Psiquiatria

Pode o antidepressivo sertralina provocar morte súbita?

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Morreram dois doentes britânicos que tomavam sertralina. Não foi possível fazer a associação entre a morte e o medicamento, mas terão os doentes que fazem esta medicação razão para se preocuparem?

A sertralina é o antidepressivo mais utilizado em todo o mundo

Antonuk/iStockphoto

Depressão, ataques de pânico, stress pós-traumático e ansiedade são algumas das doenças psiquiátricas que podem beneficiar do aumento de serotonina no cérebro. E o tipo de fármaco mais utilizado em todo o mundo para o conseguir é a sertralina. Portugal não é exceção.

Este sábado, o jornal britânico Mail Online lançou o alerta ao associar duas mortes à toma deste medicamento. Contactado pelo Observador, o Infarmed esclarece que o fármaco é seguro, que não há registo de mortes associadas ao fármaco em Portugal e que não há motivos para alterar a forma como o medicamento é usado a nível nacional.

Tendo em conta a ampla utilização do medicamento, o Observador reuniu um conjunto de perguntas e falou com uma psiquiatra para perceber até que ponto os doentes devem ficar preocupados com o potencial risco causado pelo fármaco.

De onde surgiram as dúvidas?

Liam Batten, de 24 anos, morreu em julho de 2018, nove dias depois de ter aumentado a dose de sertralina, um medicamento que tomava há vários anos para a ansiedade e a agorafobia (medo de espaços públicos), noticiou o Mail Online. Apesar do aumento, a dose tomada ainda estava dentro dos limites estabelecidos para o medicamento.

Sadie Stock, de 28 anos, morreu em novembro de 2017. A mulher tinha sido mãe há seis semanas e estava a tomar sertralina para tratar uma depressão pós-parto. Tal como Liam Batten, Sadie Stock sofreu uma arritmia súbita que lhe provocou a morte.

Apesar de as autópsias terem indicado morte natural em ambos os casos, as famílias duvidam destes resultados e alguns médicos contactos pelo Mail Online também.

A sertralina pode justificar a morte súbita nestes casos?

A autópsia revelou que estes dois doentes britânicos tinham uma elevada concentração de sertralina no sangue. Geoffrey Sullivan, o médico legista que analisou o corpo de Sadie Stock, justifica que podem ter sido as técnicas de reanimação a redistribuir o fármaco pelo corpo.

Adicionalmente, em nenhum dos casos foi possível demonstrar durante a autópsia que a morte súbita tinha sido causada pela sertralina. Mary Sheppard, professora de Patologia Cardiovascular no Imperial College de Londres, analisou o coração de Liam Batten e concluiu que a morte teria sido natural embora não possa descartar que a sertralina pudesse ter aumentado o risco. Daí que tenha aconselhado à família que fizesse um despiste de potenciais doenças do coração.

Um patologista citado pelo Mail Online, mas não identificado, diz que: “Há uma associação entre os inibidores seletivos de recaptação de serotonina [como a sertralina] e a morte súbita, mas a evidência não é perfeita.” O problema poderá estar numa condição genética que torna o doente mais sensível ao fármaco.

Não se pode fazer uma associação entre a morte súbita e uso de sertralina”, especifica Adelaide Costa, psiquiatra no Serviços de Psiquiatria e Saúde Mental do Hospital de São João.

Por um lado, dizer que uma pessoa que morreu estava a tomar um determinado fármaco não é suficiente para dizer que foi esse fármaco a causar a morte. Por outro, como acrescenta a médica, não é possível perceber se os doentes tinham uma patologia cardíaca (conhecida ou não), se estavam a tomar outro tipo de medicação que pudesse causar a arritmia súbita ou que tipo de dieta estavam a fazer. Sem comentar especificamente estas situações, a psiquiatra acrescenta que não são raros os casos psiquiátricos em que os doentes aumentam a dose do medicamento sem indicação médica.

O que diz a autoridade do medicamento portuguesa?

Divulgada a notícia do jornal britânico e depois de contactado pelos órgãos de comunicação social portugueses, o Infarmed emitiu um esclarecimento sobre o fármaco, lembrando que enquanto autoridade do medicamento lhe compete monitorizar as reações adversas reportadas em relação aos fármacos e que o faz em colaboração com as congéneres europeias e com a Agência Europeia do Medicamento.

Em relação à utilização de sertralina, o Infarmed “informa que não existem em Portugal notificações de casos de morte súbita” e que “não foram identificados dados novos que questionem o perfil de segurança de utilização deste medicamento”. “O Infarmed vem tranquilizar os utilizadores deste medicamento informando-os de que a sua utilização é segura dentro das condições de utilização estabelecidas pelo médico prescritor”, escreve a agência no esclarecimento.

