República Centro Africana

Militares portugueses acusados de “crimes contra a humanidade” na República Centro Africana

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A contestação na República Centro Africana cresce com o intensificar de confrontos entre páraquedistas portugueses e grupos armados. A ONU denuncia "manipulação" de civis e "aproveitamento político".

CEMGFA/LUSA

Os militares portugueses em missão na República Centro Africana estão a ser alvo de contestação por parte de alguns setores da população. Esta semana, em Bambari, no norte do país — zona onde os paraquedistas têm estado envolvidos em confrontos intensos com grupos armados — várias centenas de pessoas saíram à rua para denunciar “crimes contra a humanidade” alegadamente cometidos pelas forças portuguesa e do Ruanda. As Nações Unidas condenam aquilo que dizem ser uma “manipulação usada [pelos grupos armados] para acicatar as tensões religiosas e da comunidade”.

A reação contra a presença de tropas portuguesas na República Centro Africana tem subido de tom nos últimos dias. A demonstração mais recente desse descontentamento aconteceu esta segunda-feira. Nas imagens postas a circular nas redes sociais são visíveis largas centenas de pessoas (os testemunhos diretos falam em 20 mil) que participam numa marcha, algumas das quais empunhando bandeiras da RCA e de França. À frente do cortejo, numa faixa branca, lê-se:

10 de abril de 2018 no PK5 (Bangui) e 30 de maio de 2018 em Bambari, os contingentes ruandês e português da MINUSCA [a missão das Nações Unidas no país] cometeram graves crimes contra a humanidade”.

O protesto, “pacífico”, seguiu pelas ruas de Bambari, até passar pelo aquartelamento da MINUSCA naquela região. As imagens foram acompanhadas de mensagens em que se apela à “suspensão imediata da força especial portuguesa” no país e de referências ao “massacre” realizado pela força de paraquedistas atualmente destacada para aquele país.

Foi precisamente em Bambari que, na última semana, os militares portugueses voltaram a passar por momentos de tensão, depois de terem sido alvo de emboscadas e de ataques por parte de diferentes grupos armados que tentam controlar o território. Foi precisamente para fazer frente a esse grupos que o comandante da missão da ONU, o general senegalês Balla Keïta, destacou a sua Quick Reaction Force (QRF, a Força de Reação Rápida) para aquele ponto a norte da capital Bangui. Depois dos Comandos, são agora os Paraquedistas o braço direito do general na luta contra aquelas milícias.

O Observador sabe que, não sendo inéditos, os confrontos dos últimos dias foram particularmente violentos. Apenas um militar português ficou ferido, depois de ser atingido por uma pedra. Mas, do lado contrário, no final da semana passada, as vítimas mortais do lado de um dos grupos armados chegaram a mais de duas dezenas de elementos das milícias.

Segundo fonte militar, o grupo que abriu fogo contra a força portuguesa tinha montado uma operação que passava por esperar pela chegada da QRF das Nações Unidas para lançar um ataque surpresa. A reação musculada dos militares portugueses obrigou ao recurso a helicópteros ao serviço da ONU para fazer fogo a partir do ar e guiar as operações no terreno. Dos 50 elementos do grupo armado, 25 acabariam por ser mortos. Mas, no dia anterior, já os pára-quedistas portugueses tinham reagido a uma emboscada com resultado menos dramático.

ONU condena “ataques cobardes” de milicias. Capacetes azuis usarão “todas as suas capacidades”

Os protestos desta semana surgem na sequência destes episódios e já levaram as Nações Unidas a uma tomada de posição pública em defesa daquilo que tem sido a intervenção portuguesa naquele cenário, num dos países mais pobres do mundo. Numa nota com data de 6 de junho, a que o Observador teve acesso, a MINUSCA denuncia os “abusos” cometidos contra a população pelo “grupo criminoso Siriri”, um dos grupos armados que atuam no país, e condena os “ataques cobardes” de que a missão é alvo.

Mais que isso, na conferência de imprensa em que se referiu a esta questão, a porta-voz da missão, Uwolowulakana Ikavi-Gbétanou, garantiu que os capacetes azuis “não hesitarão em usar todas as suas capacidades humanas e materiais e toda a legitimidade que o Conselho de Segurança lhes dá para se defenderem” contra estes ataques, cada vez mais regulares.

Ciente do impacto mediático que as mais recentes manifestações começam a gerar junto da opinião pública centro-africana, a representante da MINUSCA deu nota de como os grupos armados estão a aproveitar-se da população para usar civis como escudos humanos no confronto com os militares ao serviço das Nações Unidas e de como estão, eles próprios, a misturar-se entre a população, fazendo passar-se por “civis comuns” para aproveitar o fator surpresa nos ataques contra os para-quedistas portugueses.

As imagens dos protestos estão a ser difundidas, entre outros, por alegados deputados à Assembleia Nacional centro africana. Ikavi-Gbétanou apontou o dedo às “tentativas em curso de manipular a opinião pública por parte de grupos armados ou gangues criminosos” com informações  “retransmitidas por ativistas políticos que perseguem interesses” particulares. A porta-voz da MINUSCA condenou “a propaganda destinada a desestabilizar as instituições democráticas do país, agitando deliberadamente tensões religiosas e comunitárias com declarações infundadas”.

Em causa está a conotação da força portuguesa com motivações religiosas, pelo facto de um elevado número de baixas entre os grupos armados que controlam algumas parcelas do território fora de Bangui dizerem respeito a combatentes de inspiração muçulmana. Num comunicado de dia 5 de junho, a MINUSCA sublinha que “não faz distinções de religiao, etnia ou nacionalidade no cumprimento do seu mandato de proteção de civis”.

Aliás, lembra ao Observador fonte militar portuguesa no terreno, no período em que os comandos estiveram em missão, os militares portugueses garantiam a segurança a cidadãos muçulmanos que estavam em perigo. “A missão sublinha que o combate à criminalidade endémica que afeta a vida dos cidadãos é uma prioridade”, referia o mesmo comunicado onde já se denunciava a “instrumentalização da população civil”.

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