A internet é uma enciclopédia ilimitada de informação que tem os seus dias bons e maus. Se googlarmos uma dor no lado esquerdo da barriga, vamos descobrir coisas desagradáveis. Se, por um lado, a Internet é uma fonte de informação onde literalmente tudo pode ser pesquisado, por outro também continua a propagar muitos mitos que são discutidos, defendidos e proliferados em sites e blogues.

Quando entramos no domínio da beleza, esses mitos podem atingir proporções quase disparatadas porque hoje qualquer pessoa cria um blogue e pode assumir-se como um especialista em beleza. Sem sequer pensar nos riscos para quem está em casa, lê, acredita e confia. E há mitos que simplesmente continuam a espalhar-se, mesmo que a falta de fundamento seja notória.

Falámos com alguns especialistas e pesquisámos em publicações de referência para desmistificarmos oito dos mitos de beleza que mais persistem na Internet para que pare de acreditar neles.

“Usar pasta de dentes nas borbulhas vai fazer a acne desaparecer”

“Usar pasta de dentes na acne, para além de não a fazer desaparecer, pode ainda piorar a sua inflamação, podendo inclusive deixar manchas e cicatrizes”, clarifica Inês Rebelo, facialista que o Observador entrevistou no início do ano. “Poder-se-ia pensar (e bem) que a substância triclosan, presente nas pastas de dentes, diminuiria a acne pela sua ação anti-bacteriana. O grande problema é que esta substância não está num produto cosmético devidamente formulado para aplicar no rosto, mas sim nos dentes. Não nos podemos esquecer que os dentes são revestidos pelo esmalte, a parte mais dura do nosso corpo. O meu melhor conselho é as pessoas procurarem um especialista que ajude, antes de mais, a determinar a origem da acne e a ter uma rotina adequada com produtos cosméticos também estes adequados para o tipo e estado de pele”. Ou seja, nunca usar pasta de dentes, mesmo que o Google diga que sim.

“Depilar com lâmina deixa os pelos mais grossos”

Este é um mito que persiste e persiste e persiste. Amy McMichael, presidente do Departamento de Dermatologia do Wake Forest Baptist Health, um centro médico académico nos Estados Unidos da América, diz à revista cientifica Scientific American que o mito continua a florescer porque o ser humano não é muito bom a observar. “Um fio de cabelo ou pelo humano é como um lápis ou um dardo que fica afiado no seu final. Assim, quando uma lâmina corta a sua ponta, pode parecer que o restante pelo fica mais espesso e grosso mas cortar não vai mudar em nada o seu processo de contínuo crescimento”, explica. O que acontece é que quando se corta o pelo com uma lâmina, a ponta (que é afiada e mais fina) é retirada e quando volta a nascer, o que fica à superfície (e nos parece mais grosso) é o resto do folículo mas sem a ponta. Também parece que cresce mais rápido? Outro mito. Com lâmina, corta-se o pelo na superfície e não pela raiz, o que faz com que o pelo reapareça mais cedo (porque o folículo continua a crescer ao contrário de quando o arrancamos pela raiz em que ele tem de nascer de novo) mas não está a crescer mais rápido.

“Quanto mais cedo se fizer preenchimentos e botox, menos rugas se vai ter com a idade”

“Vamos sempre ter rugas”, esclarece Tânia Girão, Product Manager da Filorga que, além de ser uma marca pioneira na “medicosmética” (une a cosmética à medicina) com produtos de dermocosmética inspirados nos procedimentos não cirúrgicos, trabalha há mais de 35 anos com soluções anti-envelhecimento médicas (injeções de ácido hialurónico) com médicos em mais de 60 países. “A partir dos 20 anos, perdemos 1% de colagénio a cada ano que passa. Mas o que pouca gente sabe é que perdemos 6% do ácido hialurónico da pele a cada 10 anos de vida. Ou seja, envelhecemos desde que nascemos. Os preenchimentos fazem uma correção mecânica extraordinária, pois colocam volume onde ele começa a deixar de existir e ajudam a que as rugas não se vinquem de forma tão acentuada. O mais curioso ainda é que os Art Filler da Filorga, por exemplo, promovem também a longo prazo uma correção ativa na pele. Mas ou uma pessoa começa a usar fillers desde cedo e nunca para, ou é evidente que as rugas e a falta de volume vão naturalmente aparecer, pela mímica facial e por toda a perda de funcionalidade das estruturas cutâneas que apenas estão no auge na pele jovem” explica. Não vale a pena começar a usar este tipo de tratamentos cedo com a ideia de prevenir aquilo que é natural no ser humano — o envelhecimento. Deve ser usado como correção nos momentos certos para um envelhecer mais saudável e não como prevenção.

“Tudo o que é natural é bom”

“É como se, por ser natural, tivesse uma bondade intrínseca. Um produto natural é bom porque é natural e um produto químico é mau porque é químico”, diz David Marçal, bioquímico, na sua palestra na TEDxPorto. E dá um exemplo engraçado mas que não deixa de ser sério. Se uma pessoa se virar contra o que é natural, é como se fosse contra a natureza. E a natureza é boa, certo? O por do sol é mágico. Mas o sol é o um cancerígeno de nível 1. E em certas alturas do dia devemos usar um protetor solar. Mas o protetor solar não é mais do que uma mistura de substâncias químicas capazes de absorver radiação ultravioleta. Então precisamos de usar um produto químico para nos proteger de algo natural. O que se pode retirar daqui é que nem tudo o que é natural é bom e muitos dos produtos que se assumem como naturais não têm sequer explícitos os seus ingredientes. Antes de comprar um produto só porque diz que é natural em letras grandes, informe-se bem. Pode ouvir a palestra de David Marçal na TEXdPorto no YouTube.