O que é a sertralina?

A sertralina é um inibidor seletivo de recaptação de serotonina (ISRS). Quer isto dizer que a ação do medicamento é inibir a captura de serotonina, permitindo que esta molécula, usada na comunicação entre neurónios, aumente a concentração no cérebro. Quando a concentração de serotonina aumenta, o humor melhora, o que ajuda no tratamento de estados depressivos ou de ansiedade.

Tal como os restantes ISRS, a sertralina faz parte de um grupo de antidepressivos de nova geração que se apresentam como uma alternativa aos antidepressivos tricíclicos. Os ISRS mostram ser tão eficazes como outros antidepressivos tricíclicos, mas com efeitos secundários menos severos, como refere uma revisão da Cochrane.

Por ser tão bem tolerado e por ter tão poucos efeitos adversos, a sertalina é o antidepressivo mais utilizado em psiquiatria, diz ao Observador Adelaide Costa.

Quais os efeitos secundários identificados?

Nenhum medicamento está isento de efeitos secundários, mas quando comparado com fármacos mais antigos, a sertralina apresenta menos efeitos negativos, refere o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido (NHS, na sigla em inglês).

Entre os efeitos secundários mais comuns estão as indisposições, dores de cabeça e dificuldade em dormir. Adelaide Costa explica que como o intestino também tem muitos recetores de serotonina, o aumento desta molécula no organismo pode justificar as náuseas, vómitos e diarreias.

O NHS indica que a sertralina pode aumentar o ritmo cardíaco e que as pessoas com problemas de coração devem falar com o médico antes de tomar o fármaco, em especial aquelas que tomam medicação para esse problema. Também as pessoas que tenham tomado outros antidepressivos podem sofrer um aumento da pressão arterial quando começam a tomar sertralina. Entre os efeitos secundários mais graves, mas menos frequentes, estão dor no peito, falta de ar, tonturas, ereções dolorosas por mais de quatro horas, hemorragias, confusão, ganho ou perda de peso, por exemplo. Pode consultar uma lista mais completa de efeitos secundários aqui.

Regra geral, o fármaco é bem tolerado e pode ser tomado durante vários anos sem complicações adicionais — exceto um risco acrescido de diabetes. Por não ser um fármaco muito agressivo, a sertralina pode ser usada por grávidas e mães a amamentar, desde que os benefícios para a mãe ultrapassem os riscos para o bebé.

A interrupção da medicação, sobretudo de forma abrupta, também pode originar reações de privação, incluindo tonturas, dormência, perturbações do sono, agitação ou ansiedade, dor de cabeça, náuseas, vómitos e tremores. A interrupção da toma deve ser feita de forma faseada — ao longo de semanas ou meses — e com acompanhamento médico.

Quais os perigos de se continuar a usar o fármaco?

Há fármacos cujos efeitos adversos a nível cardíaco são bem conhecidos, diz Adelaide Costa, rejeitando que a sertralina se inclua neste grupo. A médica acrescenta mesmo que o fármaco se tem apresentado de tal forma seguro para o coração, que pode ser tomado por pessoas que tenham sofrido um enfarte agudo do miocárdio. Adicionalmente, o fármaco já é usado há cerca de 30 anos sem que tenham sido reportados complicações como as que levaram à morte de Liam Batten e Sadie Stock, diz a médica.

O jornal britânico refere que existem estudos que demonstram que outros ISRS, como o citalopram ou o escitalopram, aumentam o risco de problemas de cardíacos quando usados em doses altas, mas que esse risco não foi identificado na sertralina. Noutro estudo citado, foi demonstrado um aumento da frequência cardíaca, mas apenas em ratos — o estudo não foi replicado em humanos.

O que se pode fazer?

Mesmo sem evidência comprovada da relação entre a morte súbita e a sertralina, a associação Cardiac Risk In The Young prefere não arriscar e recomenda que quem tenha problemas cardíacos identificados evite tomar o fármaco, refere o Mail Online. Além disso, a associação considera que todos os jovens com 14 anos devem fazer eletrocardiogramas para despistar a existem de problemas do coração.

Os doentes que têm doença cardíaca prévia já são um grupo que exige uma atenção especial para os psiquiatras, mas sobretudo no caso dos antidepressivos tricíclicos, diz Adelaide Costa. Mas, para a psiquiatra, a sertralina é dos antidepressivos mais seguros para se tomar e é até bem tolerado por doentes que tomem outra medicação.

A psiquiatra não acredita que a investigação que se venha a fazer sobre os efeitos da sertralina no coração possam levar a proibição do fármaco. No limite, e caso se encontre alguma associação, haverá grupos específicos que poderão ter alguma restrição no uso do medicamento.

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