Com a segunda mão empatada (1-1), depois do triunfo do Grémio em Buenos Aires por 1-0, um golo poderia decidir tudo. Ou “matava” a meia-final, ou invertia o apurado para a eliminatória decisiva. Um pouco do nada, sem sequer ninguém se aperceber (incluindo a própria realização do encontro), o árbitro Andrés Cunha aproveitou a substituição de Jael por Thaciano para ir à TV no relvado observar mais de perto um lance onde Scocco rematou à entrada da área e a bola bateu na mão de Bressan (sem qualquer tipo de protesto dos jogadores visitantes, que queriam era acelerar a marcação do canto). Estávamos no minuto 86. Quase nove minutos depois, Pity Martínez converteu o penálti e deu o triunfo aos argentinos.

Agora pergunta o leitor: porquê tanto tempo entre a marcação do castigo máximo e a respetiva transformação? Houve um pouco de tudo, em mais uma novela tipicamente sul-americana que acabou com muita confusão à mistura. Primeiro, Bressan viu o segundo amarelo e foi expulso – e a certa altura, perante a incredulidade do defesa, teve de ser o assistente a agarrar o jogador do Grémio para não se chegar mais ao árbitro principal (que entretanto tinha sido rodeado por outros elementos dos brasileiros); depois, porque teve de ser mostrado o tempo de descontos, que passou de nove para 13 minutos (acabou em 14); por fim, pasme-se, porque o uruguaio foi pedir aos delegados da CONMEBOL para que assegurassem a sua segurança no final do jogo ainda antes de acabar (e os responsáveis lá foram falar com o chefe das forças de segurança para fazer esse pedido).

Pity Martínez, extremo que muito em breve deverá rumar à Europa (pelo menos tem mais do que futebol para isso), fez mesmo o 2-1 que apuraria o River Plate para a Taça dos Libertadores – antes de exagerar nos festejos, ser “apertado” por adversários e ver amarelo – mas ainda haveria mais história para contar: logo após o apito final, a polícia de choque entrou em campo para rodear a equipa de arbitragem uruguaia enquanto os jogadores do Grémio voltavam a protestar com a decisão do lance que definiu o encontro… e não só – vistas e revistas as imagens, Borré, que celebrara o golo do empate passando a mão pela cabeça, parece ter desviado a bola com o braço na sequência de uma bola parada, num momento que passou ao lado da análise do VAR.

Bressan perdeu a cabeça depois do penálti decisivo e, depois de ser expulso, continuou os protestos (Lucas Uebel/Getty Images)

“O Grémio foi roubado, não há dúvida nenhuma. Até o Stevie Wonder conseguia ver isto. O Grémio só não está qualificado para a final por causa do VAR. Se funcionasse, estaria aqui a sorrir, a torcida feliz e a equipa na final dos Libertadores. Foi um roubo! A ver o jogo naquela cabine, com aquele monte de câmaras, como é que não vê que um jogador marca com golo com o braço? Será que ele consegue dormir hoje por causa disto? Se calhar até vai porque não tem nada a ver com o Grémio”, comentou Renato Gaúcho no final do encontro, entre expressões como “raiva”, “humilhação”, “desrespeito” e mais umas achegas para a confusão: “O Gallardo está castigado, vai ao balneário, atrasam o início o jogo. Juntem tudo isso com a palhaçada do VAR, façam uma salada e vejam no que vai dar. É uma desmoralização para a CONMEBOL”.

Neste último caso, Marcelo Gallardo, treinador do River Plate que foi castigado para esta segunda mão da meia-final, nem sequer disfarçou e assumiu que quebrou as regras. “Tive a audácia de ir ao balneário porque os jogadores precisavam de mim e eu também. Quebrei uma regra, reconheço e assumo isso, mas era o que precisava fazer e não me arrependo nada. Os jogadores tinham uma mensagem clara e as pessoas que trabalham comigo também”, confessou, depois de ter estado todo o jogo a dar indicações através de um walkie talkie ao adjunto Matías Biscay (de novo, sem sequer disfarçar).

“Acho injusto este castigo que estava a cumprir porque me tira o direito e a liberdade. Não tenho problemas em ser multado porque a equipa sai um minuto atrasado do balneário mas quando é um pouco mais há tolerância zero, suspendem e tiram-nos do trabalho. É um ultraje tirarem a liberdade de trabalhar a um treinador”, justificou ainda Gallardo, que se deslocou ao balneário disfarçado com um caso e um boné que o tornaram irreconhecível perante as pessoas presentes naquela área.

Contas feitas, o técnico dos Millonarios deverá sofrer novo castigo mais pesado mas o River Plate conseguiu mesmo eliminar o Tricolor Gaúcho, com uma inesperada reviravolta nos últimos dez minutos depois da derrota por 1-0 na Argentina. Esta noite ficará a saber-se quem acompanha o conjunto de Buenos Aires na final da Taça Libertadores, com o Boca Juniors em São Paulo para defrontar o Palmeiras de Luiz Felipe Scolari com uma vantagem de 2-0 da primeira mão. E o cenário mais temido pelo próprio presidente da Argentina, Maurício Macri (que antes chegou a ser líder do Boca), começa a ganhar contornos reais. “Preferia que um clube brasileiro passasse à final. Sendo uma final entre Boca Juniors e Rive Plate, eram três semanas sem dormir. É muito, uma loucura. E quem perdesse demoraria 20 anos a recuperar”, comentara antes das meias-finais.