Em 2018 a editora Relógio D’Agua publicou dois volumes com o trabalho jornalístico da escritora brasileira Clarice Lispector, Todas as Crónicas e Correio para Mulheres. Mais de 800 páginas que reúnem as crónicas escritas pela autora ao longo de quase duas décadas. Já, em 2016, a Fundação Calouste Gulbenkian tinha publicado, pela primeira, vez os artigos que Agustina Bessa-Luís escreveu ao longo de mais de 50 anos de colaboração com jornais. Ensaios e Artigos: 1951-2007 são cerca de três mil páginas divididas em três longos volumes, organizados por Lourença Baldaque. Todos estes livros testemunham um tempo em que a crónica era considerada, em conjunto com a notícia e a reportagem, um dos três géneros nobres do jornalismo e a sua história estava indelevelmente ligada ao talento de grandes escritores, ao contrário do que acontece na atualidade.
Todas as Crónicas, de Clarice Lispector (Relógio D’Água)
O que acontece atualmente é que tanto a reportagem como a crónica são géneros em crise. A primeira tem-se afastado paulatinamente dos media para o cinema documental, um dos poucos lugares onde hoje podemos encontrar grandes reportagens. A segunda tem dado lugar a artigos de comentário, tantas e tão erradas vezes confundidos com crónicas, entre a política e o desporto, ou textos sem qualquer valor jornalístico ou literário que servem apenas para difusão mediática.
Efetivamente, são muitos e céleres os que reúnem os seus textos em livro e, debaixo de grande aparato mediático, dizem ser cronistas. Já Clarice Lispector só viu os seus artigos reunidos vários anos depois da sua morte; as de Agustina só foram coligidas 10 anos depois de ter deixado de escrever. No entanto, vale a pena pegar nestes volumes para perceber que o genial Nelson Rodrigues não foi o único a usar a crónica jornalística para estender os horizontes da língua e da cultura portuguesas. E se, finalmente, estamos a olhar para outra dimensão do universo literário de Clarice e Agustina, não nos podemos esquecemos de outra escritora cujo trabalho jornalístico mereceria voltar a ser reunido: Isabel da Nóbrega. Também ela com uma longa e singular carreira como cronista, da qual se destaca a sua coluna Quadratim, no Diário de Lisboa, reunida em livro em 1976 e nunca mais reeditada.
Para qualquer uma destas três mulheres, o jornalismo foi a outra face da sua literatura, a sua forma de ganhar a vida. Clarice Lispector começou a escrever no jornal A Noite quando ainda estava na faculdade e antes de ter publicado o seu primeiro romance. Mais tarde, depois de vários anos a viver fora do Brasil, regressa em 1959, divorciada, com dois filhos e é como cronista que trabalha praticamente até à sua morte, em 1977. Tanto escreve artigos mais literários, como crónicas “femininas” sobre beleza, culinária, moda (estas sob os pseudónimos Ilke Soares, Teresa Quadros e Helen Palmer).
Agustina Bessa-Luís começou a escrever para jornais em 1951, primeiro contos e evoluindo posteriormente para a crónica, embora não se fixando nela. Foram ao todo 56 anos de trabalho quase diário em dezenas de jornais e revistas: Diário Popular, Diário de Notícias, Expresso, o Jornal, o Independente, revista K, Público, Visão, O Liberal, O Semanário, Jornal de Letras, Colóquio, Comércio do Porto, 1º de Janeiro, Grande Reportagem, onde fez de tudo um pouco: contos, crónicas de viagem, crónicas generalistas, obituários, ensaios, editoriais, comentário, perfis, crítica literária e de cinema…
“Ensaios e Artigos 1951-2007”, de Agustina Bessa-Luís (Fundação Calouste Gulbenkian, 3 Volumes)
Eram ambas o que Agustina chamava de “jornalistas puro-sangue”. Sangue que partilha ADN com Dostoievsky, Espinosa, Vitor Hugo, que é a continuidade da sua ficção, do seu universo, onde a atualidade, os factos, os acontecimentos interessam menos do que o labor dentro da palavra, o exercício da linguagem ao serviço da absoluta originalidade (no sentido do que está perto da origem) do seu olhar, da deliciosa impertinência da sua sabedoria. Duas “mulheres bíblicas”, como diria Clarice Lispector.
