O Facebook estabeleceu acordos com mais de 60 fabricantes de dispositivos eletrónicos que permitiam o acesso a dados pessoais de utilizadores da rede social. Durante os últimos dez anos, empresas como a Apple, Amazon, BlackBerry, Microsoft e Samsung, partilharam com o Facebook informação de mais de dois mil milhões de pessoas.

De acordo com o The New York Times, muitas destas parcerias — que incluem o acesso a informações como o relacionamento amoroso, a religião, as inclinações políticas ou os eventos em que vão participar — ainda estão em vigor, embora o Facebook tenha começado a restringi-las em abril. Além disso, estas empresas conseguiam ainda aceder a dados sobre os “amigos” de um utilizador, mesmo aquele tenham negado a permissão para a partilha de informação com terceiros.

A propósito disto, o vice-presidente do Facebook, Ime Archibong, explicou em comunicado que “estas parcerias funcionam de forma diferente daquela que os criadores de apps” usam a plataforma. Ao contrário dos fornecedores de jogos ou serviços, estes fabricantes apenas podem usar a informação para oferecer versões que ajudam a melhorar a “experiência no Facebook”.

No site institucional, o Facebook explicou que as empresas tiveram acesso aos dados para poderem melhorar as versões da aplicação disponíveis nos diferentes dispositivos. Imagem: Página institucional do Facebook

Sandy Parakilas, antigo responsável pela privacidade do Facebook, garante que esta prática foi encarada internamente como uma questão de privacidade em 2012, mas veio agora criticar que algo assim continue a acontecer: “É chocante que esta prática continue seis anos depois e parece contradizer o testemunho do Facebook ao Congresso de que todas as permissões de amigos foram desativadas”.

Ashkan Soltani, consultor e investigador na área da privacidade, ilustra o caso da seguinte forma: “É como mandar instalar novas fechaduras nas portas e descobrir depois que o serralheiro também deu chaves a todos os seus amigos para que eles possam entrar e vasculhar as coisas sem pedir permissão”.

O Facebook ficou debaixo de fogo quanto às políticas de privacidade quando, no passado mês de março os jornais Observer e New York Times revelaram que a empresa britânica de consultoria política Cambridge Analytica utilizou os dados de utilizadores da rede social com o objetivo de prever qual seria o sentido de votos do utilizadores na eleições presidenciais dos Estados Unidos em 2016. Estima-se que a empresa teve acesso às informações de 87 milhões de pessoas em todo o mundo, cerca de 63 mil delas em Portugal.