A mulher estava na casa de banho quando ouviu disparos. Saiu e encontrou o marido numa poça de sangue, no chão do seu apartamento em Kiev, capital da Ucrânia. Foi baleado nas costas com um tiro fatal. A mulher chamou as autoridades. O marido morreu a caminho do hospital. Deixou sete filhos adotivos. Arkady Babchenko, jornalista e forte crítico do presidente russo, Vladimir Putin, foi dado como morto. E a morte foi imediatamente encarada como suspeita: Babchenko, de 41 anos, seria o quinto jornalista crítico do presidente russo a ser assassinado em Kiev, nos últimos anos.

Esta foi a história produzida e reproduzida esta terça-feira por jornais de todo o mundo. Um dia depois, Babchenko “renasceu das cinzas”, como escreve esta quarta-feira o jornal The Moscow Times. É que falsa morte do jornalista russo fazia parte de uma operação especial ucraniana supostamente para impedir um plano dos russo para matar o jornalista. Na conferência de imprensa que tinha como objetivo esclarecer os contornos da sua alegada morte, Babchenko emocionou-se: “Queria pedir desculpa à minha mulher pelo inferno que ela tem passado”.

Obrigado a sair da Rússia, acabou em Kiev a apresentar um programa de televisão

Ameaças pessoais e a alguns familiares fizeram com que Babchenko se visse obrigado a deixar a Rússia, de onde era natural. Em fevereiro de 2017, foi viver para Praga. Depois para Israel. Acabou por mudar-se, em agosto, para Kiev.

As ameaças e a mudança de país não foram suficientes para calar Babchenko. Em Kiev, o jornalista teve um programa de política no canal de televisão ATR. O “Prime: Babchenko” era também transmitido online. Nele, o jornalista criticava abertamente o governo russo. Enquanto esteve em Kiev, Babchenko também escrevia textos de opinião para o site do jornal russo Novoye Vremya e para o jornal online Ukrainska Pravda. Também nos textos de opinião, Babchenko não se inibia de criticar o governo do presidente russo.

Militar aos 18 anos, duas guerras da Tchechénia e uma pausa para estudar Direito

Aos 18 anos, ainda longe de se tornar jornalista, Babchenko já estava a servir o exército na Primeira Guerra da Tchechénia — que tinha começado em 1994 e viria a prolongar-se até 1996. Não ficou por ali. Em 1999, esteve na Segunda Guerra da Tchechénia. Foi operador de comunicações, um elemento da infantaria mecanizada e ainda comandante das tropas de lançamento de granadas. Desta vez, tinha sido o próprio Babchenko que contactou as Forças Armadas russas para ser voluntário numa operação de contra-terrorismo.

Antes do início da Primeira Guerra da Tchechénia, Babchenko tinha sido transferido para a reserva militar em 1997 e aproveitou esse período para estudar direito na Universidade Moderna de Humanidades de Moscovo. Obteve o grau de bacharel em Jurisprudência e Direito Internacional.

Tal como tinha acontecido no final da Primeira Guerra da Tchechénia, depois de participar na Segunda, em 2000, Babchenko foi transferido novamente para a reserva militar. Este período não o levou a estudar mas a começar uma carreira no jornalismo.

De jornalista a taxista e (novamente) a jornalista. O grande crítico do governo de Putin

As experiências que viveu nas guerras e no exército viriam a ser contadas no livro que publicou em 2006. Um livro de memórias, intitulado “One Soldier’s War”, em que Babchenko denunciou o quotidiano perigoso de um soldado na linha da frente do conflito na Tchechénia.

Enquanto jornalista, foi correspondente de guerra para vários jornais, revistas e canais de televisão. A sua carreira não foi linear,  interrompeu-a durante vários anos para se tornar taxista.

Mas acabou por voltar, como correspondente de guerra. Desta vez, para o jornal russo Novaya Gazeta. Acompanhou a guerra entre a Geórgia e a Rússia, durante agosto de 2008. No trabalho que foi fazendo, nunca deixou de ser um forte crítico de Vladimir Putin e da intervenção militar da Rússia na Ucrânia e na Síria.

Processo por incentivar protestos e o escândalo do post no Facebook

Para Babchenko, as mortes da queda do Tu-154, um avião militar russo que se despenhou no final de 2016 no Mar Negro, não mereciam ser lamentadas. A bordo estavam mais de 60 membros do Ensemble Alexandrov — um coro e grupo de dança do exército russo. O jornalista escreveu a sua opinião numa publicação na sua página do Facebook que foi muito criticada e esteve na base da razão para a sua saída da Rússia: de alvo de polémica, Babchenko tinha passado a ser alvo de ameaças.

O post no Facebook foi o culminar de anos de polémica. Em 2012, Babchenko já tinha sido processado por incentivar a população a fazer protestos contra os resultados das eleições de 2011. Em causa estava uma publicação que fez na altura com possíveis estratégias para os protestos que já estavam a acontecer na Rússia, no âmbito do movimento “Por eleições justas”. Desde então, o jornalista passou a afirmar ter sido alvo de espionagem internacional.