Crítica de Restaurantes

Afinal, o que é que tem o café Amélia? Tem boas mimosas, mas o brunch é mais ou menos

Sebastião Carolino canalizou o influencer que tem em si e foi ao café de Lisboa mais popular dos Facebooks e Instagrams. As fotos que tirou ficaram lindas, mas comida à sério não pode ser taggada.

fotografia retirada do facebook Amélia Lisboa

Autor
  • Sebastião Carolino

Tanto a Amélia como o Nicolau são cafés em Lisboa, um em Campo de Ourique e outro na zona da Baixa, respetivamente. E são “namorados”, parece que é mesmo verdade, ou pelo menos é essa a narrativa que a empresa Tesouro Jamim Lda. (dava para vender bikinis da moda como produtos de naturopatia) utiliza para ligar ambos os espaços. O primeiro foi o Nicolau e depressa tornou-se na Mecca de qualquer blogger ou aspirante que regularmente procure por “tosta de abacate” ou “bagas goji e granola” no Pinterest.

Contas e contas de instagram rejubilaram com a sua abertura e o aspeto trendy, cool dá-lhe uma pinta desgraçada. A comida, essa, é que não passava o banal (salvo algumas exceções, como as deliciosas panquecas, por exemplo). Há pouco mais de uma mão cheia de meses abriu este Amélia, uma espécie de fotocópia (fiquei a perceber) do estiloso ‘Nico’ em todos os sentidos. Mudou a decoração mas a comida e a sua qualidade mantiveram-se inalteradas. Está sempre cheio. Mesmo. Está sempre cheio, de portugueses e estrangeiros. Deve ser mesmo uma das principais atracções turísticas daquele bairro.

Amélia ❤️ #timeoutlisboa #amelialisboa #ilovenicolau ???? @manuelmanso

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Primeiras impressões: o Amélia é muito giro. Mesmo. A fachada simples com toldos cor-de-rosa chama à atenção o suficiente para não resvalar para o espalhafatoso. Ao entrar, uma mistura de cores suaves onde predomina o mesmo rosa (claro, não fosse este espaço “uma menina” e a heteronormatividade moeda corrente) e o verde claro casa bem com a iluminação alaranjada e subtil. Há uma espécie de mini hall de entrada, um corredor comprido ladeado por um balcão onde se pode sentar; um recanto mais privado com algumas mesas; e os espaços de refeições principais, o interior e o exterior. Sentei-me nesse último, confiante de que já estávamos no verão e não no outono (enganei-me). Um simpático empregado não tardou em perguntar o que iríamos comer. “Waffles não vai dar, temos a máquina avariada”, disse. Para grande desalento da minha companhia, tivemos de mudar de pedido.

A carta do Amélia é vasta, e com outros pedidos a opinião final pode ser bastante diferente desta. Mas eu quis que o brunch fosse o protagonista na mesa. Tinha de ser. É principalmente por ele que as multidões se acotovelam para conseguir um lugar aqui. Assim sendo, foi assim que seguiu este pequeno almoço tardio:

Brunch. Ahhhh… o que dizer sobre este híbrido que cada vez ganha mais adeptos (eu incluído, mea culpa) apesar de já ser praticado há milénios — especialmente pela malta que gosta de dormir até à hora de almoço e come qualquer coisa mais robusta assim que acorda? Pessoalmente, gosto de fartura e diversidade na minha mesa, daí achar piada a este estrangeirismo. Sendo uma refeição da moda e estando eu num sítio da moda também, faria todo sentido em apostar nesta opção (que é servida todos os dias e não apenas aos fins-de-semana, como é prática comum em muitos espaços).

standard destas refeições inclui uma tigela de iogurte com fruta fresca e seca, uma torrada com abacate (claro) ou com salmão fumado, uma panqueca, sumo de laranja e uma de três opções: café, chá ou chocolate quente. Ovos? É à parte (3€ se forem mexidos, 5€ se forem Benedict). E o lado partilhável do brunch? O que o transforma numa dinâmica social fica meio perdido porque não há nada para picar — pelo menos não no pacote básico.

O preço é sempre fixo, 15€, mas os “extras” que lhe queiramos adicionar tornam a refeição mais cara. E a verdade é que o menu base é curto. Na essência, e fora o sumo e uma bebida quente, são três coisas que nos são servidas. E uma delas é uma panqueca. Uma. E custa 4,5€, se pedida em separado. Além disso, já brunchei o suficiente para ter noção de que ovos mexidos, por exemplo, são presença assídua, assim como um cesto de pão, croissants e/ou mignardises (palavra francesa pretensiosa para descrever bolinhos), mas no Amélia isso não acontece.

A tigela de iogurte e fruta do brunch. Papaia, ananás, morangos, framboesas, mirtilos e banana estavam presentes, assim como a granola com amêndoas e o mel.

Comecemos pelo iogurte, que foi o que chegou primeiro. Será possível estragar ou fazer mal uma taça (não me lixem com os bowls) deste lacticínio? A menos que os frutos (secos e frescos) estejam passados, a resposta é não. Sabia bem, mas nada de especial. A dose foi generosa de mais para quem ainda tinha outras coisas para comer, mas pronto. Não sei porquê, senti que me estavam a encher a barriga de propósito. A cada colher que levo à boca, pensava: “Estão a enganar-me, eu sei que estão”. Mas é bom. E por isso conseguiram enganar-me com pinta.

