Esta quarta-feira, o El Mundo recordou a noite de 27 de setembro de 1975. No dia em que em Portugal se assinalou o golpe militar que pôs fim ao Estado Novo, o jornal espanhol lembrou a madrugada em que a embaixada espanhola em Lisboa ardeu. Um ano e meio depois do 25 de abril, militantes portugueses de extrema-esquerda saquearam e pegaram fogo ao Palácio de Palhavã.

“A tensão era crescentemente palpável”, recorda Inocencio Arias, à altura conselheiro político na embaixada. O regime de Francisco Franco estava perto do fim, era cada vez mais contestado e tinha acabado anunciar uma nova ronda de cinco fuzilamentos — seriam os últimos. Um grupo de militantes de extrema-esquerda, em protesto contra as execuções, começou o ataque por volta das 23:00: foram atiradas pedras que destruíram as janelas do palácio. Os guardas fugiram. O grupo invadiu os jardins da embaixada, tombou várias estátuas neoclássicas e a maioria, enfurecida, tomou de assalto o Palácio de Palhavã, construído no século XVI para servir de lar aos filhos bastardos de D. João V.

Sendo uma das mais importantes delegações espanholas na Europa, a embaixada estava decorada com tapeçarias, móveis de estilo barroco e obras de arte cedidas pelo Museu do Prado. As tapeçarias foram retiradas das paredes, os móveis foram destruídos, os raros jarros do Oriente acabaram partidos em mil pedaços no chão e os livros da biblioteca foram rasgados. O grupo ateou fogo aos cortinados do palácio, que foi consumido pelas chamas em minutos. Nos jardins, um monte de cadeiras, móveis, o álbum de casamento do embaixador e os quadros do Museu do Prado serviram como acendalhas para uma gigantesca fogueira.

No dia seguinte, temia-se a retaliação espanhola. Em Madrid, o presidente do Governo Carlos Arias Navarro sondou as autoridades norte-americanas para perceber se os Estados Unidos apoiavam Espanha em caso de invasão a Portugal. Franco acabou por limitar a resposta ao encerramento das fronteiras e suspensão das relações diplomáticas. A 1 de outubro, depois da última vez que o ditador espanhol marcou presença na Praça do Oriente, 3.000 manifestantes protestaram contra Portugal. O caso acabou por não chegar mais longe porque o Governo português se apressou a emitir um pedido de desculpas oficial, onde garantia a total recuperação do Palácio de Palhavã.

Cinco meses depois do incêndio e já com Franco morto, os ministros dos Negócios Estrangeiros de Espanha e Portugal reuniram-se para renovar as relações e assentar as bases daquilo que seria o Tratado de Amizade e Cooperação entre Portugal e Espanha. Em 1978, o rei Juan Carlos reinaugurou a embaixada espanhola em Lisboa.

Na passada semana, assinalaram-se 100 anos desde que a embaixada de Espanha em Portugal fica no Palácio de Palhavã.