Crónica jornalística, uma outra via de acesso aos acontecimentos
O jornalismo nasceu de uma híbrida mistura de publicidade, folhetim, literatura e, ainda assim, a sua grande pretensão era dar a ver a “Verdade”, a “Realidade”, ou não estivéssemos nós em pleno século XIX, no fragor da revolução industrial, do nascimento das cidades e da cultura urbana. Pelo jornalismo passaram Baudelaire, Flaubert, Vitor Hugo, Jonathan Swift, Eça de Queirós, Camilo e tantos outros cuja obra ficou, no entanto, mais conotada com a literatura. Isto porque, a partir de determinada altura, o jornalismo e literatura passaram a ter fronteiras fortemente demarcadas, especialmente porque o jornalismo precisava, para se afirmar, de descolar da “esfera da ficção” para a “esfera da realidade”.
A crónica foi o género que ficou mais ou menos no meio, numa terra de ninguém, o que, se por um lado lhe permitiu ter textos que são obras-primas e não nos deixam esquecer a importância do jornalismo para as sociedades e culturas, também a deixou à mercê de todo o tipo de vandalismos, manipulações e imposturas. A liberdade que a crónica promete, ao estar entre o literário e o jornalístico, dá-lhe um ar de gente de vida fácil. Grande engano. Bastaria, talvez, que nas faculdades de jornalismo se começassem a ler as crónicas e Agustina e Clarice (e não só as de António Lobo Antunes) para se perceber que ser cronista não é uma questão de oportunidade, mas de puro talento.
“Correio para Mulheres”, de Clarice Lispector (Relógio d´Água)
O nome “Crónica” vem do grego Cronos que, para os antigos, era o deus do tempo, senhor do mundo que castrou o próprio pai, devorava os filhos e fazia com que nascessem novamente. Tal como o tempo, Cronos mata e gera em simultâneo, é símbolo da fome devoradora da Vida, mas também da duração, a idade do ouro que é esse tempo sem tempo. É, paradoxalmente, gerador de vida e de morte, espelho da inelutável condição humana. A crónica jornalística será então o género que visa dar a ver esse espírito do tempo, retirar da velocidade das horas algo de eterno: o conhecimento, a sabedoria que permita uma nova compreensão da época. Por isso, Clarice Lispector e Agustina Bessa-Luís são duas magistrais representantes do verdadeiro espírito da crónica jornalística no que esta tem de instabilizador, provocador, de capacidade de construir um diálogo com os leitores e de intemporal.
Um dos aspetos mais flagrantes da leitura das crónicas destas escritoras é a sua atualidade, a forma como sobrevivem bem à passagem do tempo. Como os acontecimentos, os fait-divers de que partem, ganham uma dimensão simbólica passível de ser resignificada por cada nova geração de leitores. Ao contrário dos restantes géneros (talvez à exceção da reportagem), a crónica pode sobreviver à rápida obsolescência inerente ao jornalismo quando nela brilha aquilo que o filósofo Walter Benjamim chamou o “encontro fosforescente entre a essência das coisas e a essência da linguagem”.
Encontramos, por exemplo, textos de Agustina sobre fait- divers como a publicação de foto de Jacqueline Onassis nua ou um inquérito sobre o feminismo saído num jornal francês, em 1972, e qualquer destes acontecimentos menores ganha contornos de tratado sobre a fama e a condição da mulher e vai muito mais longe do que a maioria dos artigos que podemos ler sobre estes assuntos nos dias de hoje. Precisamente, porque ao permitir um olhar mais vasto sobre a realidade, a crónica abre outros caminhos, outras vias para compreendermos os acontecimentos.
