As conversas telefónicas foram realizadas em Novembro de 2015, mas só agora chegaram às mãos do procurador alemão. Ao telefone estava, de um lado, Wolfgang Hatz, à época o director de Investigação e Desenvolvimento da Porsche. Do outro, surgiu um desfile de quadros de topo do Grupo VW, a começar por Mathias Müller, antigo CEO da Porsche e, na altura, o CEO do gigante germânico. Mas igualmente Michael Steiner, delfim de Hatz e seu substituto como responsável técnico da Porsche, além de Oliver Blume, o ainda CEO desta marca alemã de desportivos.

As conversações de Hatz com os seus colegas da Porsche e o CEO do grupo foram gravadas pela mulher de Wolfgang, enquanto este falava no seu carro de serviço ao telefone e em alta-voz, revela o jornal alemão Handelsblatt. E é a esposa que, dias depois, envia as extensas gravações – algumas com 35 minutos –, recheadas de pormenores, ao advogado do marido, com a senhora a revelar algum humor quando escreve no email que acompanhava os registos: “aqui vai uma conversa longa e repleta de informações relacionada com a corrente situação”.

Müller, que apenas foi CEO do Grupo VW dois anos e meio depois de deixar a presidência da Porsche, já abandonou a liderança do grupo, onde foi substituído por Herbert Diess (ex-BMW), por se temer que, mais cedo ou mais tarde, fosse envolvido no escândalo Dieselgate. Mas Steiner continua à frente da direcção técnica da Porsche, tal como Blume, no cargo do CEO, com a defesa de todos eles a passar pelo desconhecimento do software malicioso, encomendado à Bosch e montado em mais de 11 milhões de veículos, com a única finalidade de enganar a determinação de consumos e emissões durante os testes de homologação na Europa, mas sobretudo nos EUA.

Depois destas gravações de Hatz, agora na posse da justiça, a defesa do CEO e director técnico da Porsche cai por terra, uma vez que se torna evidente que não só tinham conhecimento da fraude – que tinha como único objectivo incrementar as vendas de modelos com motor diesel nos EUA e por tabela, os prémios aos directores e os dividendos aos accionistas – como, de uma forma ou outra, participaram activamente na implementação ou no encobrimento. Sendo que ambos os comportamentos são criminosos aos olhos do procurador germânico.

Wolfgang Hatz foi afastado da Porsche (acompanhado por uns reconfortantes 12 milhões de euros pelos serviços prestados) na Primavera de 2016 e preso preventivamente em Setembro de 2017, sempre de acordo com o Handelsblatt, para ser libertado em 2018 sob uma caução de 3 milhões de euros, aguardando ainda julgamento.

Depois das gravações, resta ver o que acontecerá agora a Hatz, que certamente voltará à prisão, a menos que tenha sido com a sua colaboração que as gravações foram parar à justiça. Curioso vai ser ver o que espera a Steiner e a Blume, eles que são homens de confiança da família Porsche, que controla mais de 50% das acções do Grupo VW, o que lhe permite nomear os principais dirigentes.