Hospitais

Gravidezes simuladas, batas brancas e supostos exames. Os outros raptos de bebés nos hospitais portugueses

Em 9 casos desde 1974, a maioria foi encontrada em poucas horas, mas Andreia esteve 13 meses longe dos pais e Mariana cerca de dois anos. As raptoras querem, muitas vezes, agradar aos companheiros.

As raptoras vestem batas e dizem que vão levar os bebés para pesar ou fazer análises

Getty Images

Andreia tinha apenas três dias de vida quando foi retirada aos pais. No dia 17 de fevereiro de 2006, uma mulher de 37 anos raptou a bebé do Hospital Padre Américo, em Penafiel. Só 13 meses depois, a 12 de março de 2007, a menina foi encontrada em Valongo e devolvida aos pais biológicos. O hospital estava em cheque, mas, em 2007, acabava por afirmar que só uma atitude criminosa premeditada podia violar a normal segurança daquela unidade de saúde.

Na altura, o administrador admitiu que o sistema de videovigilância estava desatualizado do ponto de vista tecnológico, mas, ainda assim, destacou que as imagens captadas tinham ajudado a encontrar a mulher. José Alberto Marques confirmou que, em meados de 2006, todo o sistema técnico operacional do hospital tinha sido melhorado, nomeadamente com controlo de entradas e saídas de visitas e com pulseiras eletrónicas para recém-nascidos e crianças internadas.

As medidas não foram suficientes para impedir um novo rapto neste hospital em 2008. Mas mérito seja dado ao sistema de videovigilância, que permitiu encontrar a criança raptada em poucas horas e que, antes disso, já teria impedido outras duas tentativas de sequestro. Os casos de rapto em maternidades e unidades pediátricas não são, porém, exclusivos do Hospital Padre Américo, daí que os hospitais tenham apostado em pulseiras eletrónicas que acendem luzes, fazem disparar alarmes ou bloqueiam portas quando alguém tenta sair com as crianças das unidades de acesso restrito ou quando são danificadas.

Este sábado, o fantasma voltou a assombrar os pais e hospitais, anda que, neste caso, a suspeita de tentativa de rapto de um bebé do Hospital de São João tenha sido travada pela família do recém-nascido. O Observador recorda aqui alguns casos em que as crianças foram mesmo levadas pelos raptores.

17 de fevereiro 2006 — Hospital Padre Américo

Alice Ferreira raptou uma bebé no Hospital Padre Américo, em Penafiel, porque precisava de melhorar a relação com o companheiro. Este não se terá apercebido de nada durante o período da suposta gravidez, nem terá suspeitado quando a companheira chegou a casa com a bebé, da qual foi pai durante 13 meses. Mas foi ele, juntamente com a irmã, que denunciaram Alice Ferreira às autoridades e fizeram com que fosse detida.

Isaura Pinto, a mãe biológica, tinha deixado a menina de três dias na cama do hospital enquanto foi jantar. Não foram precisos nem dez minutos para uma enfermeira dar por falta da criança. A mulher de Lousada só voltaria a ver a filha, Andreia, 13 meses depois. Durante todo esse tempo, a menina foi chamada de Joana pela raptora que a tratava como filha.

A mulher de 37 anos era auxiliar de geriatria, o que lhe permitiu obter um cartão de visita e entrar nas instalações. Aí, encontrou a criança sozinha, meteu-a num saco e fugiu. Mas não foi imediatamente embora. Alice Ferreira deixou a bebé no carro, voltou atrás para devolver o cartão de visitante e seguiu para Valongo, onde residia. A mulher foi condenada a quatro anos e oito meses de pena suspensa e ao pagamento de uma indemnização de 30 mil euros.

Este rapto motivou a implementação de sistemas de pulseiras eletrónicas nos hospitais, mas em março de 2007, quando a bebé foi resgatada, só um quarto dos hospitais com unidades de recém-nascidos (10 em 41) o tinha feito.

14 junho de 2008 — Hospital Padre Américo

Quando, em 2008, voltou a desaparecer um bebé no Hospital Padre Américo, em Penafiel, a Polícia Judiciária já tinha aprendido o suficiente com o caso de 2006 para agir rapidamente. E assim foi. Foram chamados a intervir às 15h45 e, quatro horas depois, já tinham conseguido identificar a suspeita. Para isso contribuíram as imagens de videovigilância do hospital e as imagens do exterior.

Tudo tinha acontecido cerca de uma hora antes. A mãe estava no quarto com o bebé, ainda um pouco atordoada do parto que tinha acontecido no dia anterior. Simone Ferreira, que acabaria por raptar a criança, entrou no quarto vestida de enfermeira e disse que ia levar o bebé para pesar e fazer análises. A mãe não desconfiou e entregou o bebé. O alarme só foi dado quando alguém encontrou o berço vazio.

Cerca de sete horas depois, a menina foi recuperada pela Polícia Judiciária em Felgueiras e entregue à mãe. “A autora do crime tem 21 anos e não tinha qualquer vínculo laboral àquela unidade hospitalar, pretendendo, ao que se apurou até ao momento, fazer sua a criança em causa”, declarou. A PJ localizou a sequestradora, em Lousada, e recuperou a criança, “que se encontrava cuidada e já com roupa diversa à que usava quando foi retirada do hospital”. A mulher terá simulado a gravidez durante nove meses, por não conseguir engradivar naturalmente, mas diz que só decidiu raptar, de facto, uma criança no dia anterior.