“Cremes, tratamentos, agulhas… a celulite pode ser eliminada”

A celulite faz parte da vida de cerca de 98% das mulheres e “a celulite não é uma doença, então não há uma cura”, disse a dermatologista alemã Yael Adler quando a entrevistámos a propósito do seu livro bestseller O Fascinante Mundo da Pele (pode reler a entrevista aqui). E Adler explica de forma muito prática a forma como a indústria da beleza nos vende o sonho da pele sem celulite, destacando vezes sem conta que é uma coisa tão normal do corpo feminino que não deveria ser vista com tanto desgosto. “As rugas acontecem na segunda camada da pele e os cremes não funcionam. A celulite acontece na terceira camada da pele… Não há nada que chegue lá. Claro que há alguns conselhos para não deixar a celulite passar para um estado avançado e demasiado visível como fazer exercício, não fumar e não apanhar sol”, salienta. A dermatologista explica ainda que as massagens e os cremes podem ter um efeito temporário porque, ao aplicarmos um creme e massajarmos, vamos aumentar a circulação linfática e a pele pode parecer diferente. Mas a celulite em si não vai mudar nada. Nenhum creme consegue ser suficientemente absorvido pela pele nem nunca vai alcançar a camada profunda do tecido adiposo de modo a alterar a configuração da rede de fibras que cria a celulite. “Nem os tratamentos médicos invasivos como o laser ou as radiofrequências. Os resultados são pouco expressivos e temporários”, salienta.

“Se arrancamos um cabelo branco, muitos mais vão nascer no seu lugar”

Não só não nascem mais, como pode mesmo não nascer mais nenhum. E isso também não é bom, explica o bioquímico de cosmética Randy Schueller no livro It’s OK to Have Lead in Your Lipstick, que desmistifica mitos da beleza. O que acontece é que quando arrancamos um cabelo branco, sim, vamos livrar-nos dele mas apenas temporariamente. O folículo ainda está vivo e vai produzir outro cabelo para substituir aquele que foi retirado. E o cabelo substituto vai continuar a ser branco. Ainda assim, essa não é a melhor solução. Schueller diz que arrancar constantemente cabelos brancos pode danificar os folículos ao ponto deles não produzirem mais fios de cabelo. O que é melhor? Cabelos brancos ou falhas no couro cabeludo?

“Os cremes anti-idade ou anti-rugas conseguem eliminar as rugas que já temos”

A dermatologista alemã Yael Adler já tinha explicado que não, mas a facialista Inês Rebelo corrobora e esclarece que nenhum cosmético de aplicar em casa vai “apagar” as rugas que já temos. “As rugas fazem parte do processo de envelhecimento da pele, por dentro e por fora. No entanto, há produtos cosméticos muito bem formulados, com princípios ativos realmente inovadores e que conseguem retardar o envelhecimento cutâneo”, diz, salientando que retardar não é a mesma coisa que eliminar as rugas. “Um cuidado anti-rugas deverá ser sempre feito em gabinete onde se consegue uma estimulação mais profunda da pele, seja através de um peeling químico ou de um dermoabrasão, por exemplo, onde se consegue ver resultados na melhoria das rugas existentes e mais profundas. É um trabalho contínuo onde se trabalha a pele de fora para dentro”, explica ao Observador.

“A pele habitua-se aos cremes e eles deixam de fazer efeito”

Cuidar da pele é como jogar na roleta russa. Ou seja: ela não se habitua aos produtos, simplesmente está sempre a mudar, diz Jennifer Brodeur, a guru da pele que ficou conhecida por tratar dos rostos de Oprah e Michelle Obama. Então é normal que deixe de reagir da mesma forma aos mesmos produtos, não porque ficou imune a eles, mas porque está sempre a reagir ao que nos rodeia (o clima, a poluição, o stress, a idade…). Um exemplo: no inverno necessita de produtos diferentes do verão. E também é normal que, se a dada altura desenvolver manchas, o seu habitual creme anti-idade já não vai ser suficiente porque agora a pele vai precisar de algo que atue rapidamente na pigmentação. Renée Rouleau, a especialista fundadora da marca com o seu nome, acrescenta ainda o efeito visual da nossa própria perceção: “Quando a pele atinge um certo patamar visível, nós esquecemo-nos como ela era antes de usarmos esse produto. Digamos que o objetivo era clarear e recentemente a pessoa começou a usar um esfoliante ácido e um sérum de vitamina C. Este tipo de produtos vão proporcionar resultados rápidos, a pele vai ficar com uma aparência mais uniforme e vão haver menos resultados ao longo do tempo. É simplesmente uma situação de perceção em que aquilo que a pessoa vê agora é o novo normal”, explica. Em conclusão, esta ideia da pele se habituar é apenas uma invenção desta indústria que nos quer convencer de que precisamos de comprar mais e mais e mais produtos. A pele simplesmente quer produtos corretos para aquilo que precisa em cada momento.