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O ano de 2017 foi o “melhor de sempre” para a Seedrs, aplataforma de crowdfunding (financiamento coletivo) luso-britânica que foi cofundada por Carlos Silva. O diretor tecnológico da empresa, Ricardo Brízido, explicou ao Observador que o crescimento daquela que é a maior plataforma de crowdfunding europeia é “consequência” dos objetivos que foram traçados para este ano: atrair mais capital institucional e consolidar a operação a nível europeu.

Mas a ambição “é grande”: até 2021, a Seedrs quer ser “uma plataforma que lida com 500 milhões por ano em termos de investimento líquido”, disse o responsável. Para escalar a operação “até esse ponto” será necessária eficiência e “muito investimento”, bem como “projetar a empresa como um bom sítio para trabalhar, uma marca fiável e de confiança”.

Brízido, que é diretor tecnológico da Seedrs desde início de 2017, explicou que a plataforma cresceu tanto em número de empreendedores como de investidores. “Em relação aos empreendedores, estamos a ver que há mais e maiores deals  [negócios] a chegarem à plataforma mais frequentemente”, afirmou, referindo que houve “um crescimento de 130% nas rondas acima de um milhão de libras”, quando comparado com 2016. No ano passado, a Seedrs também teve “investidores com mais dinheiro, rendimentos mais elevados e institucionais, a olharem para a plataforma como uma forma credível de investirem em private equity [capital privado]”.

Uma das coisas em que vamos estar focados nos próximos anos é tentar atrair esse dinheiro institucional, que tipicamente era feito noutros meios, mais ‘offline’, para o mercado ‘online’. Acho que ambas as partes beneficiam: os investidores porque têm uma ferramenta para executar os seus negócios e as empresas porque aumentam a sua exposição em termos de tipo de investidor que conseguem atrair”, disse.

Seedrs abre mercado secundário de compra e venda de ações a todos os investidores

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Parte desse crescimento deve-se à criação de um mercado secundário de compra e venda de ações de empresas em maio de 2017. Inicialmente exclusivo a participantes das campanhas de crowdfunding das empresas, o mercado foi aberto a todos os investidores em fevereiro deste ano. A decisão de o fazer foi estratégica e os resultados têm sido positivos, especialmente considerando que a equipa não fazia “qualquer ideia” se o mercado secundário iria funcionar.

“A questão de termos aberto [este mercado] é mais uma decisão de estratégia do que de complexidade tecnológica, no sentido em que, do ponto de vista da ferramenta, novas pessoas podem ser novos utilizadores e, desde o momento em que são utilizadores da Seedrs, mesmo que tenham um portefólio vazio, podem imediatamente construí-lo”, referiu o diretor tecnológico.

É curioso, porque é um produto que não fazíamos qualquer ideia se ia funcionar. É algo que tem vindo a crescer muito, principalmente desde que abrimos para todos os acionistas — porque uma grande fatia de pessoas que querem entrar querem transacionar ações pelas quais não são acionistas nesse momento. O mercado tem vindo a crescer — tivemos 700 investidores a fazerem ‘early exit’ [a venderem as suas ações muito pouco tempo depois de as terem comprado] o ano passado — e vamos continuar a observar um grande crescimento porque é uma novidade na indústria”, disse Ricardo ao Observador, acrescentando que o mercado secundário não muda de preço todos os dias e que, por isso, se pode tornar “mais estático” do que o mercado público.

O mercado secundário da Seedrs permite aos investidores comprarem participações de empresas na plataforma todos os meses, algo que se não existisse só seria possível se houvesse “novamente um levantamento de capital, o que acontece de dois em dois ou de três em três anos.

As ações nesse mercado secundário são negociadas por um “valor justo”, atribuído pela empresa com base na política de avaliação, validada pela Ernst & Young. Esse valor, explicou Ricardo Brízido, “tem a ver [com a forma] como as pessoas avaliara, essa empresa e a que preço”. “Qualquer investidor, quando investe, está necessariamente a atribuir um preço à empresa e esse é o valor de mercado nesse preciso momento. À medida que o tempo passa e que há mais levantamento de capital,  esse valor é ajustado.”, disse.

O diretor de tecnologia da Seedrs traçou como um dos objetivos da empresa para 2018 atrair mais dinheiro institucional para o mercado secundário da plataforma.

Uma das preocupações da empresa relativamente à abertura do mercado secundário a todos os investidores tem a ver com a simetria de informação, que é “um dos principais motivos” que levou a Seedrs a criar este mercado. “Todos os acionistas têm acesso à mesma informação e àquilo a que chamamos página de pós-investimento, onde são discutidos detalhes do negócio. Quem tem essa informação toda no início, pode tomar uma decisão mais informada”, referiu Ricardo. Investidores exteriores não têm acesso a essa mesma informação, algo que o diretor de tecnologia considerou ser “um dos principais problemas” que há por resolver. “É um risco que estamos a ter”, reconhece.

