Camisola amarela e calças caqui. Um homem de canadianas avança a passo lento em direção à livraria que não tem nome à porta, inserida num centro comercial decadente que, apesar de assinalado enquanto “Liberdade 9”, ainda é conhecido por Xenon. À medida que o idoso entra pelo espaço adentro, Tiago Costa retira duas revistas internacionais de cinema do armário lateral. O cliente é habitual, tem cerca de 25 anos de casa, e o funcionário da Sunrise Press — antiga Tema, entre os Restauradores e o início da Avenida — sabe-lhe o nome e as preferências de cor. Cumprimentam-se com um olá fugido e trocam poucas palavras, pelo menos até chegar o momento de dar o recado: “Hoje é o nosso último dia”.

Para muitos, esta ainda é conhecida como a livraria Tema, a mesma que chegou a ser espaço de romaria dos devotos do papel, sobretudo numa altura em que as publicações internacionais eram escassas na Lisboa dos anos 90. Em boa verdade, deixou de o ser em 2012, quando uma nova gerência lhe mudou o nome. Em boa verdade, deixou efetivamente de existir esta quinta-feira à tarde, depois de embaladas as milhares de revistas que ficaram por vender e de fechada a porta uma última vez.

– Jornais portugueses, já não tem? — pergunta um cliente ao início da manhã olhando em volta à procura de referências familiares.

– Já não temos. — responde Tiago Costa conformado, com algum desalento na voz. Desde que sabem que vão fechar que já não os recebem. 

Piercing no queixo, sweat cinzenta com alusões ao surf na Ericeira e cabelo empinado, a fazer uma ligeira poupa. Aos 37 anos, Tiago Costa conta ao Observador que, ao todo, dedicou 14 anos de vida à livraria que, se fosse por ele, designar-se-ia de “revistaria” — 10 foram passados na loja do Colombo, que fechou em 2013, e cerca de 4 no espaço atual. A notícia do fecho chegou há sensivelmente duas semanas e, desde então, as encomendas têm sido sucessivamente canceladas, inclusive os jornais nacionais. Pela Sunrise Press que, para alguns, nunca deixou de ser Tema já circularam, ao longo dos tempos, cerca de 7.000 a 9.000 títulos — mais recentemente, o número baixou uns bons milhares. Esta quinta é dia de devolver a mercadoria toda.

Ao longo do dia foram muitos os clientes que se vieram despedir do espaço e fazer as últimas compras. © JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Se durante a manhã foram poucos os clientes a visitar a loja — que pouco mais é do que um estreito corredor com bancas de revistas organizadas por temas de ambos os lados –, a aproximação da hora de almoço trouxe uma enchente. Passava pouco depois do meio-dia quando uma senhora, emocionada, agarrou a mão de Tiago Costa, lamentando o fecho da livraria. Também ela fora cliente fiel das publicações internacionais vendidas na Tema. Não houve choro copioso, mas os olhos molhados valeram-lhe algumas palavras de conforto do funcionário de tantos anos. Outros vieram já sabendo que o projeto ia fechar portas, embora desconhecendo que aquela quinta-feira, dia 28, era o último dia. A iminência do fim fez com que muitos deles, antes de deixarem a loja, voltassem atrás e comprassem mais revistas do que o suposto, incluindo o cliente que gastou cerca de 60 euros em revistas de História — um tema que, por sinal, não lhe dizia assim tanto.

“A porta era finalmente aberta à freguesia, e avançava-se em modo búfalo acossado para a estante há muito referenciada, num fervor alucinado para tomar posse do exemplar da revista desejada. Por vezes, ele estava lá. Por vezes, ele não estava lá. Quando estava, o dia estava ganho. Quando não estava, o dia ficava mesmo estragado”, escreve o jornalista José Vegar na rede social Linkedin, num texto onde também se lê que a Tema “é um dos nós centrais de uma rede cultural e mental que mudou Portugal”. A correria à Tema e suas revistas chegou a ser frequente, bem como as reservas de publicações. A última vez que se registou uma grande afluência a propósito de um título estrangeiro aconteceu em fevereiro de 2015, na sequência do ataque terrorista às instalações do semanário satírico francês Charlie Hebdo, o qual fez 12 mortos — os 8 milhões de exemplares da edição publicada após os atentados seriam vendidos em 25 países, Portugal incluído, Sunrise Press incluída. “Depois disso, já ninguém quis saber do Charlie Hebdo”, diz Tiago Costa.

