Benfica

Mala Ciao. Cinco respostas sobre o esquema de empréstimo de jogadores que pôs (de novo) o Benfica sob suspeita

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O sistema de empréstimos de jogadores do Benfica está sob suspeita numa nova investigação aberta contra o clube de Vieira. Está em causa alegada corrupção e manipulação da verdade desportiva.

António Pedro Santos/LUSA

Depois de inquéritos sobre alegadas toupeiras dentro do sistema judicial que passariam informações em segredo de justiça, de investigações sobre suspeitas de corrupção desportiva em jogos da I Liga, de casos de possível branqueamento de capitais que partiram de denúncias do sistema bancário, segue-se mais um inquérito judicial aberto contra o clube dirigido por Luís Filipe Vieira.

Afinal, o que está em causa no caso Mala Ciao? Vamos às perguntas e às respostas com a informação que conseguimos confirmar ao longo desta segunda-feira.

Quais são as suspeitas centrais da investigação?

Na época 2013/2014, o Benfica tinha um pouco mais de 100 jogadores profissionais de futebol sob contrato. Em 2016/2014, eram pouco mais de 40 os jogadores emprestados, sendo que uma boa parte estava noutros clubes portugueses da I e da II Liga, de acordo com o jornal Record.

Ao fim e ao cabo, é este sistema de gestão desportiva que está em causa na investigação da Polícia Judiciária do Porto, pois as autoridades suspeitam que foi supostamente utilizado pelos responsáveis do Benfica para adulterar a verdade desportiva dos jogos da I Liga, daí a alegada prática dos crimes de corrupção ativa e passiva, tráfico de influência e oferta ou recebimento indevido de vantagem que estão a ser investigados.

No centro do inquérito está a suspeita de que o Benfica terá utilizado um sistema estrutural de corrupção que permitiria aliciar quer os clubes adversários, quer esses próprios jogadores adversários.

Como eram seduzidos os clubes adversários?

Em primeiro lugar, terá sido construído um sistema estrutural, uma espécie de entreposto de jogadores que essencialmente servia para que fossem emprestados a clubes amigos na I Liga. Daí Luís Filipe Vieira ter afirmado esta segunda-feira que ponderava não emprestar mais jogadores em Portugal por estar em causa “a idoneidade dos clubes e jogadores.”

Tal entreposto de jogadores serviria essencialmente dois objetivos:

  • Empréstimo de jogadores a clubes da I Liga com opção de recompra, como alegada forma de seduzir os clubes adversários. Isto é, a opção de recompra poderia ser acionada no final da época mediante o cumprimento dos alegados favores desportivos ao Benfica. Este tipo de situações é encarada pela PJ do Porto com uma espécie de empréstimos encapotados;
  • Promessa e concretização de compra de jogadores do clube adversário no ano seguinte ou na própria época, caso fossem concretizados os alegados favores desportivos.

E os jogadores?

No caso dos jogadores emprestados pelo Benfica, a PJ do Porto investiga dois tipo de situações.

A primeira é simples:

  • Alegadas contrapartidas prometidas a jogadores emprestados pelo Benfica para jogarem com uma ambição extra contra o Futebol Clube do Porto — o principal rival do Benfica na conquista do título.

Esta situação pode parecer algo irrelevante mas essa é uma perceção errada. Desde a última alteração da lei sobre corrupção no fenómeno desportivo, realizada em 2017, que passou a ser penalmente censurável a alegada interferência na verdade, lealdade e correção do resultado da competição. Quer isto dizer que, qualquer promessa para interferir na verdade desportiva do resultado da competição, pode configurar corrupção ativa desportiva. Como é o caso de um clube aliciar um determinado jogador de um segundo clube para jogar melhor contra o rival do primeiro clube.

Já a segunda situação que está sob suspeita no caso Mala Ciao, passa por alegadas contrapartidas a jogadores emprestados pelo clube da Luz para facilitarem o jogo contra os seus ‘patrões’.

Quais os clubes envolvidos?

A Procuradoria-Geral Distrital o Porto afirmou em comunicado que as equipas da PJ do Porto e de outros serviços da Judiciária realizaram 14 buscas domiciliárias e 10 não domiciliárias, sendo que os trabalhos de investigação desta segunda-feira decorreram essencialmente nas comarcas de Viana do Castelo, Braga, Bragança,  Porto, Porto Este, Lisboa e Setúbal.

Dessas buscas, foras realizadas quatro diligências às sociedades anónimas desportivas. A saber:

  • Vitória de Setúbal
  • Desportivo das Aves
  • Marítimo
  • E Paços de Ferreira

Estas sociedades anónimas desportivas terão recebido jogadores emprestados pelo Benfica.

Destes clubes, e tendo em conta as situações sob suspeita que foram acima referidas, o Desportivo das Aves é o único clube que terá recebido jogadores emprestados e terá vendido jogadores ao Benfica.

Já há caras conhecidas no inquérito?

O caso mais conhecido até agora relaciona-se com o jogador brasileiro Luís Filipe. Contratado pelo Benfica em 2014, o defesa nunca chegou a jogar pelo clube da Luz, sendo sucessivamente emprestado aos clubes brasileiros Joinville, Paysandu, Rio Claro e Oeste.

No mercado de inverno de 2016/2017, o Benfica decidiu emprestá-lo ao V. Setúbal. Luís Filipe rescindiu o contrato com o clube da Luz e assinou pelos setubalenses até 2019.

Ao minuto 90 do jogo entre Setúbal e Benfica, o jogador brasileiro entrou e acaba por provocar um penálti polémico a favor do Benfica, ao derrubar o argentino Sálvio na grande área do V. Setúbal. O Benfica ganhou 2-1 esse jogo numa fase decisiva da época e ficou com quatro pontos de vantagem e mais um jogo que o FC Porto.

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