A torrada com abacate veio a seguir. O pão era escuro, cortado numa fatia grossa, e saboroso, já o abacate vinha em dose industrial. Uma montanha verde que só sabia a lima transbordava pelas côdeas e rapidamente se tornou enjoativa. Resumindo: comi abacate com um pedaço de torrada. E ainda que isto pareça um trocadilho, não teve grande piada.

Já meio enfartado, vi chegar a panqueca e o melhor momento da refeição. Fofa por dento, ligeiramente crocante por fora e com uma dose generosa de mel (podia ter escolhido Nutella, mas já não há saco para isso, essa manteiga de avelãs não é assim tão boa, malta), foi um bom ponto final. E foi a única coisa que me ficou na memória. O café estava bom e o sumo de laranja também, mas era o que faltava se estes dois falhassem.

Crepioca mista. Se já é difícil dizer este nome sem nos rirmos, experimente escrevê-lo. Este híbrido feito com a dita tapioca e ovo vinha recheada com o que parecia ser fiambre de peru (aquela cor rosa pálido não costuma enganar) e flamengo manhoso. Como complemento foi servido com umas quantas batatas-doce-fritas às rodelas e uma micro salada. Não percebi as batatas, muito menos a salada. Caramba, queria o que de mais próximo havia com um crepe, só isso. E no fim das contas tudo estava sensaborão e mal temperado. Uma pena. (5€)

Mimosa. O nome pode fazer lembrar vaquinhas e lacticínios, mas não é nada disso que representa. Este cocktail de champanhe e sumo de laranja já é um clássico e não desiludiu, tendo em conta que não estávamos num bar. “Se bebesse mais dois destes ia para o trabalho a falar enrolado”, comentou-se na mesa. Ainda bem que só se bebeu um, realmente. Quanto mais não seja porque custa 4€, e uma pessoa não pode estoirar dinheiro assim à grande e à francesa (bom, poder pode, mas essa seria outra conversa).

Cappuccino. É o que é, não há grandes detalhes para descrever. Mas uma coisa não correu muito bem. É que por norma peço um cappuccino e não uma meia de leite ou algo do género porque a hipótese de sotaque italiano inclui uma cremosidade que as outras não apresentam. Fica aqui o aviso: o cappuccino do Amélia — ou pelo menos aquele que me foi servido — tinha uma cremosidade ao nível das coisas que não são cremosas. Era isto que tinha para dizer. (2,70€)

Fenómenos destes flutuam pelo universo imaterial das redes sociais. Espaços que se espalham pelas bocas do mundo como se fossem herpes labial mas que, tudo espremido, servem comida banal que facilmente faríamos em casa por menos dinheiro e, talvez, com mais sabor. Não é má comida, nada disso. Mas não espanta nem encanta. E numa era em que cada vez mais se vê a “photo op” a sobrepor-se à qualidade real, é importante não esquecer que o que conta mais, sempre, é aquilo que vem no prato.

A torrada com (demasiado) abacate. As sementes e o caju tinham uma cor amarelada, o que podia significar uma de duas coisas: sabiam a caril ou açafrão. Nem um nem outro sabor foram encontrados.

Tudo somado, o Amélia é um espaço lindo, muito confortável e com preços entre o razoável e o “vou ter de comparar com outros brunches” (toda a refeição ficou por 26,70€). E aqui é preciso ter em conta a inflação absurda e oportunista que já infetou tanto sítio. A comida não diz muito. Todos os clichés daquilo que está na moda aparecem na ementa (do brunch ao pudim de chia, passando pela torrada de abacate e as “bowls” disto e aquilo), mas nada disso (tirando as panquecas, essas justificam uma visita, sem dúvida) se traduz numa refeição surpreendente.

Porque é que não se substitui o fiambre sensaborão e o queijo inócuo da “crepioca” por presunto e umas fatias de queijo da Ilha? Porque é que não se pode pôr menos abacate na torrada e equilibrar-se a acidez do citrino com um sal, pimenta, ou até um toque de picante? Deixo estas humildes sugestões à menina Amélia, na esperança de que na próxima vez que nos encontremos tenha mais para dar para lá da sua carinha laroca.

+Info:
Amélia: Rua Ferreira Borges, 101, Lisboa; aberto todos os dias, das nove da manhã às nove da noite; telefone: 213 850 863
Preço médio: 13 euros por pessoa
Ambiente: Imaculado (tirando o monte de caixas de cartão e lixo que estava mal escondido atrás de um biombo, na esplanada). Tudo é bonito, tudo dá vontade de levar para casa. Não admira que seja tão fotografado. Na esplanada ouve-se sempre aquele avião clássico a sobrevoar Campo de Ourique, mas quanto a isso não há volta a dar.
Banda sonora: Um dos pontos mais surpreendentes. Ouve-se música muito boa neste café: de Supertramp a Creedence Clearwater Revival, passando por 50 Cent… um encanto.
Serviço: Muito simpático e eficiente. Aparecem quando precisamos e não fazem aquele olhar “sei-que-queres-falar-comigo-mas-vou-fingir-que-não-te-vi” que tantas, tantas vezes se vê por aí.

#dicacerta: Nunca é demais reforçar — as panquecas do Amélia são muito boas. Em caso de dúvida, quando passar por lá, aposte nelas e não sairá desiludido. O brunch é coisa típica para fins-de-semana ressacados, mas se lá for ao fim de semana prepare-se para esperar. Esperar bem. Bem e muito. Se for ao dia de semana vai ter mais sorte. Ainda assim, vá cedo. E quanto mais cedo for, mais mimosas poderá beber.

Sebastião Carolino também é adepto de um bom lanche-ajantarado e prefere sempre o salgado de uns folhadinhos de salsicha ao doce de um mini pastel de feijão.

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