Por algum lado teria de ceder a frágil base de apoio do governo Pedro Sánchez, que tomou posse como presidente de Governo espanhol após fazer valer uma moção de censura a Mariano Rajoy. A possível nomeação do jornalista Andrés Gil para presidente da RTVE, a radio-televisão pública espanhola, está a causar dores de cabeça ao governante socialista.

O nome de Andrés Gil, redator principal de política do Eldiario.es, jornal online tendencialmente de esquerda, foi proposto pelo líder do Podemos, Pablo Iglesias, ao PSOE, de Pedro Sánchez. Na sexta-feira, o nome daquele jornalista — que o El Confidencial explica que tem uma “relação de certa amizade” com o líder do Podemos e cuja mulher dirigiu as duas últimas campanhas eleitorais da Esquerda Unida — era dado como o resultado de um acordo entre o Podemos e o PSOE.

O anúncio de Andrés Gil foi feito por Pablo Iglesias numa entrevista à rádio Antena 3. “Parece que o nome acordado é Andrés Gil. Fico feliz que assim seja. Durante as negociações houve uma questão que ficou clara desde o princípio: a TVE tem que deixar de ser um aparelho de propaganda do partido que estiver a governar”, disse o líder do Podemos. Pedro Sánchez terá dado luz verde à proposta de Pablo Iglesias quando ainda estava em Bruxelas, na cimeira do Conselho Europeu.

No entanto, escreve o El País, este fim-de-semana está a ser marcado pelos esforços do PSOE para dar um passo atrás e encontrar outro nome que não o de Andrés Gil. Tudo porque, percebe-se agora, o nome do redator principal de política do Eldiario.es está longe de ser consensual.

PP acusa Sánchez de “oferecer” a RTVE ao Podemos

A escolha motivou críticas por parte do Partido Popular (PP). Este domingo, a ex-vice-presidente de Governo e atual candidata à liderança do PP, Soraya Sáenz de Santamaría, acusou Pedro Sánchez de querer “converter a TVE, dando ao Podemos uma nova Tuerka”, referindo-se a um programa transmitido na Internet e que é apresentado por Pablo Iglesias. “Qualquer dia ainda vemos [Juan Carlos] Monedero a apresentar o ‘Noticiário Semanal'”, acrescentou, numa alusão ao ex-apresentador do Tuerka e antigo secretário-geral do Podemos. María Dolores de Cospedal, outra candidata à liderança do PP, criticou Pedro Sánchez por “oferecer” a RTVE ao Podemos para que se “converta num aparelho de propaganda, manipulação, ódio e divisão”.

As críticas não se ficaram pela oposição. Também dentro dos partidos que dão apoio ao PSOE no Congresso dos Deputados — com 84 deputados entre 350 assentos parlamentares, os socialistas precisam do apoio de outros seis partidos para governar — parece haver um recuo face à nomeação de Andrés Gil. Entre as forças políticas que demonstraram mais mal-estar está o Partido Nacionalista Basco (PNV, na sigla espanhola), de acordo com vários relatos na imprensa espanhola. O PNV não terá gostado de não ter sido consultado pelo PSOE para dar luz verde ao nome de Andrés Gil antes de este ser anunciado publicamente — e agora não está disposto a aprová-lo.

Antes de Andrés Gil, o Podemos e o PSOE já debatiam entre si nomes para dirigir a rádio e a televisão públicas de Espanha. De acordo com o El País, o PSOE chegou a apresentar Arsenio Escolar, antigo sub-diretor do El País (tendencialmente de centro-esquerda). Para contrapor, o Podemos propôs então a nomeação Ana Padro de Vera, diretora do jornal Público (de esquerda) e ex-assessora de vários ministérios durante o governo socialista de José Luis Zapatero.

Ex-diretor nomeado pelo PP acusado de violar Constituição e sob protesto da redação

A nomeação de um novo presidente para a RTVE passou a ser uma questão premente com a saída de José Antonio Sánchez do cargo no passado dia 22 de junho. O antigo diretor, que ocupou o cargo por nomeação do Partido Popular entre 2002 e 2003 e depois de 2014 até junho de 2018, foi alvo de contestação por parte da oposição e também por algumas figuras da redação da RTVE.

Em abril, vários jornalistas da rádio e televisão públicas protestaram nas suas redações, vestindo integralmente de preto, na sequência de um bloqueio do Partido Popular e do Ciudadanos à mudança de direção na RTVE. Desde então, passou a ser habitual ver uma grande parte dos jornalistas da TVE vestidos de preto à sexta-feira, protestos semanais que ficaram conhecidos como as “sexta-feiras negras”.

Com a mudança de Governo, o presidente sob contestação acabou por sair de cena com a chegada do termo do seu contrato.

José Antonio Sánchez foi jornalista no ABC e colunista do La Razón (ambos jornais de direita), até que em 2002 foi escolhido pelo governo de José María Aznar para liderar a RTVE. No ano seguinte, com a subida ao poder do governo de José Luis Zapatero, José Antonio Sánchez foi afastado do cargo.

Na altura, os socialistas apontaram-lhe o dedo por “impor a censura” e acusaram-no de, “por ação ou omissão,” ser culpado de uma “constante violação” do 20º artigo da Constituição espanhola, que diz respeito à liberdade de informação. Ao ser destituído, José Antonio Sánchez afastou-se então do jornalismo, com uma passagem entre 2004 e 2011 na Telefonica. Em 2011, assumiu o cargo de diretor de informação da Telemadrid. Desempenhou esse cargo até 2014, ano em que um Governo do Partido Popular (desta vez liderado por Mariano Rajoy) voltou a chamá-lo para presidir à RTVE.