Tonico da Horta olha em volta, desolado: “Agora acabou tudo”. O campo de cultivo de frutas e legumes tornou-se num campo de lama mole. Enquanto fala com a equipa da Gazeta do Povo, um grupo de bombeiros procura pessoas debaixo daquela massa castanha. Encontram o corpo de uma mulher. “Olha isso, deve ser gente que veio arrastada”, comenta o agricultor da região do Parque das Cachoeiras, perto de Brumadinho, a barragem brasileira que na sexta-feira, 26 de janeiro, teve uma rutura provocando a morte de seis dezenas de pessoas e o desaparecimento de quase 300.

Com 63 anos, Tonico da Horta (o nome que os vizinhos escolheram para António Francisco de Assis Nunes) chora. Sobreviveu, sim, faz parte do grupo das 382 pessoas localizadas, mas não pode esquecer as 20 famílias que viviam ali. “Não sobrou ninguém”, disse à publicação brasileira. Não são as lágrimas que o impedem de ver, a poucos metros do seu barracão sem paredes, inundado pela lama, o corpo que está a ser coberto por um saco de plástico preto, colocado numa caixa de plástico e depois levado de helicóptero pelos bombeiros, relata a Gazeta do Povo. Aquela mulher acabava de engrossar a lista dos mortos: 60, confirmados até esta segunda-feira à tarde. Tonico está com o olhar longe, sem saber o que fazer com a destruição que vê à sua volta, enquanto o socorrista diz que a 300 metros dali tinham tirado outros quatro corpos, e não muito longe um outro helicóptero recolhia mais um cadáver.

Tonico conseguiu não ser arrastado pela lama. Mas o mesmo não aconteceu com Alessandra Paulista de Souza, de 43 anos, e Talita Cristina de Oliveira, de 15 anos. As duas irmãs foram levadas pelas águas lamacentas, estiveram debaixo da lama até serem salvas por amigos. Alessandra estava dentro de casa quando ouviu um estrondo forte. Gritou pela irmã e pela filha Lays, de 14 anos. Não as viu mais. A enxurrada, vinda com “árvores e pedaços de pau” empurrou-a contra o fogão, onde ficou entalada pela mesa e logo a seguir a corrente levou-a juntamente com a casa, contou o marido ao jornal O Tempo. Depois, deixou de ver. Uma onda de lama com “uns seis metros” cobriu tudo.  Alessandra susteve primeiro a respiração. Apelou à mãe, que morrera há três meses. Começou a boiar na lama e acabou por ser salva por uns amigos.

Não sabia nada da irmã. Mas no hospital João XXIII, em Belo Horizonte, sentaram-na numa cadeira de rodas e levaram-na até à unidade de cuidados intensivos, onde se deu um encontro emocionante com Talita. Num longo abraço, descobriram que ambas tinham estado submersas, ambas tinham pedido ajuda à mãe, ambas tinham sido retiradas do mar de lama por amigos.

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Outros momentos intensos se viveram nesse hospital no dia seguinte, a 27 de Janeiro, mas de sentido contrário. Paloma Prates, de 22 anos, recebia a notícia de que o marido, Robson Máximo, de 26 anos, não sobrevivera à mesma avalanche de lama que a apanhara também. O casal trabalhava na Pousada Nova Instância, no Córrego do Feijão, quando o edifício foi destruído pela enxurrada. Aparentemente conformada com o que acabara de saber (talvez sob efeito dos calmantes que lhe tinham ministrado, disse um amigo) centrava-se então em Heitor Prates, o filho de um ano e sete meses, relata a Folha de São Paulo.

Melhor sorte teve Cássia Oliveira Silva. Viu a lama levar consigo a horta e um pequeno pasto onde estavam um cavalo e uma vaca, no vale onde terminava o seu terreno. Depois do rio de lama, a casa ficou de pé, mas tudo em volta se tornou barro. Felizmente vivia longe o suficiente da barragem. Diz a Gazeta do Povo que uma vizinha avisou-a, por telefone, do perigo a tempo de ela fugir para um pequeno morro que ficava em frente à casa com a mãe, uma idosa com dificuldades em caminhar e três sobrinhas, entre os sete e os 10 anos. “Primeiro, levantou um poeirão. Depois foi quebrando tudo, fazendo um barulho que entrava pelo ouvido, pelo peito e pela barriga. Fazia tremer tudo, o chão, o capim e a gente”, contou.

Foi a poeira que se levantou que fez com Wilson Pereira de Souza, auxiliar técnico de manutenção da Vale, desconfiasse que se passava algo de errado. A barragem estava apenas a 800 metros. Assim que a viu, correu com a filha para um sítio mais alto. João Moreira do Carmo, de 63 anos, também assistiu a tudo. “Eu vi a lama descendo”, contou. “Ela desceu arrastando tudo.”

Se as populações a jusante tiveram pouco tempo para reagir à catástrofe, menos tiveram os trabalhadores da mineira Vale que se encontravam na zona da barragem. Ainda assim, há histórias felizes, como a de Márcio Pampulini Filho que chegou a ser dado como desaparecido. Funcionário da mineira Vale há 11 anos, Pampulini estava a fazer trabalhos de manutenção numa zona um pouco acima da barragem que rebentou esta sexta-feira. “Estava com três ou quatro amigos e demorámos um pouco para ir para o refeitório. À medida em que a gente ia descendo, vimos a barragem acabando de se romper. Só barro. Acabou tudo”, disse citado pelo Notícias UOL.

Os dados oficiais revelam que 192 pessoas foram resgatadas pelos bombeiros (lista aqui). Mas ainda estão 292 pessoas desaparecidas (lista aqui).

