A bactéria Wolbachia pode não ser uma solução para a prevenção da transmissão de doenças por mosquitos tão boa como se esperava. A ideia foi apresentada pela equipa de Gabriela Gomes, investigadora no Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto, e publicada na revista científica Nature Communications.

Nos últimos 10 anos instalou-se a noção de que a Wolbachia reduziria a suscetibilidade dos mosquitos a vários vírus e poderia ser utilizada como uma espécie de vacina que reduziria a transmissão de várias doenças humanas (causadas por vírus e transmitidas por mosquitos)”, diz Gabriela Gomes ao Observador. “Tais conclusões são obtidas com base em análises redutoras que não levam em conta a larga variabilidade na dose de vírus que os mosquitos ingerem quando picam pessoas infetadas com dengue, por exemplo.”

A equipa de Gabriela Gomes analisou os efeitos da Wolbachia na capacidade dos mosquitos Aedes aegypti transmitirem o vírus da dengue a humanos recorrendo a modelos matemáticos e a dados disponíveis de estudos anteriores, mas com uma diferença em relação a trabalhos anteriores: consideraram a “dose”, ou seja, a quantidade de vírus que o mosquito ingere numa picada.

Wolbachia infeta naturalmente vários insetos, mas não os mosquitos Aedes aegypti, logo, todos os trabalhos feitos com estas duas espécies, foram feitos em laboratório, com exceção de algumas experiências que começam a ser feitas no campo. Nestas experiências, os mosquitos infetados com a bactéria são introduzidos nos locais onde existem doenças como dengue, chikungunya ou zika, transmitidos por mosquitos do género Aedes, para testar se são eficazes no controlo da propagação da doença.

Com a análise feita, os investigadores verificaram que a Wolbachia, em vez de reduzir a probabilidade de o mosquito ser infetado com o vírus, aumentava essa probabilidade (aumentava a suscetibilidade ao vírus). Estes resultados, só por si, não descartam o potencial da Wolbachia como medida de prevenção da transmissão do vírus, mas sugerem que é preciso considerar mais variáveis e fazer mais investigação antes de se tirarem conclusões definitivas. 

Ao Observador, Gabriela Gomes explicou que os resultados no laboratório podem não explicar o que acontece na natureza. Por um lado, não se conhecem os efeitos de outros parasitas no mosquito e de que forma a Wolbachia pode interagir com esses parasitas. Por outro, o facto de a bactéria tornar os mosquitos mais suscetíveis aos vírus pode fazer com que os mosquitos morram prematuramente acabando por transmitir menos vírus.

Se a propagação da Wolbachia será ou não uma boa medida para a saúde pública fica assim dependente deste efeito de seleção que não podemos ainda quantificar porque não se sabe quase nada sobre patogéneos de mosquitos”, diz a investigadora também ligada à Faculdade de Medicina Tropical de Liverpool, no Reino Unido.

A investigadora espera que com este trabalho fique demonstrado que é preciso investir mais no estudo dos patogéneos de mosquitos se queremos realmente encontrar formas de prevenir que estes mosquitos transmitam doenças a humanos.

Da prevenção em mosquitos às vacinas para humanos

Gabriela Gomes confessa que o seu principal interesse é a eficácia das vacinas e explica de que forma esta investigação pode contribuir para isso. “Todos os conceitos de desenho experimental e análise apresentados aqui podem aplicar-se a estudos de vacinas, em outros animais ou em humanos.” Depois de terem ensaiado o mesmo método para medir a eficácia de uma vacina em peixes em aquacultura, está já a preparar projetos que permitam aplicar estes procedimentos ao estudo de vacinas humanas.

“O plano é começar por pneumonia e malária, com colaboradores do Reino Unido e África, mas o objetivo é tornar isto num novo ‘gold standard’ [padrão ideal] em ensaios clínicos”, diz a coordenadora do trabalho de investigação.