Ao contrário do que é hoje a crença dos media e do público, não é somente através das notícias e dos comentários (tantas vezes erradamente chamados de crónica) que podemos compreender um acontecimento e formular sobre ele uma opinião. Quantos acontecimentos históricos não compreendemos ao ver no cinema uma qualquer ficção, ao ler um romance, ao ver um quadro? Ora a crónica, sendo um género narrativo do campo jornalístico é aquela que mais abre espaço para uma compreensão alargada da realidade. Mas essa possibilidade apenas se concretiza se o olhar e a escrita do cronista forem capazes de dar a ver, nessa realidade tão escrutinada pela notícia, um ângulo totalmente novo. É que apesar de o jornalismo ter, na sua génese, uma forte “vontade de verdade” que lhe permitiu definir-se como um campo social autónomo, assente na ideia de que só o que é visível é real (crença de que os diretos televisivos são tributários). Porém, como lembra Michel Foucault “por mais que se tente dizer o que se vê, o que se vê jamais reside no que se diz” ou, acrescentamos nós, no que se filma, ou fotografa. Ora é sempre sobre essa potência e impotência das palavras que se erguem os grandes cronistas e se reconhecem os pequenos.
O que caracteriza o jornalismo literário é uma forma de heresia dentro das regras tradicionais do jornalismo. […] Acima de tudo, o jornalista literário tem que compreender o assunto antes de escrever sobre ele. Exige poder de concentração para não ser arrastado pela força dos factos, como acontece com um grande crime ou um grande episódio político.
(ABL,1987, no jornal O Primeiro de Janeiro)
Mundo, esse lugar íntimo
Foram contemporâneas. Clarice nasceu na Ucrânia, em 1920, Agustina em Vila Meã, em 1922. Filhas da Europa do pós-guerra, membros dessa geração de 20 que conta com tantas cabeças geniais ( Eduardo Lourenço, Mário Cesariny, Jorge de Sena, Sophia, Carlos de Oliveira, José Saramago) à literatura e à cultura de Língua Portuguesas. Vindas de dois mundos tão fechados quanto incomensuráveis como eram para os judeus pobres a Ucrânia pós revolução bolchevique e mais tarde o nordeste brasileiro ou a província nortenha do Portugal salazarista.
Dificilmente Lispector terá lido Bessa-Luís, mas esta última leu, com certeza, a escritora judia que trouxe para a literatura ecos de Kafka, Hermann Broch, Herman Hesse. Se Clarice era uma descendente dos judeus ashkenazi, Agustina é, como todos nós, descente de judeus sefarditas, mouros, berberes. Em comum: uma personalidade singular que espelhava uma inteligência e uma subversão muito particulares, o possuírem qualquer coisa de feiticeiras, magas, senhoras de um tempo antigo. E, em simultâneo, um prazer nas mundanidades que adornam o universo feminino: as roupas, a maquilhagem, a elegância, a má-língua, a astucia, a (auto) ironia.
Nas crónicas jornalísticas, os mundos fechados que ambas recriam nos seus romances dão lugar a um mundo aberto, onde nada as surpreende verdadeiramente, porque não há assunto sobre o qual não tenham qualquer coisa clara ou misteriosa a dizer. Agustina escreveu muito sobre viagens, sobre o espírito do lugar sobre o qual o seu olhar era sempre inesperado, ainda que de uma forma totalmente diferente do inesperado que encontramos em Lispector. Se uma falou sobretudo da Europa, a outra falou sobretudo de África, do médio Oriente e, claro, do Brasil. À primeira vista, Clarice Lispector, que escreveu sobre a pobreza no Brasil, a fome, o analfabetismo, os direitos dos povos indígenas, a pílula anticoncecional, pode parecer mais politicamente ativa, mas Agustina não era menos preocupada e sensível ao Outro. e, seguramente, ambas eram muito críticas em relação aos governos dos seus países.
Agustina Bessa-Luís
O imaginário ligado à literatura, ao misticismo, a profunda compreensão do ser humano como errático, falível, frágil manifesta-se com maior angústia em Clarice Lispector, ao passo que Agustina mantém um distanciamento de sibila, ainda que isto fosse, provavelmente, uma forma de se proteger. Não têm ilusões sobre a natureza agónica dos homens e mulheres, sobre a força do mal, do ódio, da perversão. Sobretudo, ambas manifestam uma extraordinária coragem de se experimentarem, ou seja, não se travestem de ilusões identitárias, não vendem ideologias nem utopias. O conhecimento mais importante é o auto-conhecimento, há-de repetir Lispector em muitos artigos.
