Rosa Grilo, a mulher do triatleta encontrado morto a 24 de agosto na berma de um caminho de estrada, em Avis, é suspeita de ter matado o marido em conjunto com um homem com quem manteria uma relação próxima. Ambos foram detidos e em causa poderá estar um crime passional. Se se formalizar uma acusação de homicídio, há uma criança de 12 anos que, de um momento para o outro, pode ficar sem mãe, já depois de ter perdido o pai.

É uma situação extrema, a de um progenitor matar o outro, e um trauma provável. Revolta, medo, insegurança face ao futuro e noção de desamparo são estados emocionais que, em simultâneo, podem assoberbar um menor de idade que se encontre numa situação destas, sobretudo numa altura em que o cérebro “ainda está em construção”. Negação também. Inês Afonso Marques, psicóloga infantil, esclarece que, numa fase inicial, é possível que a negação atue como um mecanismo de defesa e fala no “bloqueio de estados emocionais”.

“Esta é uma realidade muito difícil de gerir, mesmo para adultos. Mais ainda para um jovem de 12 anos. Pode gerar conflitos de lealdade e conflito interno — desejo de vingar a morte do pai, por exemplo, e, ao mesmo tempo, dificuldade em dirigir essa raiva contra alguém de quem gosta”, assegura também a psicóloga clínica Rute Agulhas, especialista em psicologia da justiça e docente e investigadora no ISCTE-IUL.

A imagem da mãe, sendo essa uma figura de referência para um filho, ficou, neste caso, vertiginosamente alterada. E isto acontece ao mesmo tempo que o pré-adolescente vive o luto do pai, cuja morte ganhou contornos mediáticos. “Esta criança está muito vulnerável. O impacto vai depender muito da idade, dos recursos pessoais, do desenvolvimento cognitivo e da sua rede de suporte.” A comprovar-se a responsabilidade de Rosa Grilo na autoria da morte de Luís Grilo, o menino precisará de uma rede de apoio. Quem ficar responsável pelo pré-adolescente deverá dar-lhe espaço e tempo para que processe a situação — para falar, questionar e sentir quaisquer que sejam os estados emocionais. “Quem estiver a apoiar terá de validar todas as emoções que a criança estiver a viver”, reitera Inês Afonso Marques, da Oficina de Psicologia.

A mulher de Luís Grilo, no canto direito.

Rute Agulhas, por sua vez, refere que um jovem de 12 anos que perde o pai de forma violenta e súbita, podendo a mãe estar envolvida nessa morte, “precisa de um contexto acolhedor do ponto de vista afetivo, que lhe transmita sentimentos de segurança e previsibilidade”. Uma vivência como esta pode despertar vários sintomas — de ansiedade e estados depressivos a comportamentos mais agressivos — , pelo que a psicóloga defende um “acompanhamento terapêutico especializado”. “Pode ainda manifestar sinais e sintomas de perturbação pós-stress traumático ou desconfiança relacional generalizada.”

Filtrar respostas sem inibir perguntas

O desaparecimento de Luís Grilo, a 16 de julho, captou atenção a nível nacional. O esforço para encontrar o atleta começou localmente, progrediu para as redes sociais e chegou aos media. Os desenvolvimentos sobre o caso foram progressivamente publicados e, dez semanas depois, o corpo foi encontrado. O cadáver estava despido, com a cabeça tapada. Sabe-se agora que o engenheiro informático de 50 anos terá sido atingido mortalmente com um tiro na cabeça.

Proteger um filho de detalhes como estes não será fácil, mas o ideal, afiança Inês Afonso Marques, será “poupar ao máximo” os pormenores, uma vez que eles nada acrescentam à compreensão da criança. Ao mesmo tempo que a informação deve ser filtrada, a criança não dever ser inibida de colocar todas e quaisquer perguntas. O jovem deverá ainda, tanto quanto possível, optar por manter as rotinas e o dia a dia, sendo que, aqui, os pares e a escola desempenham um papel fulcral. “Seria desejável um processo articulado com este sistema, de modo a diminuir a probabilidade de sentimentos de estigmatização, gozo ou rejeição.”

A nova realidade do filho de Luís Grilo não deverá afetar o desenvolvimento moral do rapaz, mas poderá fazê-lo questionar noções de justiça, garantem as psicólogas contactadas pelo Observador. O mais provável é que o menor em causa tenha tido — e continue a ter — um papel importante na investigação, como salientou o psicólogo forense Mauro Paulino à SIC Notícias na noite de quarta-feira.

“Esta criança, este jovem, poderá ter relatado eventuais conflitos que existiam em casa, bem como a dinâmica relacional entre os pais e se, efetivamente, o pai tinha o hábito de ir treinar da forma como foi relatado… Esta conjugação de informações, não só da criança, mas da própria mãe e de outros familiares próximos, será fundamental para conjugar com outros elementos de prova que a polícia recolheu”, disse. Mauro Paulino reconheceu, no entanto, a hipótese de o filho tentar proteger a mãe no seu testemunho, uma situação que deverá ser acautelada pelos investigadores. Uma coisa parece ser irrefutável: muitas vezes, o testemunho das crianças é fundamental em casos como estes para determinar o que realmente aconteceu.

Maria das Dores, a socialite que mandou matar o marido

Em janeiro de 2007 a bomba rebentou: a socialite Maria das Dores mandara matar o marido, o empresário Paulo Pereira da Cruz, que teria intenções de lhe pedir o divórcio. A notícia chocou o país, muito à semelhança do caso que agora envolve o casal Luís e Rosa Grilo. Segundo a história à data divulgada, o empresário do setor hortícola foi atraído a um apartamento em Lisboa sob o pretexto de uma conversa mais profunda sobre a relação com a mulher. Foi nesse mesmo apartamento que levou duas marretadas na cabeça, as quais lhe tiraram a vida. A morte foi violenta e o caso ganhou contornos mediáticos.

De 2007 para 2008 soube-se que o crime fora orquestrado pela socialite, que, após o muito temido divórcio, corria o risco de perder a vida de luxo que tinha. Foram João Paulo Silva e Paulo Horta, motorista e carpinteiro da socialite, que assassinaram violentamente o empresário. Maria das Dores foi condenada a 23 anos de prisão, João Paulo Silva a 20 e Paulo Horta a 18 anos, sentença decretada pelo juiz Carlos Alexandre que, escreveu o Expresso, demorou mais de duas horas a ler o acórdão. Para trás ficou o filho do casal, Duarte, hoje com 18 anos, que perdeu o pai e a mãe, a cumprir a pena na prisão de Tires até 2026, de quem foi afastado pela família do lado do pai.

Em janeiro deste ano, Maria das Dores — tida como uma reclusa tranquila e dedicada a trabalhar na biblioteca — teve direito à primeira saída precária e passou três dias em liberdade.