O Papa Francisco disse a um homem que sofreu abusos sexuais por parte de um padre chileno que não há problema em ser homossexual, que Deus o fez assim e o ama de qualquer maneira.

Juan Carlos Cruz foi uma das vítimas do padre Fernando Karadima — um padre chileno que cometeu abusos sexuais na década de 80 e que foi condenado pelo Vaticano — que o Papa Francisco recebeu pessoalmente em Roma, num momento em que a discussão em torno dos abusos sexuais por parte de membros do clero voltou a estar em cima da mesa no Chile, depois da visita de Francisco ao país.

“Ele disse-me: ‘Juan Carlos, o facto de tu seres gay não interessa. Deus fez-te assim, ama-te assim e eu não quero saber. O Papa ama-te assim. Tens de ser feliz com quem és”, disse Juan Carlos Cruz ao jornal espanhol El País.

Depois da famosa expressão “quem sou eu para julgar?”, que o Papa Francisco usou a respeito dos homossexuais em 2013 e que deu origem a um livro com o mesmo nome, o líder dos católicos vai agora mais longe no discurso de abertura da Igreja aos homossexuais.

O caso dos abusos sexuais no Chile colocou o Papa Francisco sob fogo recentemente, depois da visita apostólica àquele país, em janeiro.

Em causa estão críticas ao bispo Juan Barros, da cidade chilena de Osorno, acusado de encobrir os abusos sexuais praticados pelo padre Fernando Karadima durante décadas — Karadima viria, em 2011, a ser considerado culpado pelo Vaticano e suspenso das suas funções de sacerdote para o resto da vida.

O padre era um dos colaboradores mais próximos de Juan Barros, sendo até considerado um “protegido” daquele bispo. Contudo, Barros sempre negou ter conhecimento dos atos praticados por Karadima.

A visita oficial do Papa Francisco ao Chile (entre 15 e 18 de janeiro) reacendeu a polémica, com várias vítimas do padre Karadima a virem a público exigir um pedido de desculpas do Papa, quer pelos abusos sexuais na Igreja, quer pela nomeação, em 2015, de Juan Barros para bispo de Osorno.

A polémica ganhou proporções ainda maiores quando, durante a visita ao Chile, o Papa Francisco considerou que as acusações contra o bispo Juan Barros eram “calúnias”. Questionado por um jornalista sobre o caso do bispo chileno, Francisco respondeu: “No dia em que vir uma prova contra o bispo Barros, então falarei. Não há uma única prova contra ele. É tudo calúnia. Está claro?”

As palavras do líder da Igreja Católica motivaram várias críticas, incluindo por parte de membros influentes da Igreja, como o cardeal norte-americano Sean O’Malley (escolhido para suceder a Bernard Law na diocese de Boston na sequência dos escândalos de pedofilia naquela cidade). O’Malley acusou Francisco de ter causado “grande dor” às vítimas de abusos sexuais por parte de membros da Igreja.

O Papa Francisco veio depois pedir desculpa pela expressão que usou. “O drama dos abusados é tremendo. O que é que sentem as vítimas? Tenho de pedir-lhes desculpa, porque a palavra ‘prova’ feriu. A minha expressão não foi feliz. Peço desculpa se as feri, sem me aperceber, sem o querer. Dói-me muito”, disse o Papa Francisco aos jornalistas, no voo de regresso a Roma.

No final de janeiro, o Papa Francisco enviou o arcebispo de Malta, Charles Scicluna, presidente do colégio para o exame dos recursos em matéria de delicta graviora (os delitos ou crimes considerados mais graves), ao Chile para investigar as acusações.