Numa das crónicas de Correio para Mulheres, Clarice, num gesto que pode desagradar às feministas de hoje, avisa as leitoras que “a honestidade é má conselheira da sedução” e noutra adverte as mulheres para nunca se perfumarem em frente ao amado, “para que ele não conheça os seus truques”. E, enquanto sugere que as mulheres cultivem o prazer de ser ver ao espelho, porque isso “não é narcisismo, é alegria de ser”, também instiga as mulheres a cuidarem dos homens, dando a entender que eles são eternas crianças e que a melhor maneira de mandar é fingir que não se manda. Nunca Agustina dirá estas coisas com tamanha frontalidade, embora tudo isto, e muito mais, possamos encontrar dito pelas suas personagens e nas entrelinhas de várias dos seus artigos.
No volume Clarice Lispector, Todas as Crónicas encontramos textos de pendor mais auto-biográfico, mais poético, e muitos deles acabaram por vir a ser integrados nos romances da escritora. Lispector opta pelo texto curto e não obedece a qualquer estrutura ou tamanho fixo; podem ser memórias, pequenas ficções, confissões, acidentes do quotidiano, os filhos, as empregadas domésticas (temas de muitas crónicas).
Apesar de escrever tantas vezes sobre si mesma, Clarice nunca faz uma crónica doméstica, uma conversa entediante e melopeica em torno do próprio umbigo ou, pior, como instrumento para veicular uma agenda pessoal ou política, algo que se tornou hoje em dia tão comum nas crónicas de escritores. Mesmo quando escreve sobre os amigos (como Chico Buarque ou Guimarães Rosa), nunca a sua prosa soa a propaganda. Como conta Alberto Dines no prefácio de Correio para Mulheres, Lispector tratava a página feminina com muita seriedade, pois para ela “a sua página era a mais importante do jornal. Estava certa”. Ela dava-se a ver a si para dar a ver o mundo para lá dela, qualquer acontecimento quotidiano era, pela via da palavra, mais do que a expressão de uma identidade, era a expressão de um devir.
Clarice Lispector
Tanto para as crónicas de Agustina como de Clarice Lispector é preciso saber ler nas entrelinhas, perceber a ironia velada pois, nenhuma delas procura reduzir as zonas de incompreensibilidade da experiência humana (ou animal, também eles protagonistas de vários textos de CL) ou dos acontecimentos, pelo contrário, é sempre o menos visível que lhes interessa e é para lá que elas conduzem os leitores. Se hoje se espera das narrativas jornalísticas que apenas identifiquem, nomeiem, expliquem da forma mais racional e simplificada possível, revisitar ou descobrir as magnificas crónicas de Agustina e Clarice é perceber que o jornalismo pode e deve obrigar os leitores a construirem novas categorias de pensamento.
Hoje, quando o jornalismo ameaça submergir dentro do comentarismo, onde convivem alegremente todo o tipo de ficções, auto-propaganda, clientelismos, passando tudo isto por “análise”, “explicação”, lemos as crónicas de Agustina Bessa-Luís ou de Clarice Lispector, o seu magistral uso da língua, o seu olhar e pensamento original onde nunca o Eu, se sobrepõe, se evidencia, nunca é a biografia da autora que serve para engodo de leitores incautos, mas sempre a potência da palavra que reverbera imagens, histórias, inquietações, que desmascara imposturas, que parodia os acidentes quotidianos para retirar deles os grandes acontecimentos, as grandes lições.
Uma escrita sempre a olhar para onde menos se espera, sempre atenta àquilo que ainda não tem história, que não foi tomado e viciado na mercantilização discursiva e informativa, faz de cada pequena história do quotidiano uma experiência fundadora, onde se abrem vias de comunicação entre o possível, o impossível e o real. Essas vias mostram como esse real, longe de ser matéria pura, é uma consequência de milhares de fatores, muitos deles obscuros, tão obscuros e voláteis quanto a condição humana e tão imutáveis como esta. É a ficção que mostra as insuficiências do real e vice versa, porque um não existe sem o outro.