Fogo de Pedrógão Grande

Relatório de Pedrógão. “Houve pessoas que morreram com o telemóvel na mão a ligar para o 112”

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Xavier Viegas, autor do relatório sobre os incêndios de Pedrógão, deixou claro aos deputados que várias pessoas podiam ter sido salvas se houvesse uma entidade só para coordenar a busca e salvamento.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

“Houve pessoas que morreram caídas na estrada com o telemóvel na mão a ligar para o 112, à espera de ser salvas, e tudo porque ninguém tinha a responsabilidade formal de ir buscar as pessoas caídas no terreno.” O relato é feito pelo deputado centrista Telmo Correia, no final de uma audição, à porta fechada, a Domingos Xavier Viegas, coordenador do relatório independente sobre os fogos de Pedrógão Grande.

A audição tinha sido pedida pelo CDS em dezembro, depois de ter sido revelado o conteúdo do famoso “capítulo 6”, que era confidencial por detalhar ao pormenor as circunstâncias da morte das mais de 65 vítimas. Aos deputados, Xavier Viegas deixou claro que uma das maiores falhas teve a ver não tanto com o combate aos fogos, mas sobretudo com o facto de não ter havido uma estrutura ou entidade responsável pela busca e salvamento de sobreviventes.

“Faltou em Pedrógão o trabalho de busca e salvamento, ou seja, a prestação de socorro médico falhou porque houve falhas nas buscas, que não foram coordenadas. E numa situação de múltiplas vítimas tem de haver no comando uma parte específica para a busca e salvamento. Isso claramente não houve aqui em Pedrógão”, disse Xavier Viegas aos jornalistas no final da reunião, que, ao contrário do que se pensava, decorreu à porta fechada porque o capítulo 6, apesar de já ter sido divulgado às famílias das vítimas, aos deputados e, partes dele, à comunicação social, não é considerado público.

Do CDS ao PSD passando pelo PS, todos concordam que essa falha tem de ser colmatada na estrutura de comando, não devendo ser o INEM a ter a tarefa específica e ir ao local, por entre as chamas, fazer o salvamento. “Falta aqui uma equipa para ir buscar as pessoas, falta criar algum comando, alguma especificidade, para que os bombeiros não se afastem do combate aos fogos e os médicos não se desviem de tratar os feridos”, resumiu o deputado do PSD Duarte Marques no final da audição.

“Relativo consenso” sobre falhas

A ideia é unânime. O deputado socialista Fernando Rocha Andrade destacou o “relativo consenso” que reina sobre as falhas de Pedrógão. “O professor Xavier Viegas veio aqui destacar que a estrutura da Proteção Civil, como está organizada, pode ter dificuldades a assegurar a busca e salvamento das vítimas. Porque o INEM não pode avançar para um teatro de operações em risco, sob pena de pôr em risco os seus profissionais”, disse o ex-secretário de Estado socialista. “É uma questão de organização: tem de haver no comando uma estrutura concentrada nessa tarefa”, disse ainda.

Além das falhas na fase de busca e salvamento, o deputado Duarte Marques sublinhou ainda que “o fogo foi mal avaliado, uma vez que a avaliação que foi feita depois do ataque inicial foi mal feita”, e a partir daí a situação ficou “incontornável”. “A estrutura distrital não deu resposta adequada, os meios estavam dispersos pelo país em zonas onde não eram tão precisos”, disse, reforçando que também essa falha foi sublinhada pelo coordenador do relatório, na audição desta manhã no Parlamento.

De acordo com o deputado centrista Telmo Correia, outra das novidades da audição teve a ver com os “atrasos na reconstrução, nas indemnizações e em fazer chegar a ajuda solidária dos portugueses” às vítimas. Já sobre os fogos de outubro, onde o CDS tem pedido que a equipa de Xavier Viegas faça o mesmo tipo de trabalho que fez em Pedrógão, Telmo Correia avançou que Xavier Viegas tem estado no terreno a fazer o levantamento, faltando só a “parte burocrática” do Ministério da Administração Interna para formalizar o trabalho. “Ficamos com a ideia de que o mandato vai ser conferido pelo Governo ao professor Xavier Viegas, estando apenas a faltar a parte burocrática”.

Também o próprio Xavier Viegas confirmou que tem estado no terreno a trabalhar no relatório sobre os fogos de outubro. “Começámos a trabalhar logo nos fogos de outubro, que são fogos bem mais complexos”, disse, sublinhando que até já tem um prazo indicativo para apresentar as conclusões: oito meses desde que iniciou o processo, ou seja, idealmente até ao verão.

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