“As árvores estavam rolando e quebrando como se fossem um brinquedo”

A avalanche de lama destruiu completamente o refeitório, o edifício dos serviços administrativos e uma pousada. Mas ainda houve quem tivesse conseguido escapar a tempo. “Eu saí do refeitório e vi aquela onda em cima”, disse outro trabalhador citado pela TSF. “A barragem veio como uma avalanche, foi comendo todo o mundo. Essa notícia vai sair no mundo todo, foi pior do que de Mariana“, disse referindo-se a outra barragem que rebentou também em Minas Gerais há três anos. “Eu nasci de novo, se não tivesse apanhado a camioneta tinha morrido.

Outros trabalhadores que estavam a almoçar à mesma hora também se conseguiram salvar. “A gente saiu para ver o que era e quando saiu já estava quebrando tudo”, disse um dos trabalhadores citado pela RTP. “A sorte foi a gente ter ouvido o barulho e sair. Se fosse à noite tinha morrido todo o mundo soterrado. Onde a gente estava almoçando, tapou tudo”, disse referindo-se a um dos edifícios da empresa.

O trabalhador aludiu ainda às árvores arrastadas e ao barulho: “Árvores caindo, dobrando, muito barulho, muita coisa feia. Nunca vi uma coisa dessa na minha vida”. Um testemunho muito semelhante ao de outro trabalhador. “As árvores estavam rolando e quebrando como se fossem um brinquedo — árvores de 10 metros de altura, de 12 metros de altura, como se fosse um brinquedinho rodando.” O homem disse, citado pela RTP, que viu um “trator rodando para lá e para cá” e um “menino acantoado na serra a pedir ajuda”. “Ninguém o queria ajudar  porque à volta era tudo lama, não tinha como ele sair.”

O barulho é uma descrição frequente, usada também por uma moradora na região, que falava aos jornalistas que estavam à volta da casa ocupada pela lama. “Quando cheguei à janela ouvi o barulho da água — da lama — e das árvores quebrando, descendo tudo quebrando, e aquele barulhão. Foi o tempo de eu pegar a minha mãe e sair correndo. Tiro o carro, coloco o pessoal dentro do carro — tinha uns parentes aqui. Quando a gente saiu a lama já estava tomando conta de tudo.” Escaparam a tempo.

Entre os 292 desaparecidos podem ainda existir sobreviventes, como aconteceu com Márcio Pampulini Filho. Também por isso mantém a esperança de vir a encontrar os colegas. “Quando a gente vê um amigo na rua, fica emocionado por saber que também está vivo“, diz. “Estamos atrás de muitos amigos ainda. Toda hora chega informação de que alguém está desaparecido.”

Brumadinho. Número de mortos sobe para 60 depois de buscas serem retomadas

Marcelle nem estava de serviço, foi chamada à última hora

“Minha irmã Marcelle era linda, cheia de vida, inteligentíssima. Gostava de moda, viagens, de cuidar da sua beleza. Correr, sair com os amigos, se divertir e adorava trabalhar. E como ela trabalhava!”, escreveu Larissa Porto Cangussu na revista Marie Claire. Marcelle Porto Cangussu foi a primeira vítima identificada da rutura da barragem do Brumadinho e, até esta segunda-feira, a única mulher das 19 já reconhecidas. “Era solteira e vivia para o profissão”, disse a irmã sobre a médica especialista em Medicina do Trabalho, funcionária da empresa Vale desde 2015.

Tinha completado 35 anos no dia anterior à tragédia e nem sequer estava escalada para trabalhar na sexta-feira, mas foi chamada à última hora, disse a Globo. “Imaginei que, por ela ser médica, talvez pudesse estar socorrendo as vítimas no local, vivendo um momento ‘Grey’s Anatomy’, série que ela tanto amava, por sinal”, escreveu a irmã. Mas não foi o caso.

“Estou péssima, arrasada, inconsolável. Acho que estou sofrendo mais ainda por estar longe. Me sentindo impotente”, lamentou Larissa Porto Cangussu que vive em Madison, Wisconsin (Estados Unidos), e não pode estar presente no funeral da irmã que não via deste agosto de 2018.

Tal como Marcelle Porto Cangussu, assume-se que a maior parte das vítimas sejam funcionários da empresa. “Segundo dados transmitidos pelo representante da Vale ao governador mineiro, havia 427 pessoas no local, sendo que 279 foram resgatadas vivas. E são cerca de 150 pessoas desaparecidas, no momento, com vinculação à empresa”, lia-se num comunicado do governo do estado de Minas Gerais.

Assim como a médica, Leonardo Alves Diniz, técnico de manutenção há mais de 10 anos, também devia ter estado de folga na sexta-feira, mas acabou por ser convocado para um plantão. Deixou a mulher e um filho de sete anos. Outros trabalhadores terão também deixado mulheres e filhos, como conta a Globo: Jonatas Lima Nascimento, de 36 anos, pai de uma criança de cinco anos e uma menina de 11; Wellington Campos Rodrigues, de 53 anos, que deixou três filhas, de 13, 20 e 25 anos; ou Adriano Caldeira do Amaral que também tinha dois filhos.

Receoso dos riscos que corria, Daniel Muniz Veloso, de 29 anos, já tinha pensado em pedir transferência. Trabalhava para uma empresa que prestava serviços para a mineira Vale e contava pedir para mudar de local de trabalho assim que o filho nascesse, daqui a cerca de um mês. Tarde demais.

Corrigido: Foi retirado o tweet com o vídeo que mostrava uma pessoa a sair da lama por não se tratar de um relato da situação atual, nem do local. O Observador lamenta o erro cometido.