Eram sanções pré-anunciadas. Desde o dia 8 de maio, quando Trump disse que os EUA iam sair do acordo nuclear assinado em 2015 entre o Irão, os EUA, o Reino Unido, a Rússia, França, China e Alemanha, que a ameaça pairava no ar: os EUA de Trump não iriam cumprir o acordado e iam não só reativar as sanções contra aquele país, levantadas em troca da suspensão do programa nuclear, como iam aumentá-las. “Vamos impor as sanções mais fortes da História ao Irão”, disse na altura o chefe da diplomacia norte-americana, Mike Pompeo. O regresso das sanções comerciais foi confirmado esta segunda-feira e terá efeito a partir desta terça.

De acordo com o Washington Post, a administração norte-americana fez saber que as sanções que tinham sido levantadas nos últimos dois anos vão regressar em força já a partir desta terça-feira, logo que o relógio bata a meia-noite e um minuto (hora de Washington, que equivale às 8h31 em Teerão). A partir dessa altura o Irão deixa de poder usar dólares norte-americanos, que é a moeda mais utilizada em transações financeiras internacionais e no negócio do petróleo.

Numa primeira fase, contudo, as sanções vão abranger sobretudo setores como o mercado dos automóveis, do ouro, aço e outros metais importantes para a economia iraniana. Também as licenças que permitem a importação de tapetes e alimentos iranianos, como os pistácios, serão revogadas. O mesmo para as licenças que permitem a Teerão comprar aviões e peças dos EUA e da Europa — uma restrição que acontece dias depois de o Irão adquirir cinco novos aviões comerciais da Europa.

Segundo uma declaração feita por responsáveis da Casa Branca aos jornalistas, citada pelo mesmo Washington Post, o objetivo da administração Trump é, primeiro, obrigar o Irão a renegociar o acordo nuclear de forma a que também inclua os testes de mísseis balísticos e, depois, obrigar o governo de Hassan Rouhani a mudar totalmente o seu comportamento. Segundo a mesma declaração de altos responsáveis da administração norte-americana, os EUA estão ao lado dos manifestantes iranianos, que estão insatisfeitos com o estado em que está a economia iraniana, mas não estão a apoiá-los de forma a que a luta nas ruas leve a uma mudança de regime no Irão. “O presidente tem sido muito claro, o povo iraniano não devia sofrer por causa das ambições hegemónicas do seu regime”, terá dito um dos responsáveis da administração Trump. O Irão tem sido palco, na última semana, de protestos variados contra a situação económica no país.

O regresso das sanções norte-americanas contra o Irão estava anunciado desde o dia 8 de maio, quando o Presidente Trump anunciou a saída do acordo que tinha sido assinado pelo seu antecessor: acabavam-se as sanções económicas se o Irão acabasse com o seu programa de testes nucleares. Para Trump o acordo sobre o programa nuclear iraniano apenas beneficiava o Irão e tinha de ser renegociado. Não é o que entendem, contudo, os aliados dos EUA na Europa, que também assinaram o acordo em 2015, e que veem o acordo como vantajoso para ambas as partes na medida em que o programa nuclear é travado e o levantamento das sanções internacionais reanima a economia iraniana.

A União Europeia já fez saber que vai continuar a negociar com o Irão, dando mesmo a entender que irá enfrentar as ameaças norte-americanas contra as empresas europeias que queiram manter os seus contratos com o Governo iraniano. “As partes que se mantêm no acordo comprometeram-se a trabalhar para a preservação e manutenção de canais financeiros com o Irão, e para a continuação das exportações iranianas de petróleo e gás”, lê-se num comunicado conjunto onde os países europeus que estão inseridos no acordo para travar o programa nuclear iraniano lamentam o gesto norte-americano. Federica Mogherini, alta representante da UE para os Assuntos Externos, garante mesmo que o acordo sobre o programa nuclear “está a funcionar” e vai continuar a funcionar.

A reação do Irão ainda não se fez ouvir, mas Rouhani deverá fazer uma comunicação em breve.