É quase uma da tarde, o sol continua alto, quente e nem as águas mansas do rio Douro acalmam a vaga de calor. Tony Smith espera-nos no exterior da pitoresca (e meio deserta) estação de comboios de Arêgos, na fronteira entre a região dos Vinhos Verdes e o Douro, dois berços para perfis de vinhos muito distintos.

O ex-correspondente de guerra convertido em produtor é um homem pragmático, mas ao volante do seu Land Rover, um carro todo-o-terreno habituado às curvas íngremes e às estradas irregulares, reconhece que a vida no campo deu-lhe um maior respeito pela natureza — não que acredite numa entidade superior, mas, agora, reconhece o poder de dois minutos de granizo inesperado sobre a vinha. Bem como a influência de temperaturas infernais que chegam depois de um inverno prolongado. Está a ser um ano difícil.

Tony Smith chegou a Lisboa em 1988, ainda as chamas consumiam os armazéns do Chiado. Aos 20 e poucos anos tinha um país inteiro só para si, para cobrir enquanto correspondente da Associated Press. Foi obrigado a aprender português, língua que hoje domina perfeitamente e que lhe sai boca fora com sotaque brasileiro. Bósnia e Ruanda foram cenários de guerra para este “bombeiro” ao serviço da AP (e, mais tarde, do The New York Times). De fogo em fogo por apagar, Tony construiu uma carreira sólida no jornalismo, que incluiu também o universo das revistas. Viveu em diferentes coordenadas do globo, incluindo São Paulo, no Brasil, mas foi a Portugal que sempre regressou. Desde há sete anos é um dos rostos da dupla Lima & Smith, que detém a Quinta da Covela, na aldeia São Tomé de Covelas, em Baião, onde nascem vinhos verdes que piscam o olho ao Douro.

A Quinta da Covela foi adquirida em 2011, depois de dois anos votada ao abandono. Ana Cristina Marques / Observador

“A forma da Covela é uma banana”, diz-nos o produtor de 57 anos. A relativa distância, a Covela — que até à década de 80 pertenceu ao cineasta português Manoel de Oliveira, em parte responsável pela beleza cénica da quinta — parece repousar no coração de um pequeno vale, absorta do que a rodeia. A biodiversidade concentrou-se neste pedaço de terra, deixando a vizinhança mais nua e descolorida. Folhas verdes, robustas, embrulham edifícios inteiros e escondem as pedras de granito que dão forma às paredes. O chão é acidentado e escorregadio, a sombra é uma constante devido às trepadeiras que se entrelaçam umas nas outras. A melhor parte será mesmo a carcaça do antigo solar do século XVI e a igreja que o acompanha.

A extensa propriedade, com cerca de 50 hectares, esteve votada ao abandono durante dois anos (o antigo proprietário declarou falência em 2009). Quando Smith e o sócio Marcelo Lima, empresário mineiro, a adquiriram em leilão, depois de uma intensa procura por uma quinta onde produzir o próprio vinho, encontraram um sobreiro no meio da vinha. Encontraram também uma colheita perdida e litros de vinho completamente arruinados na adega — vítimas da conta de eletricidade que ficou por pagar. Vindimar o ano de 2011, a mítica colheita de que tantos enólogos falam, nem hipótese remota era.

O trabalho de recuperação foi duro. Foram precisos dois meses só para limpezas. Para restaurar o moinho ali existente, Tony pediu a ajuda de um homem que, mais tarde, descobriu ser um dos dez filhos do caseiro da quinta, nascido e criado na Covela.

Cerca de 50 a 60% das vinhas foram replantadas ao longo do tempo. A grande maioria são castas portuguesas, mas a vinha de Chardonnay com cerca de 40 anos, originalmente plantada por João Nicolau de Almeida, ex-diretor geral da Ramos Pinto, ainda respira. Em tempos, a quinta foi campo experimental para uvas estrangeiras, hábito que foi caindo em desuso. A produção biológica, essa, manteve-se. A cargo dos vinhos da Covela está a equipa de sempre. O enólogo Rui Cunha, ligado ao projeto desde 1990, foi convidado a regressar aos vinhos que ajudou a pôr no mapa. Se em 2012 produziram 25 mil garrafas, em 2017 a equipa conseguiu chegar à meta dos 100 mil.

