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Incêndio em Notre Dame: o que é que já se sabe e o que falta saber

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Quando e onde começou, a resposta, os danos, o que se salvou e o que foi destruído. Curto-circuito em elevador pode estar na origem. O que já se sabe e o que falta saber sobre o fogo de Notre Dame.

AFP/Getty Images

(artigo em atualização)

O que se sabe

Quando o incêndio começou: O fogo deflagrou por volta das 18h50 parisienses, 17h50 em Lisboa na catedral de Notre Dame. Os bombeiros foram alertados por volta das 19h (18h em Lisboa) e deslocaram-se rapidamente para o local. Segundo avança agora a imprensa francesa, pode ter havido um erro que atrasou o combate ao fogo num primeiro momento. Segundo o Le Parisien, os operacionais foram direcionados para o lado da Catedral que dá para o Sena, mas quando chegaram ao local, fogo já ia alto e não dava para atacar por aquele lado.

[Cinzas, silêncio e um enorme buraco no teto. O que resta no interior de Notre Dame]

Onde começou o incêndio: As chamas começaram a ser vistas no pináculo da catedral de Notre Dame, que estava a ser reparado. Devido às obras, havia 500 toneladas de andaimes, que estariam a ser servidos, a prazo, por três elevadores. É aí que pode estar a chave para a causa do incêndio. Em menos de uma hora, a torre central cedeu. O ministro da Cultura, Franck Riester, adiantou entretanto que tudo aponta para que o início do incêndio tenha ocorrido nos andaimes que serviam de apoio à obra. “À partida [o incêndio] não tem origem criminosa e parece que o fogo partiu do lugar onde estão os andaimes”, afirmou logo Riester.

Quando foi dado como extinto: Por volta das 7h50 desta terça-feira, os bombeiros de Paris anunciaram, através da sua conta oficial no Twitter, que o incêndio estava extinto: “Depois de mais de nove horas de luta feroz, perto de 400 bombeiros de Paris venceram o incêndio aterrador”, lia-se no tweet. Ou seja, o fogo foi completamente apagado por volta das 4h00.

O número de vítimas: Os danos materiais naquele que era (e deverá continuar a ser) um dos monumentos mais marcantes e simbólicos da Europa foram maiores do que o número de vítimas do incêndio. Ninguém morreu e registaram-se três feridos ligeiros, nenhum dos quais civis: dois polícias e um bombeiro.

Como responderam as autoridades franceses: Logo a seguir ao incêndio foi montado um gabinete de crise na câmara municipal de Paris, para coordenar as operações. Uma das primeiras decisões foi evacuar a Île de la Cité, onde fica a catedral, uma das duas ilhas naturais do rio Sena que fazem parte da capital francesa (a outra é a Île Saint-Louis), situada no centro de Paris.

[Notre Dame. O que se segue depois do fogo apagado?]

Os moradores de habitações próximas da catedral foram enviados para Blancs Manteaux, na rua Vieille du Temple, para passar a noite. Dormiram em camas cedidas por assistentes sociais. Também os turistas foram impedidos de circular nas proximidades da catedral, sendo deslocados para outros zonas de Paris. Todos os afetados pela evacuação das proximidades da catedral receberam a visita da presidente da câmara parisiense, Anne Hidalgo. Durante a noite e madrugada, o combate ao fogo foi feito permanentemente por 400 a 500 bombeiros com 18 mangueiras de combate, alguns dos quais “empoleirados em braços mecânicos a uma altura de dezenas de metros”, segundo o Le Figaro.

O que foi salvo: Duas das relíquias mais preciosas do interior da catedral de Notre Dame foram salvas, anunciou durante a noite de segunda-feira o reitor da catedral parisiense, Patrick Chauvet: a coroa de espinhos que se acredita conter fragmentos da usada por Jesus Cristo na sua crucificação (com origem em Jerusalém, chegou a Paris por ação do rei Luís IX no século XIII) e a chamada “túnica de São Luís”, uma peça que se acredita ter sido usada pelo mesmo rei francês quando este morreu durante uma cruzada na Argélia. O antigo monarca foi canonizado em 1297 e a túnica — que se acredita ser sua até pela origem histórica coincidente e pela estética coerente com o vestuário do rei — ganhou então um valor religioso ainda maior.

Além destas duas relíquias, soube-se também ainda durante a noite do incêndio que 16 estátuas representando 12 apóstolos e quatro evangelistas ficaram imunes ao fogo. Tinham sido retiradas quatro dias antes do incêndio para restauro. Já na manhã de terça-feira, os bombeiros de Paris anunciaram que “a estrutura da catedral foi salva e as principais obras de arte salvaguardadas, graças à ação combinada dos diferentes serviços do Estado”. A lista de peças que ficaram imunes ao fogo e de obras de arte que poderão ter sido danificadas mas podem ser restauradas sem perder importantes marcas originais deverá ser conhecida durante esta semana. O “grande órgão de Notre Dame”, o maior e mais antigo dos três órgãos da catedral francesa (começou a ser feito no século XIII, embora só nos anos 1730 tenha ganho as proporções atuais), sobreviveu ao incêndio, mas algumas partes terão de ser restauradas.

Já há também imagens do interior da catedral depois do incêndio, que indiciam que o altar está intacto e a cruz de Cristo no interior de Notre Dame continua no mesmo local.

AFP/Getty Images

O que foi destruído: O pináculo da torre central da Catedral de Notre Dame colapsou menos de uma hora depois do incêndio deflagrar, às 19h50 parisienses (18h50 em Lisboa). “Em algumas horas, uma boa parte do teto do edifício foi reduzido a cinzas”, noticiou o jornal francês Le Figaro. Uma parte da abóbada foi derrubada e o cruzeiro e o transepto norte afundaram-se.

