Sargento Fuzileiro Faustino. Enquanto estiver em Moçambique a ajudar no resgate e apoio da população após a tragédia do ciclone Idai, Faustino não tem primeiro nome. Foi isso que combinou com a sua mulher. Homem experiente, o sargento entrou para a Marinha há 18 anos e já esteve em missões na Lituânia, no Senegal, em Timor e no Afeganistão. Na sexta-feira, herdou outra: incorporar a primeira equipa da Marinha Portuguesa enviada para a cidade moçambicana da Beira.

Ao fim de dois dias, Faustino tornou-se num herói ao resgatar uma mulher isolada numa minúscula ilha no meio da mar de lama em que parte da província de Sofala se transformou.  O momento foi captado em vídeo pela Marinha Portuguesa. E o sargento descreveu, passo a passo, como tudo aconteceu ao Observador através de uma chamada telefónica de 10 minutos com o fuzileiro Faustino, constantemente interrompida por momentos de silêncio e gaguejos impostos pelas falhas de comunicação no país. Na verdade, falha tudo em Moçambique.

Quando os militares das Forças Armadas portuguesas sobrevoam as aldeias perdidas nas margens dos rios moçambicanos, as crianças queixam-se de falta de água e de comida. É para que esses bens cheguem até elas que os fuzileiros como Faustino viajam para um país a 8 mil quilómetros de Portugal. Quem sobreviveu ao ciclone Idai, sobrevive agora à fome e às doenças graças a esta ajuda humanitária.

A missão dos portugueses é “o que nos pedirem”, descreve o fuzileiro. Este domingo foram duas. Primeiro, sobrevoaram em helicópteros indianos as regiões inundadas da cidade de Beira para saberem onde estão as povoações isoladas quando o fluxo do rio galgou as margens e inundou os campos. Depois, os botes dos fuzileiros da Força de Reação Imediata (FRI) — a que pertence Faustino — levam comida, água e assistência médica via mar. Em casos mais extremos, os fuzileiros a bordo dos helicópteros atiram esses bens para terra ainda antes dos botes serem enviados para lá. Ou então resgatam quem está em perigo.

Este último caso foi o da mulher que o sargento Faustino salvou. “Estávamos a fazer um reconhecimento de zona para rentabilizar os meios e saber se era possível chegar a sítios isolados. Aproveitamos a Força Aérea indiana para distribuir alimentação nessas zonas isoladas. Numa dessas aldeias vimos gestos de socorro. E identificámos uma pessoa, uma senhora”, recorda o fuzileiro poucas horas depois da operação.

O helicóptero aproximou-se da ilhota de onde a mulher acenava para que os militares pudessem falar com ela. Mas não se ouvia nada por causa do barulho das hélices e dos motores. Foi então que o sargento tomou a decisão de descer a terra para ir buscá-la: “Os indianos só falam inglês, por isso voluntariei-me para falar em português com ela. Como não conseguia ouvir nada, pedi para ir lá abaixo e ver se havia mais gente”, recorda o fuzileiro ao Observador. Não havia. Mas aquela mulher precisava de ser resgatada. Apresentava “sinais evidentes de fraqueza”.

É uma operação “simples” e “não apresenta riscos” para o militar, explicou o sargento. O fuzileiro desce do helicóptero para terra através do guincho, depois coloca um cinto em redor da pessoa que está a ser resgatada e sobe para o helicóptero pelo mesmo guincho. A opção de pousar a aeronave nunca esteve em cima da mesa: “Aquilo estava completamente alagado”, recorda o sargento fuzileiro Faustino.

Fuzileiro apoia resgate de mulher em aldeia isolada em MoçambiqueUma pessoa isolada foi hoje resgatada na Beira, em…

Posted by Marinha Portuguesa on Sunday, March 24, 2019

A mulher salva pelo militar português “estava muito calminha, não falou praticamente nada”: “Dizia que estava bem, mas fez um gesto como que a dizer que estava triste, por assim dizer”, descreve o sargento. Depois de recuperada pelo fuzileiro português, a mulher foi levada para o aeroporto da Beira, onde foi montada uma tenda com profissionais de saúde que prestam socorro às vítimas do furacão.

Depois de a deixar lá, Faustino perdeu o rasto à mulher que salvou. O fuzileiro não sabe quando vai regressar a casa, mas diz não se importar com o tique-taque dos ponteiros do relógio — tanto que precisa de fazer contas para saber há quanto tempo está em Moçambique: “Estamos mais concentrados nesta missão do que preocupados em regressar”, confessa.