17 julho 2002 — Hospital Senhora da Oliveira

Maria Emília Pinto já tinha enfrentado três abortos traumáticos e vários tratamentos de fertilidade, mas o nascimento de André Tiago, no dia 16 de julho de 2002, tinha-a feito esquecer tudo isso. Cerca de 24 horas depois, chegava o pior dos pesadelos: uma mulher de 25 anos roubou-lhe o bebé dos braços, sem que ela conseguisse fazer nada para o impedir.

“Quando eu estava a trocar a fralda ao André, uma mulher que nunca tinha visto perguntou-me se podia pegar nele. Disse-lhe que sim”, contou a mãe pouco depois do rapto. “Ela olhava para ele e só dizia: ‘Que lindo bebé!’ Ainda conversámos cerca de vinte minutos, mas, sem eu notar, foi caminhando até à porta do berçário e daí para o corredor.” Maria Emília estava presa a uma cadeira de rodas ainda sob o efeito da anestesia e nem conseguiu reagir.

A custo, apercebi-me que o meu filho tinha sido levado dali para fora. Quando gritei por socorro já era tarde demais. Ele não ia voltar.”

André Tiago foi encontrado e entregue aos pais cinco dias depois. A Polícia Judiciária tinham encontrado o bebé, bem tratado e embrulhado em cobertores, no Altar de Nossa Senhora da Penha, em Guimarães. Da raptora nunca mais houve sinais e o Ministério Público acabou por encerrar o processo em 2004.

16 de fevereiro 2000 — Maternidade Alfredo da Costa

O perfil das raptoras inclui, muitas vezes, mulheres na casa dos 40 anos, numa relação com um homem mais novo, incapazes de ter filhos e que encaram o bebé como uma tábua de salvação para a relação. Cristina Nazaré encaixa neste perfil: tinha 43 anos na altura do rapto e queria dar um filho ao companheiro, um homem mais novo.

A mulher, ex-auxiliar de enfermagem, apresentou-se na Maternidade Alfredo da Costa, no dia 16 de fevereiro de 2000, como inspetora do Ministério da Saúde. Por volta das 19 horas, foi ao berçário e tirou a pequena Bruna Alexandra dos braços da mãe, alegando que lhe ia fazer o ‘teste do pezinho’. A Polícia Judiciária encontrou a criança nessa mesma noite na casa da suspeita. A mulher foi condenada a cinco anos de prisão no estabelecimento prisional de Tires.

19 de novembro 1998 — Maternidade Júlio Dinis

Uma menina foi raptada a 19 de Novembro de 1998, da Maternidade Júlio Dinis, no Porto. A raptora aproveitou o facto de a mãe da menina ter uma doença mental. A raptora, de 33 anos, já tinha dois filhos e entregou a bebé raptada à mulher do homem com quem mantinha uma relação extraconjugal. A Polícia Judiciária recuperou a bebé dos braços desta segunda mulher, de 40 anos.

Dezembro de 1991 — Hospital de Santa Maria

Vestir uma bata e levar o bebé com a desculpa que vai fazer algum tipo de exame é uma estratégia recorrente das raptoras. Foi assim que, em dezembro de 1991, uma mulher raptou um recém-nascido no Hospital de Santa Maria: ia levá-lo a fazer o “teste do pezinho” terá dito à mãe. Rúben Filipe foi levado com dois dias de vida e só foi encontrado ao fim de sete, em Castelo Branco. Maria Cristina Vicente foi condenada a quatro anos e seis meses de prisão. No julgamento nunca se mostrou arrependida.

15 de junho de 1984 — Hospital Particular de Lisboa

Carmelinda de Carvalho encenou uma gravidez para salvar o casamento. No dia 15 de junho de 1984 raptou uma bebé, com 20 minutos de vida, aproveitando uma distração do pai que tinha saído para fazer um telefonema. Mariana, raptada do Hospital Particular de Lisboa, só seria encontrada dois anos depois e já tratava raptores por ‘pais’. Carmelinda de Carvalho foi condenada a dois anos de pena suspensa.

1983 — Hospital Dona Estefânia

Uma mulher de 50 anos fez-se passar por enfermeira e raptou um recém-nascido no Hospital Dona Estefânia. A Polícia Judiciária só tinha uma pista: o depoimento de um taxista que tinha levado a mulher à maternidade várias vezes. Ainda assim, conseguiu recuperar a criança em Portimão. A raptora viva com um homem mais novo e, como não podia ter filhos, simulou uma gravidez e raptou o bebé.

1974 — Hospital de Santa Maria

Uma mulher, que se fez passar por médica, levou dois recém-nascidos do Hospital Santa Maria, em Lisboa. Ao fim de 15 dias de investigação, a Polícia Judiciária conseguiu localizar a mulher numa pensão na Ericeira, onde apresentava as crianças como suas filhas.

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