A reconstrução que se segue: Pouco antes da meia-noite, o Presidente francês Emmanuel Macron declarou a intenção do Governo francês: “Vamos reconstruir Notre Dame porque é o que o povo francês espera que façamos, porque é o que a nossa história merece, porque é o nosso destino profundo”, apontou. Macron anunciou que será criada uma “coleta nacional” aberta a quem quiser contribuir com fundos para a reconstrução. O ministro da Cultura francês Franck Riester assegurou por sua vez que “o Estado assumirá a sua parte de responsabilidade e fará o necessário” para a reconstrução mas lembrou que este “é um drama excecional” e defendeu que não se deve ignorar “a energia, vontade e entusiasmo de solidariedade” de todos, já que “precisamos de toda a gente” que quiser contribuir. Entretanto, soube-se que a Câmaral de Paris ia desbloquear 50 milhões de euros.

Depois, vários empresárias anunciaram que ajudar financeiramente nas obras de reconstrução. François-Henri Pinault, diretor executivo da Kering (dona da Balenciaga, Yves Saint Laurent e Gucci), vai doar 100 milhões de euros para as obras de reconstrução anunciadas pelo presidente francês. Já Bernard Arnault, dono do grupo LVMH, vai doar 200 milhões de euros. Também a L’Oreal doou 200 milhões de euros, para além da petrolífera Total com 100 milhões e da consultora Capgemini com o mesmo valor. A Apple, a Liga de Futebol Francesa, o Ministério da Cultura da Rússia, e a UNESCO também prometeram ajudar, mas não se comprometeram com um valor. Juntando estas doações às dos cidadãos, estima-se que já se tenham angariado cerca de mil milhões de euros para recuperar a catedral de Notre Dame.

O que falta saber

O que provocou o incêndio: As causas do fogo estão ainda por averiguar e revelar. As autoridades parisienses abriram já um inquérito que considera como hipótese mais forte a “destruição involuntária por incêndio”. Terá sido encontrada uma pista de que o incêndio terá sido acidental perto do teto da catedral, noticia o Le Figaro citando uma “fonte próxima do processo”. Todos os trabalhadores envolvidos nas obras de reparação do pináculo da catedral francesa — onde as chamas foram identificadas num primeiro momento — foram ouvidos pelas autoridades durante a noite e madrugada, acrescenta o mesmo jornal.

Na sequência dessas audições, segundo o Le Parisien, surgiu uma nova pista que está a ser levada a sério pela investigação: na origem do fogo pode ter estado um problema elétrico nos elevadores das obras. Ou seja, pode ter havido um curto-circuito. “Os investigadores estão a estudar os elevadores que foram postos no local para auxiliar os trabalhos das obras. Pode ter havido um curto-circuito”, diz fonte próxima do processo citada por aquele jornal. É que, descreve, havia 500 toneladas de andaimes servidos por três elevadores: um, ia até 24m do chão, outro chegava mais longe, ao telhado, e outro ainda chegava ao topo da torre. Dois desses elevadores, segundo o Parisien, já estavam a trabalhar na quinta-feira, quando as estátuas do pináculo foram retiradas. “O conjunto de dispositivos e procedimentos de segurança foi respeitado”, assegurou, no entanto, Julien Le Bras, chefe da Europe Andaime, responsável pelas obras.

O impacto nas rosáceas e em algumas obras de arte: A rosácea norte foi salva, mas o estado das outras duas ainda é incerto, já que os vitrais foram danificados. O The New York Times cita um bispo da Arquidiocese de Paris, Benoist de Sinety, que refere que o “calor intenso danificou” as rosáceas, ao passo que o jornalista francês Laurent Valdiguie, que esteve na catedral, revelou que pelo que viu haverá esperança mas também riscos para a “Rosácea Norte”, segundo o site noticioso Heavy.

Os relatos do local são contraditórios e ainda não há informações oficiais sobre o estado dos vitrais, o mais famoso dos quais — a “Rosa Sul” — com origem no século XIII mas com restaurações e reconstruções ao longo do século XVIII e XIX. A agência de notícias francesa France-Presse escreveu: “A sobrevivência das três grandes rosáceas vitrais, cada uma das quais contando uma história bíblica, ainda é incerta. Pelo menos uma parece ter ficado intacta depois de os bombeiros terem passado horas a combater o incêndio”. Um porta-voz da catedral, André Finot, revelou à estação francesa BFM que “pelo que pôde ver”, as rosáceas mais antigas “continuavam lá” sem danos visíveis. A informação carece contudo de confirmação oficial.

Relativamente a obras de arte, os bombeiros de Paris referiram que as “principais” terão sido “salvaguardadas”, desconhecendo-se quais ficaram intactas e se haverá obras artísticas que tenham sofrido danos (reversíveis ou irreversíveis).

Quanto tempo demorará a reconstrução: Ainda não é certo, mas deverá levar pelo menos entre três a 15 anos, dependendo do otimismo das estimativas (e das exigências de quem as faz). O governo francês ainda não se comprometeu com um prazo para a reconstrução. Esta terça-feira de manhã, o antigo ministro da Cultura de França, Jack Lang, alertou para a importância de o processo não demorar muitos anos: “Tem de ser feito num prazo curto, não de dez ou 15 anos, mas de três anos. Estou a ouvir desde ontem que vai demorar uma década, é uma piada!”. Outro ponto importante que condicionará o tempo de reconstrução da catedral é a base a partir da qual se reconstruirá. A estrutura do edifício tem neste momento “vulnerabilidades” importantes, nomeadamente na zona da abóbada, pelo que será necessário perceber se a estrutura se aguentará ou se será preciso uma reconstrução quase de raiz.

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