A meio da semana António Costa e Rui Rio firmaram acordos na área da descentralização e dos fundos comunitários. Três dias depois, concordaram que o Bloco Central está longe de ser possível. O primeiro-ministro — cada vez mais criticado pelos parceiros de esquerda no Parlamento — abriu o debate sobre o tema este sábado de manhã ao dizer, numa intervenção no evento Visão Fest, que “a ideia de Bloco Central é uma ideia que empobrece e fragiliza a democracia”. Já o líder da oposição respondeu a dizer que essa é uma solução “absolutamente extraordinária”. Ou seja: concordam também que dificilmente PS e PSD estarão alguma vez juntos no Governo.

Numa intervenção num evento integrado nos 25 anos da revista Visão, António Costa afastou uma solução de Bloco Central e justificou que “num sistema partidário [como o português], relativamente consolidado e estável há mais de 40 anos, que tem dois partidos fundamentalmente como pivôs de soluções governativas, a pior forma de comprometer a possibilidade da existência de alternativas é a construção de soluções de Governo que envolvam envolvam conjuntamente esses dois partidos.” Para Costa, um Governo de Bloco Central  “limita, necessariamente, a possibilidade de construção de alternativas e de escolha por parte dos cidadãos.”

O presidente do PSD, que falava à saída de uma reunião do Conselho Estratégico Nacional, concordou com Costa e lembrou que a solução de um Bloco Central é “absolutamente extraordinária” e a prova disso é que só “aconteceu uma vez”. Rio diz, no entanto, que “isso não tem nada a ver com acordos estruturais porque, independentemente de quem ganha as eleições, independentemente de quem está no poder — e atualmente até quem ganhou as eleições não está no poder — independentemente de seja do que for, o país como um todo precisa do Governo e da oposição”.

No entender de Rui Rio, Portugal “precisa dos partidos todos para fazer essas reformas estruturais. Senão Portugal nunca as fará e atrasa o seu desenvolvimento”. O social-democrata diz que o PSD serve o país no Governo e na oposição e defende que “em conjunto, todos os partidos devem servir o país. E todos não é só os dois maiores partidos, são todos, mesmo todos.”

“CDS é aquela gorda que ninguém tira para dançar”

Após rejeitar o Bloco Central e falar sobre a comunicação social na Visão Fest, António Costa ficou para ouvir a intervenção que se seguia: uma crónica da “Boca do Inferno” ao vivo com o humorista Ricardo Araújo Pereira. Que, como seria de esperar, não poupou o chefe de Governo.

A meio da intervenção, com ironia, Ricardo Araújo Pereira dirigiu-se a António Costa, dizendo: “Estou impressionadíssimo, senhor primeiro-ministro, impressionadíssimo. É um acordo com o PCP, outro com o PEV, outro com o Bloco, ontem um com o PSD. Impressionante. Impressionante”. Seguiram-se sorrisos e aplausos da plateia, para logo de seguida voltar a recorrer ao humor para demonstrar que Costa faz acordos com todos. Ou melhor, quase todos. “E o CDS deve estar magoadíssimo. É aquela gorda que ninguém tira para dançar. O CDS está no canto da sala a pensar. Mas o que é que eu tenho de errado?”, atirou o humorista.