“Entrei em Alcochete a pé, não foi encapuçado. Fui com o Fernando Mendes, ex-líder da Juventude Leonina, porque dizia que ia ter uma reunião com o Jorge Jesus, que estava marcada por causa do que se passou na Madeira. Agressões? Não sei explicar. A mim só me ligaram a perguntar se podia acompanhar. Sou autorizado a entrar, alguém do Sporting autorizou porque a minha matrícula estava lá. A situação já tinha descambado e o Fernando Mendes só entrou depois. Quando saí, ia eu, o Fernando e mais dois ou três membros que não vou dizer o nome, que estão todos cá fora porque ninguém fez nada”, defendia Nuno Torres, o condutor do BMW azul que entrou e saiu na Academia no dia do ataque, três dias depois do sucedido.

“Sinto-me envergonhado, bastante. Bruno de Carvalho já devia ter saído. Se tem parte do que se passou? Não sei mas inflamou-se o ambiente para esta situação, senti-me utilizado porque pensava que ia resolver as coisas a bem. Apoiei o Bruno de Carvalho porquê? Porque apoiamos? Porque os outros iam ser mais do mesmo. Sou sócio e é difícil chegar a casa e dizer ao meu filho ‘olha, mais um ano’. Queixamo-nos muito da arbitragem mas temos é de fazer mais em campo”, acrescentou em entrevistas a RTP, SIC e TVI. Mais tarde, Nuno Torres seria mesmo detido e ficaria em prisão preventiva tal como todos os restantes implicados no caso. E percebeu-se que parte da história contada não batia certo, por exemplo, com o depoimento de Jorge Jesus, que dizia ter pedido ajuda a Fernando Mendes na altura do ataque porque “estavam a bater nos jogadores” – sinal de que o ex-líder da Juve Leo estaria no interior do recinto durante a incursão. Agora, de acordo com a Sábado, sabe-se que o testemunho de Nuno Torres terá sido um dos que ligou o antigo presidente do Sporting ao ataque.

Segundo o despacho de 38 páginas assinado pela procuradora Cândida Vilar, do Departamento de Investigação e Ação Penal de Lisboa (DIAP), a detenção e pedido de prisão preventiva para Bruno de Carvalho teve na sua génese depoimentos de três dos detidos de forma preventiva e também o testemunho de Bruno Jacinto, antigo Oficial de Ligação aos Adeptos (OLA) que não estaria presente em Alcochete quando tudo se passou. A isso juntaram-se depois partes das conversas que foram sendo mantidas entre os arguidos em três grupos de Whatsapp e outros acontecimentos como a chuva de tochas sobre Rui Patrício no último jogo em Alvalade na época de 2017/18, frente ao Benfica – artefactos esses, em grande quantidade, que terão entrado no estádio com autorização do ex-presidente do Sporting. A conversa nesse dia entre Bruno de Carvalho e Mustafá, líder da Juventude Leonina, que foi apanhada por vários fotógrafos, foi também associada a essa combinação.

De referir que, quando o ex-presidente verde e branco se deslocou ao DCIAP (por engano) e ao DIAP para ser ouvido de forma voluntária sobre o caso das agressões na Academia e outros temas que achassem convenientes, estes testemunhos ainda não estariam sistematizados como ficariam mais tarde, o que fez com que todas as diligências ocorressem apenas no domingo – e no domingo porque, como explicou o Observador, a procuradora Cândida Vilar suspeita também de tráfico de droga financiado com a venda de bilhetes para os jogos do Sporting, como o pico da compra e venda de estupefacientes decorreria antes e durante as partidas de futebol em casa do clube leonino como aconteceu nesse dia com o Desp. Chaves.

Recorde-se que, de acordo com o Correio da Manhã, Bruno Jacinto – que sublinhou não ter contacto direto com Mustafá, algo que seria feito por Bruno de Carvalho – referiu ter ouvido por mais do que uma vez o antigo presidente leonino dizer “Quem manda na Juve Leo sou eu” e que, no regresso de avião da Madeira após a derrota do Sporting com o Marítimo, o líder da principal claque do clube lhe disse que iriam a Alcochete com “luz verde” de Bruno de Carvalho. 

Em paralelo, terá existido também um pedido para o alargamento dos prazos de investigação, segundo o Expresso, devido ao “estado atrasadíssimo das perícias” aos telemóveis dos suspeitos e ao testemunho “absolutamente essencial” do então treinador Jorge Jesus, que só pode regressar a Portugal em dezembro “por motivos que se prendem com as autoridades sauditas”, já que o técnico orienta agora o Al Hilal. Neste caso, existe um pormenor em específico encarado como fundamental para se perceber a timeline dos acontecimentos: quem mandou alterar a hora do treino para terça-feira às 17 horas (e porquê).

Certo é que, apesar dos indícios, Bruno de Carvalho e Mustafá saíram esta manhã do Barreiro em liberdade, aguardando o julgamento nessa condição mediante o pagamento de uma caução de 70 mil euros. Ambos terão apresentações diárias junto das autoridades.