Acidentes de Aviação

Boeing 737 Max 8. Desastre na Etiópia terá mesmo sido causado por sistema de compensação automático

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O relatório preliminar sobre o desastre indica que a tripulação seguiu "todos os procedimentos recomendados" mas não conseguiu impedir queda a pique. Um sistema automático forçou descida.

Destroços do voo da Ethiopian Airlines junto a Bishoftu

Michael TEWELDE / AFP

O relatório preliminar sobre o desastre do Boeing 737 Max 8 da Ethiopian Airlines, que matou 157 pessoas em março, terá sido causado pela intervenção de um sistema automático de compensação, o MCAS. O documento indica que a tripulação seguiu “todos os procedimentos recomendados repetidamente” mas não conseguiu impedir a queda.

O relatório foi apresentado numa conferência de imprensa, nesta quinta-feira, pela Ministra dos Transportes da Etiópia, Dagmawit Moges. Mas o texto da investigação preliminar ainda não foi divulgado. O relatório final só deverá sair em março de 2020.

[Como falhou o sistema automático do avião da Ethiopian Airlines:]

O MCAS terá assumido, de modo errado, que o avião estava a subir de forma demasiado rápida. Para o compensar, o sistema forçou a aeronave a descer. O Boeing 737 Max 8 entrou numa trajetória descendente acelerada. O piloto terá conseguido recuperar da queda manualmente, indica a ABC News. Mas o avião terá voltado a entrar em queda sistematicamente, devido à intervenção repetida do MCAS.

O relatório desmente assim a notícia inicialmente avançada pelo Wall Street Journal, a que a ABC deu seguimento, que apontava um sensor danificado pelo embate como uma ave ou um objeto como a causa do acidente. Os investigadores indicam que não foi encontrado qualquer dano estrutural na aeronave que possa ter provocado a queda.

A investigação, indicou Dagmawit Moges, baseou-se na caixa negra recuperada do avião, nas conversas gravadas entre tripulantes, no registo das manobras de voo e em documentação adicional do piloto e dos controloadores aéreos ligados ao voo, que partira da capital da Etiópia, Adis Abeba, com destino a Nairóbi, no Quénia. O Boeing 737 Max 8 despenhou-se junto a Bishoftu seis minutos após a descolagem.

Investigação preliminar iliba os pilotos e pede mudanças à Boeing

As dificuldades são similares às apontadas no relatório preliminar sobre a queda de um Boeing 737 Max 8 da Lion Air, em outubro de 2018. O relatório preliminar desse desastre, citado pela CNN, relata como o mesmo sistema automático forçou por 24 vezes a descida do avião, apesar das instruções em contrário da tripulação. Morreram 189 pessoas na queda. O relatório final sobre a Lion Air só deverá ser publicado em agosto.

Não se sabe por quantas vezes foi ativado o MCAS no voo da Ethiopian Airlines . “Foi ligado e desligado, mas só teremos dados precisos no relatório final”, avançou a Ministra ao The New York Times.

Os investigadores do governo da Etiópia recomendam que a Boeing reveja e modifique o sistema automático de compensação do Boeing 737 Max 8, e pedem que os reguladores internacionais verifiquem se o sistema foi corretamente alterado antes de permitirem que o modelo de avião volte a voar. A frota mundial de Max 8 está em terra, por recomendação da própria Boeing, desde o desastre da Ethiophian Airlines.

A Ethiopian Airlines pronunciou-se sobre o relatório, considerando que “fica demonstrado claramente” que os pilotos “seguiram os procedimentos de emergência”, e sublinhando que a empresa continuará “a cooperar totalmente com a equipa de investigação” para que se possam tirar conclusões finais sobre as causas do desastre aéreo.

A empresa afirmou estar “muito orgulhosa” do “grande nível de performance e profissionalismo” de toda a tripulação.

Boeing 737 Max 8 continua suspenso em todo o mundo

A 13 de março, a Boeing suspendeu oficialmente toda a frota de 737 Max 8, após ordem de suspensão para os Estados Unidos da América pela Administração Federal de Aviação (FAA). São 731 aviões no total. No dia anterior, depois de o Canadá decretar a suspensão destes aviões no seu espaço aéreo, a empresa emitira um comunicado em que recomendava “à FAA a suspensão temporárias das operações de toda a frota global dos aviões 371 737 Max”.

A medida foi tomada por “excesso de cautela”, mas só surgiu depois de 53 países (incluindo todos os estados membros da União Europeia) terem fechado o espaço aéreo ao modelo de avião da Boeing. A Agência Europeia de Segurança Aérea (EASA, na sigla inglesa) determinou o encerramento do espaço aéreo europeu a dois modelos Boeing 737 Max (o Max 8 e o Max 9) após o acidente com a aeronave da Ethiopian Airlines.

A permanência da frota em terra já custou cerca de 1,7 mil milhões de euros à Boeing, pelas contas da CNN Business. Perdas que a empresa norte-americana terá de divulgar a 24 de abril, no relatório financeiro para os primeiros três meses de 2019.

As dúvidas sobre o modelo devem-se a modificações feitas aos sistemas de compensação automáticos da aeronave — o tal MCAS — para compensar os novos motores colocados na aeronave para competir com modelos rivais da Airbus. Devido ao maior tamanho dos motores, foi alterado o sistema de deteção de ângulo de ataque, o que influencia a intervenção de um sistema de correção automático que força o avião a descer para evitar uma paragem dos motores.

Os pilotos foram treinados no novo modelo através de simuladores e tutoriais disponibilizados pela Boeing, ao contrário do procedimento habitual em que é necessário fazer treinos de voo real antes de se ter licença para pilotar um determinado modelo de avião. Alguns pilotos queixam-se de não ter recebido formação suficiente, mas a Boeing sustenta que o Max 8 é similar o suficiente ao 737 para não carecer de um treino mais aprofundado.

**Notícia atualizada às 17:45 de 4 de abril de 2019, retificando o valor indicado como o prejuízo da Boeing por manter os 737 Max 8 em terra**

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