Por enquanto, esse risco é reduzido com um limite de número de transações, não havendo “transações acima das mil libras”. Além disso, “para ter acesso a essa informação basta comprar uma quantidade mínima de ações”, afirmou o diretor de tecnologia. “Vemos investidores a fazerem isso, para poderem entrar no círculo de informação e aumentar a sua participação”, acrescentou.

Brexit “deixa incerteza”, mas “não é um impeditivo”

A futura saída do Reino Unido da União Europeia, prevista para março de 2019, “foi um choque” para a empresa, que apenas trabalha a nível europeu e está regulada na Grã-Bretanha pela Financial Conduct Authority (FCA). Com o Brexit, levantam-se dúvidas relativamente a essa mesma regulação e ao local em que a Seedrs posiciona a sua sede.

Contudo, apesar de deixar “incerteza” e gerar novos desafios, a Seedrs não olha para o Brexit como “um impeditivo”. Segundo Ricardo Brízido, que disse inicialmente ter apanhado um susto “enquanto português” a viver em Londres, a startup lusobritânica não exclui a possibilidade de “ter regulação em dois países”, ou seja, ter regulação no Reino Unido e noutro país da União Europeia.

Além disso, o facto de a primeira-ministra britânica, Theresa May, ter cedido aos pedidos da UE relativamente à permanência de imigrantes que cheguem ao Reino Unido durante o Brexit trouxe alguma tranquilidade à empresa, que ainda assim vai ter de fazer algumas mexidas “do ponto de vista de recursos humanos”. “Vemos que há uma solução e vamos trabalhar para tentar arranjá-la”, disse Ricardo.

O mercado britânico é, considera Ricardo, “sem dúvida” o mais forte e financeiramente “mais evoluído no contexto europeu”, no qual a Seedrs vê “mais oportunidade”. “Existe uma grande quantidade de startups em fase inicial a procurar capital e a levantá-lo na plataforma”, referiu. No entanto, explicou o diretor tecnológico, a aproximação do Brexit pode fazer com que se comece a ver “mais investimento na Alemanha” — algo que não constitui um problema para a Seedrs, que está presente em terras germânicas.

Num mundo online, “faz sentido democratizar” o investimento em startups

Para Ricardo Brízido, são empresas como a Seedrs que vão ajudar a que o acesso ao capital seja “mais fácil” num futuro que vai passar por uma maior “democratização” do processo de investimento em startups. O crowdfunding ou equity crowdfunding, além de permitir às startups angariar capital, oferece-lhes um elemento de feedback da “comunidade de utilizadores”, sublinhou o diretor tecnológico.

“Deixa de ter de se conhecer o indivíduo x ou y porque tem muito dinheiro e pode ser um investidor crucial para se democratizar mais o processo, o que faz sentido num mundo online”, disse, acrescentando posteriormente que as empresas conseguem ter sucesso com “os primeiros utilizadores que apoiaram [a empresa] desde início”.

Para Ricardo Brízido, são plataformas como a Seedrs que vão democratizar o acesso ao capital e facilitar o processo de se começar um negócio.

O modelo tem dado resultado: o ano passado, a Seedrs foi a plataforma escolhida para a ronda de financiamento de uma startup chamada Bolt, “uma espécie de Tesla das scooters”, no valor de cerca de 3 milhões de euros, o maior de sempre para a empresa. Em Portugal, desde 2015, já foram 12 as empresas que captaram investimento através da Seedrs, no total de 4 milhões de euros — o ano de 2018, notou Ricardo, pode vir a ser o “melhor de sempre para empresas portuguesas”. Por cá, a Seedrs é líder e a única alternativa no que diz respeito a equity crowdfunding. O mercado, disse o diretor tecnológico ao Observador, ainda é “pequeno” no contexto europeu.

Pequeno, mas “curioso”. Em 2007, Ricardo Brízido queria “começar uma startup”. Nessa altura, trabalhava na sede do Millenium — e detestava. “Era muito [empresarial]”, confessou. Ricardo queria um ambiente mais dinâmico e viu-se obrigado a ir para Londres, onde começou a trabalhar numa startup. Em Portugal, “o ecossistema era praticamente inexistente”.

Volvidos cerca de 11 anos, o panorama mudou. Agora, já não é “inexistente”, mas “espetacular”, disse o diretor tecnológico da Seedrs. “Temos uma comunidade de startups, na qual a Seedrs se pode incluir, e temos muita gente que sai da universidade a ter oportunidade de trabalhar em Portugal num tipo de empresa que é tipicamente diferente”, referiu. “É benéfico para Portugal, para a comunidade e para o mercado de trabalho.”

As perspetivas são de crescimento para Portugal e também para Seedrs. Neste último caso, apontou Ricardo Brízido, não tanto como objetivo mas sim como “consequência” dos mesmos. O plano para 2018 passa por desenvolver produtos focados nas instituições de modo a “atrair mais volume de capital” e consolidar a operação na Europa, de onde “definitivamente” não saem este ano. O desafio é diferenciar ainda mais o produto para se manterem à frente dos competidores, como fizeram em 2017 com o mercado secundário.