, cavalos assilvestrados norte-americanos descendentes de cavalos domésticos europeus levados durante a colonização.

Os cavalos de Przewalski, que viviam nas estepes da Ásia central, foram considerados extintos na natureza em 1969. Todos os indivíduos que existem hoje em dia — cerca de dois mil — descendem de 15 animais que tinham sido capturados no início do século XX. Numa tentativa de recuperar esta espécie, os animais têm sido reproduzidos e reintroduzidos nas estepes euroasiáticas que ocupavam originalmente.

“Ironicamente, pensávamos que devíamos proteger a população ameaçada de cavalos de Przewalski por serem os últimos cavalos selvagens do planeta. Agora descobrimos que devem ser preservados por serem o descendente mais próximo dos mais antigos cavalos domésticos”, disse Charleen Gaunitz, investigadora no Museu Nacional de História Natural da Dinamarca e primeira autora do artigo.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros de órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: vnovais@observador.pt
Floresta

As lições que continuamos a não querer aprender

António Cláudio Heitor

É mais fácil culpar o desleixo, a mão criminosa e a falta de gestão dos proprietários, do que assumir o erro de centrar as questões no combate. A raiz do problema está na desertificação do mundo rural

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)