Mais recentemente, na montra da antiga Tema as revistas coabitavam com souvenirs diversos. © JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Não foi apenas o fluxo de clientes que mudou. O espaço físico também sofreu com as mudanças sentidas na Avenida da Liberdade. Em pouco mais de 3 anos as rendas altas afastaram antigos moradores (leia-se clientes) e algumas empresas (leia-se, novamente, clientes). O negócio que já não ia bem — até por causa da maior facilidade em encontrar títulos internacionais, não descurando a atual crise do papel — piorou, mesmo com a cidade de Lisboa numa curva ascendente de popularidade. No verão do ano passado a montra da antiga Tema cedeu espaço, em regime de subaluguer, aos souvenirs da Lisbon Lovers e, mais recentemente, aos souvenirs de uma loja mainstream igual a tantas outras na capital. De cima para baixo, na manhã de quinta ainda se avistavam duas filas com revistas internacionais (Monocle, Enki, Icon, Graffitti Art) coabitando com galos de Barcelos, figuras de plástico alusivas a Nossa Senhora de Fátima e malas de cortiça a lembrar o império português no que a essa matéria-prima diz respeito. No interior, a separar a loja de souvernis da livraria um multibanco — sobretudo apto a ler cartões internacionais do que nacionais. Nessa manhã, foram mais os clientes que entraram na loja à entrada do centro comercial para comprar postais e levantar dinheiro do que aqueles que saíram com revistas debaixo do braço.

Além da tristeza evidente, há clientes com outras preocupações: “Há uns cuja primeira reação é ‘Oh meu Deus, onde é que vou arranjar as minhas coisas?’. Outros ficam tristes porque já são clientes de longa data e ainda se lembram do início. Uns ficam preocupados connosco. Afinal, vamos para o fundo de desemprego e não sabemos o que vai ser de nós. Ainda ontem apareceu um cliente para me dar o cartão de uma loja para eu tentar… teve essa preocupação. O senhor Jorge é uma pessoa que teve uns azares nos últimos anos, mas foi sempre fiel, vinha cá sempre, mesmo adoentado e a fazer tratamentos”, lembra Tiago. São poucos os livros que se vendem (ou que se vendiam) na antiga Tema. Ainda assim, o seu desaparecimento junta-se ao de grandes nomes do passado, como as livrarias Aillaud & Lellos ou Pó dos Livros, ambas de uma Lisboa que tende cada vez mais a desaparecer.

A meio da tarde, Tiago Costa começa a embalar as primeiras pilhas de revistas. © JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Eduardo Conceição, ligado à Tema desde 1997, ainda se recorda do corredor apertado cheio de gente com revistas e livros na mão à hora do almoço, bem como das filas para pagar. Numa altura em que a Internet tinha um peso bastante menor eram as revistas de arquitetura, arte, publicidade ou design, a título de exemplo, que permitiam um outro olhar sobre o mundo e sobre o que se fazia lá fora. Avançando mais de 20 anos no tempo, o corredor está praticamente vazio e, ao meio, uma das primeiras pilhas de revistas. Eduardo e Tiago já começaram a empacotar as publicações. Conformados com o fim — e ainda com paciência para falar aos clientes que se vêm despedir do espaço — asseguram que não querem sair muito tarde.

O dia vai a caminho da noite e a livraria vai recebendo os clientes finais. Sofia Morais, de 35 anos, está há cerca de 30 minutos a namorar “revistas com fotografias bonitas”. Agora que começou a estudar fotografia houve quem lhe recomendasse conhecer a antiga Tema. Esta será a primeira e última vez que visita a livraria. Paulo Coelho, pelo contrário, já sabia que hoje era o dia da despedida, depois de mais de 20 anos a frequentar estas estantes. De capacete na mão, diz ao Observador que não tinha por hábito levar sempre a mesma revista, antes uma eleição pelos títulos de motos e de carros. “Este é mais ou menos um dos últimos sítios com revistas internacionais decentes. Tiveram sempre a melhor seleção de Lisboa, até antes de isto ser a Tema”, diz, referindo-se à anterior loja de revistas que ocupou este espaço há coisa de 30 anos.

Voltemos à manhã de quinta — que, num dia normal, implicaria tratar da mercadoria recebida nas primeiras horas do dia. Ainda o Observador conversa com Tiago Costa quando um homem engravatado entra na livaria. Discreto, vai direto às bancas e passa alguns minutos a namorar as revistas. Não pega em nenhuma. Momentos antes de sair, apercebendo-se ou não de uma entrevista que está a ser gravada, interrompe a cadência pergunta-resposta e deixa o recado:

– Vai fechar hoje, não vai? Obrigado por tudo, até um dia!