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A diocese católica de Harrisburg, na Pensilvânia (EUA), divulgou uma lista de 71 padres e outros membros da Igreja acusados de abuso sexual de menores e anunciou que retirará os seus nomes de todos os edifícios ou salas pertencentes à Igreja que os tenham recebido como forma de homenagem.

A decisão foi anunciada na passada quarta-feira pelo bispo Ronald Gainer. “Sei que a decisão de retirar os nomes dos bispos e dos clérigos pode ser controversa, mas como bispo acredito fortemente que os líderes da diocese devem ter um padrão mais elevado e devem preservar os símbolos honorários tendo como principal interesse a reconciliação”, afirmou Gainer, que foi nomeado bispo pelo Papa Francisco em 2014. A lista de 71 nomes pode ser consultada online.

“Leio a informação criada nesta lista com muita tristeza, pois mais uma vez somos confrontados com o horror de crianças inocentes que foram vítimas de atos graves. Sinto-me triste porque sei que por trás de cada história está o rosto de uma preciosa criança à luz de Deus. Uma criança que foi magoada pelos pecados daqueles que deviam comportar-se melhor”, pode ler-se no comunicado divulgado pela diocese.

A diocese de Harrisburg renovou ainda o seu site, a que chama agora “Youth Protection” (Proteção dos Jovens) tornando a defesa dos menores o seu objetivo principal.

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A decisão do bispo Gainer surge pouco antes de ser divulgado o relatório de uma investigação de um Grande Júri no estado da Pensilvânia ao abuso sexual de menores em instituições da Igreja Católica locais. Segundo o New York Times, Harrisburg é uma das seis dioceses visadas no relatório (para além de Allentown, Erie, Greensburg, Pittsburgh e Scranton), que denunciará mais de 300 padres acusados de abuso sexual e os bispos que não os demitiram. As dioceses investigadas são frequentadas por cerca de 1,7 milhões de católicos, de acordo com a Associated Press.

Na carta que acompanha a lista, o bispo Gainer explica que a diocese não investigou se as acusações têm ou não substância, alegando que os registos de eventos há 50 anos não são os mais fiáveis. Contudo, explicou, foram excluídos da lista casos em que havia provas — como por exemplo judiciais — a desmentirem as alegações. Segundo o Penn Live, dos 71 nomes, 37 correspondem a padres da diocese, três diáconos, seis seminaristas, nove padres de outras dioceses e 16 membros de comunidades religiosas.

Apesar das acusações remontarem a 1947, a grande maioria diz respeito a crimes que terão ocorrido nas décadas de 70, 80 e 90. A  diocese vai igualmente abdicar de quaisquer direitos de confidencialidade adquiridos através de acordos judiciais a que chegou ao longo dos anos sobre padres suspeitos de abuso sexual.

Igreja Católica norte-americana abalada por novos escândalos sexuais

No comunicado que acompanha a lista bem como num texto de opinião publicado no jornal local Penn Live, o bispo Gainer explica que a diocese tinha a intenção de publicar esta lista em setembro de 2016, mas a Procuradoria pediu para que tal não fosse feito, a fim de proteger a investigação judicial que estava a decorrer. “A diocese honrou esse pedido. Agora, contudo, com a investigação a chegar ao final e com o Supremo Tribunal a ordenar o impedimento da divulgação total do relatório para já, decidimos disponibilizar a lista no nosso novo site”, explicou o bispo. O Supremo Tribunal da Pensilvânia decidiu em junho que o relatório não deveria ser publicado na íntegra, tendo em conta as várias queixas de pessoas nomeadas no relatório.

O porta-voz do procurador-geral contesta contudo esta versão benévola: “A diocese de Harrisburg teve décadas para publicar estes nomes e depois resolveu divulgá-los mesmo no meio da nossa investigação do Grande Júri, quando podia prejudicar a investigação”, afirmou Joe Grace ao New York Times.

O mesmo jornal relembra que um dos visados na investigação já se declarou como culpado. É o caso do padre Jon Thomas Sweeney, da diocese de Greensburg, que assumiu o crime de abuso sexual de um rapaz de 10 anos, há 16 anos. Até ao verão do ano passado, altura em que foi detido, Sweeney continuava a trabalhar na paróquia.

A decisão da diocese de Harrisburg surge num momento de debate interno da Igreja Católica nos Estados Unidos relativamente às suspeitas de abuso sexual de menores. O caso de arcebispo Theodore McCarrick, acusado de abusar sexualmente ao longo de vários anos um rapaz que conhece desde que o batizou em bebé, é um dos escândalos sexuais mais recentes a abalar a Igreja norte-americana. No sábado passado, o Papa Francisco aceitou a demissão de McCarrick e suspendeu-o do exercício de qualquer função pública dentro da Igreja.

Na passada quarta-feira, o cardeal Daniel N. DiNardo, arcebispo de Galveston-Houston, divulgou um comunicado onde comenta as acusações que pendem sobre o arcebispo. O caso de McCarrick, escreve, “revela uma falha moral gravosa dentro da Igreja”.

“Provoca aos bispos raiva, tristeza e vergonha — sei que a mim causa”, acrescenta o cardeal.

Os casos de abusos sexuais dentro da Igreja Católica nos Estados Unidos começaram a ser divulgados em 2002, na sequência de uma investigação do jornal Boston Globe sobre a diocese de Boston. Desde então, outros casos foram sendo conhecidos ao longo dos anos e muitos padres e bispos acabaram por afastar-se dos cargos que ocupavam.