Tony Smith, que cede um dos apelidos do grupo Lima & Smith, construiu uma carreira sólida em jornalismo. Desde 2011 está à frente dos destinos da Covela. © Antonio Pedrosa

A Covela tem sete referências, dos monocasta Avesso e Arinto aos rótulos que juntam Chardonnay no blend. Ainda existem vinhos tintos em stock, apesar de terem sido descontinuados em 2014. Tony abriu uma garrafa de 2004 durante uma prova realizada sob um Cedro-do-líbano de grande porte; ao copo chegou um vinho a fazer lembrar um pouco do Dão — a cerca de 100 quilómetros de distância. O Avesso, uva nascida e criada na região dos Vinhos Verdes e que lá fora não encontra preconceitos, é o porta-estandarte da Quinta da Covela. A propriedade vinhateira encontra-se numa situação curiosa: se por um lado tem solos típicos da zona dos vinhos verdes, ricos em granito, por outro, o clima é do Douro.

A Covela está na margem direita do rio Douro, na zona austral da região dos Vinhos Verdes, no Minho, onde os invernos são muito frios e os verões são quentes e secos. Uma grande parte das uvas está plantada em socalcos que fazem lembrar os degraus que enchem as colinas durienses. Tony já se habituou a usar a expressão, pouco consensual e não oficial, “Douro Verde”. Um ano bom em terra de vinho do Porto é também um ano bom por aqui (e vice-versa). Brasil, Inglaterra e EUA são mercados externos que se têm interessado por esta particularidade. E, curiosamente, a primeira encomenda para o Japão de Covela Edição Nacional Arinto e Avesso 2017 aconteceu há dias. “É ideal para o sushi”, atira Tony. A Quinta da Covela está ainda encarregue de recuperar os vinhos da Fundação Eça de Queiroz, casa-museu do escritor que se encontra em Baião.

Não é português, mas ninguém diria, a julgar pela forma como Tony Smith defende as castas nacionais. Outra causa próxima é o blend, mistura de uvas que o produtor garante ser reveladora do potencial vinícola do país e que põe sobretudo em prática nas outras quintas do grupo — Boavista e Tecedeiras, no Douro (a última corresponde a um arrendamento de longa duração, apesar de a marca pertencer ao grupo). “O blend deve ser visto como uma coisa nobre. É como um fazer um perfume”, argumenta. Tony, saturado do termo terroir, quer criar “vinhos autênticos”.

“O vinho surgiu mal saí de Inglaterra”, diz-nos, entrelaçando os dedos num copo de tinto da Quinta das Tecedeiras. “Em casa havia sempre duas garrafas de vinho, um xerez doce que a minha avó bebia e um Porto para as visitas”, recorda os vinhos intocáveis. Foi na Áustria, onde estudou relações internacionais, que passou a gostar mais de vinho. Enquanto jornalista, o único artigo que fez sobre a bebida resultou numa entrevista ao crítico Hugh Jonhson. Tony nunca olhou no espelho e pensou: “Estou destinado a fazer vinho”.

Em tempos, a Covela pertenceu ao cineasta português Manoel de Oliveira. ©Antonio Pedrosa

“Fazer uma coisa destas só com paixão. Aconteceu. Nunca achei que estivesse destinado a fazer vinho. Nunca pensei que fosse tão longe.” Ao vinho acrescenta-se o azeite, negócio que existe há três anos e estende-se a todas as propriedades da dupla. O caminho que Tony percorreu no sector foi sempre ao lado do brasileiro Marcelo Lima. Ambos compraram a Quinta da Covela em 2011, resgatando-a da ruína a que tinha sido votada. Tony vive numa das três unidades de luxo que o anterior dono construiu no alto de uma colina sobranceira à quinta, casas de design que a crise económica haveria de hipotecar. Marcelo, entre Portugal e o Brasil, vai vivendo. Os dois são os produtores de vinhos verdes irreverentes, que fogem ao estilo que a tradição já convencionou.

A Quinta da Covela pode ser visitada de segunda a domingo, entre as 10h30 e as 18h30, até ao final de setembro. Entre outubro e abril, pode ser visitada de terça a domingo, entre as 10h30 e as 16h30. Aos sábados, domingos e feriados é exigida marcação prévia de pelo menos um dia.