“Em 2000 o país estava mal e quis dizer que em primeiro lugar sou argentino. Tenho parte do Boca que vem da minha infância e depois o River, por escolha. O Boca-River é um jogo de futebol, é desporto. Podemos ganhar, podemos perder. É óbvio que um termina triste e o outro contente mas quem der outra conotação a esta final está errado e não entende nada sobre a vida (…) O meu pai era do Boca e levava-me ao estádio, é lindo poderes ir pela mão do teu pai. Tenho recordações maravilhosas dessa época mas quando me mudei para Núñez comecei a gostar do River. Aos oito anos, tive uma conversa com o meu pai disse-lhe que queria ser do River. Ele percebeu-me. A partir daí, fiz-me do River, o Boca começou a ser adversário mas nunca senti nada de mal pelo outro. O mau é que nunca mais voltei a ir ao estádio com o meu pai (…) Joga-se para ganhar, sofre-se mas no final há que deparar as coisas. Nunca vou ser inimigo de um adepto de outro clube porque primeiro está a pessoa. Se odeio um adepto do Boca, estou a odiar o meu pai, entendes? Como vou lutar com um ser humano por causa do futebol?”

Ingressos só para adeptos do Boca esgotaram num ápice e polícia reforçou segurança nas bilheteiras (EITAN ABRAMOVICH/AFP/Getty Images)

O testemunho de Cachito Vigil, antigo jogador e selecionador de hóquei em campo, foi recuperado pelo Olé esta sexta-feira, após uma frase dita em 2000 quando se assumiu adepto do Boca Juniors e do River Plate, os dois rivais que são protagonistas há mais de 100 anos do Superclássico argentino que será agora reeditado na final da Libertadores. No entanto, esta é uma exceção. Está mesmo muito longe de fazer regra. E Buenos Aires está envolta numa autêntica loucura na antecâmara da primeira mão de um duelo com tanto de apaixonante como de intrigante que deixou a cidade em estado de sítio.

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Nahuel e Ana Sofia, um casal de Pinamar, foram pais há três semanas e não passaram ao lado desta febre que se arrasta desde as meias-finais da prova sul-americana, quando o River Plate defrontou o Grémio e o Boca Juniors teve pela frente o Palmeiras. E como se chamou a criança? Agustín no início, Bejarano no final, o amor por um clube no meio: Enzo, em homenagem ao antigo 10 Francescoli; River, pelos Millonarios; e Plate, que por coincidência é o apelido da mãe. Já na pequena localidade de San José de la Esquina, em Santa Fé, um adepto do Boca Juniors decidiu pintar as cores azuis e amarelas no cão esta semana, o que motivou críticas através das redes sociais pelo limite, ou a falta dele, a que se chegou por causa do Superclássico.

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O vídeo de promoção feito pela Associação de Futebol da Argentina, que aqui se denomina de Amigos do Futebol Argentino, resume num minuto e meio o que está em causa sob a palavra inexplicável. “Quais são as possibilidades de teres os dois melhores jogadores da história do futebol e serem os dois canhotos?”, diz entre imagens de Diego Maradona e Lionel Messi. “Quais são as possibilidades de veres fumo branco e o novo Papa ser argentino?”, continua, citando a ascensão de Jorge Bergoglio a Papa Francisco. “Quais são as possibilidades de ter cinco presidentes numa semana?”, prossegue, recordando o louco final de 2001 e as passagens de Fernando de la Rúa, Ramón Puerta, Adolfo Rodríguez Saá, Eduardo Camaño e Eduardo Duhalde pelo cargo durante 12 dias naquela que foi a maior crise de sempre do país. “Quais são as possibilidade de superar tudo isso, dar um abraço sem braços e gritar um golo como gritamos? Não me expliquem nada, os inexplicáveis somos nós. E quais são as possibilidades de uma final continental ser um clássico de bairro? Só na Argentina”, remata.

https://www.youtube.com/watch?v=ttt4p_qRJZU

Aquilo que deveria ser apenas um jogo de futebol tornou-se um assunto de Estado. E o primeiro a pronunciar-se foi Mauricio Macri, presidente da Argentina que liderou também durante 12 anos o Boca Juniors – inicialmente confessou que não gostaria de ver uma final 100% argentina na Libertadores por saber que, quem perdesse, ficaria com uma marca demasiado profunda muito tempo; depois, confirmadas que estavam os afastamentos de Grémio e Palmeiras, pediu às autoridades de Buenos Aires para que quebrassem a regra de não haver adeptos visitantes no estádio do rival por motivos de segurança.

Nada feito. Vistas e revistas as condições, essa premissa não foi alterada… ao contrário da própria data dos jogos: por causa da cimeira do G20 (que contará entre outros com a presença de Donald Trump e Vladimir Putin) que se vai realizar perto do Estádio Municipal de Núñez, onde o River Plate vai receber a segunda e decisiva mão da final, o encontro foi antecipado uns dias. Aqui todos concordaram mas, como conta o ABC, nas outras questões houve várias opiniões entre políticos. Apenas mais um episódio entre muitos da final mais esperada de sempre da Libertadores, que se começa a jogar este sábado às 20h.

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