De Napoleão à beatificação de Joana d’Arc: 10 momentos que marcam a história da Catedral Notre Dame /premium

16 Abril 20193.686

Nasceu para ser um símbolo francês e foi além fronteiras. Foi alvo de restauros ao longo de 856 anos de existência. 10 momentos que contam a história da catedral que ardeu esta segunda-feira.

É desde 1991 Património Mundial da Unesco. É também um dos monumentos mais visitados da Europa, com 13 milhões de visitantes anualmente. A catedral de Notre Dame, monumento histórico de Paris mas reconhecido em todo o mundo, foi esta segunda-feira palco de um grande incêndio, no qual o pináculo central e o teto sucumbiram totalmente às chamas.

Há mais perguntas que respostas. Ainda estão por apurar as causas do incêndio e o que foi destruído. As últimas atualizações indicam que as três janelas de rosáceas medievais de Notre Dame terão explodido por causa do calor intenso, afirma o The Guardian, citando “relatos não confirmados”. Mas, no meio da tragédia a que Paris assiste, nem tudo ficou perdido: o reitor da catedral confirmou que o fragmento da coroa de espinhos com a qual Cristo terá sido coroado pelos soldados romanos e a túnica de Saint-Louis estão a salvo.

A França, a Europa e o Mundo assistem ao desaparecimento de pedaços de uma história que começou há mais de 800 anos e acompanhou várias mudanças sociais, políticas e económicas. Mas, que catedral é esta e porque é tão conhecida? 10 pontos para conhecer a catedral de Notre Dame.

Uma construção que demorou 182 anos

Foi há 674 anos, em 1345, que a construção da catedral de Notre Dame foi dada como completa. Foram 182 anos de espera para ver nascer aquela que hoje é uma das catedrais mais conhecidas e visitadas na Europa, das mais antigas do estilo gótico em França e um símbolo do país.

Tudo começou em 1163, quando Luís VII de França ocupava o trono francês. O nome da catedral, “Notre Dame”, significa Nossa Senhora, uma vez que o edifício é dedicado à Virgem Maria, mãe de Jesus Cristo. Localizado na Ile de La Cité, na capital francesa, e rodeado pelo rio Sena, o próprio local onde o monumento foi construído já era anteriormente associado ao culto religioso: foi aqui que os celtas terão realizado algumas cerimónias e, mais tarde, os romanos ergueram um templo de devoção ao deus Júpiter.

Ainda antes de a catedral de Notre Dame ser construída, já existia neste espaço uma das primeiras igrejas do Cristianismo francês, a Basílica de Saint-Etienne. Depois da demolição desta igreja, a construção da catedral foi apoiada por Luís VII e várias classes sociais francesas contribuíram monetariamente para a sua edificação. Os primeiros arquitetos da catedral foram Pierre de Montreuil e Jean de Chelles, mas ao longo dos anos a catedral foi sendo modificada de acordo com as épocas.

O objetivo da construção desta catedral, mandada edificar pelo Bispo Maurice de Sully, era aproveitar as novas técnicas de construção para erguer um templo de grandes dimensões, que demonstrasse o poder francês. A primeira pedra foi lançada na presença do Papa Alexandre III, que, como explica o próprio Vaticano, visitou Paris entre 24 de março e 25 de abril de 1163. A estrutura foi terminada em 1182, após duas décadas de construção, tendo o altar principal da igreja sido consagrado em 19 de maio desse ano por Henri de Château-Marçay, enviado pelo Papa Lúcio III para o efeito.

Apesar de todo o apoio monetário fornecido para a construção da Notre Dame, foram várias as vezes em que esta catedral sofreu alterações ao longo da sua construção e mesmo depois de o projeto já estar edificado. A sua alteração mais radical foi em 1844, quando a catedral foi restaurada pelos arquitetos Eugene Viollet-le-Duc e Jean-Baptiste Lassus. O local onde estes arquitetos fizeram algumas alterações corresponde ao foco do incêndio desta segunda-feira: o pináculo, explica o El Confidencial.

Os arquitetos mandaram também erguer uma rosácea completamente nova, mudaram a pedra dos contrafortes e quiseram reconstruir todos os altares e capelas do interior. Já mais recentemente, em 1991, foi iniciado um projeto de restauro e conservação do edifício, com um prazo de dez anos, mas que não chegou a ser dado como concluído.

Quando os sinos tocam

A Catedral de Notre Dame é um dos símbolos do estilo gótico europeu, uma fase da história e da arte que teve início precisamente em França, em meados do século XII. Notre Dame tem duas torres de 69 metros de largura e 139 metros de comprimento e uma fachada imponente de 40 metros de largura. Como foi alvo de várias modificações ao longo da sua história, é comum encontrarem-se algumas diferenças de estilo presentes em todo o edifício.

Na altura em que o teto da catedral, também chamado de “a floresta”, foi construido terá consumido cerca de 1300 árvores para ser feito, o que equivale a uma floresta inteira. Na fachada ocidental da catedral, há três portas decoradas com várias esculturas de pedra: a porta central, conhecida como “Juízo Final”, a do Sul, porta de Saint Anne, e a do Norte, a porta da Virgem. Muitas das estátuas presentes na fachada da catedral retratam cenas bíblicas, especialmente tendo em conta todo o poder espiritual conferido a esta construção. Ao todo, a catedral tem 28 estátuas que representam os reis de Judá e de Israel e que estão localizadas em cima das três portas de entrada do edifício.

Há três portas decoradas com várias esculturas de pedra: a porta central, conhecida como “Juízo Final”, a do Sul, porta de Saint Anne, e a do Norte, a porta da Virgem

Tipicamente característica da arquitetura gótica, as paredes grossas que existiam nas igrejas românicas foram substituídas por colunas altas e arcos que conseguem sustentar o peso dos telhados. No interior, há cerca de 200 vitrais coloridos que filtram a luz natural (alguns deles dos maiores do mundo) e três rosáceas que são denominadas de “Trindade de Luz”, pelo significado bíblico que têm. No século XIII, estes vitrais chegaram a ser substituídos por cristais brancos, uma vez que os líderes religiosos consideravam que vitrais coloridos “comiam a luz”.

Na catedral existe também o sino medieval “Emmanuel”, que pesa mais de 13 toneladas e é o sino mais antigo do edifício, depois de os restantes sinos terem sido fundidos durante a Revolução Francesa. Ao todo, são dez os sinos presentes na catedral. 

O sino Denis, um dos que estão presentes na catedral

Uma das grandes curiosidades deste edifício passa pelo chamado “quilómetro zero” que está localizado na frente da fachada. Neste local, há uma placa de bronze que simboliza o quilómetro base em que se começa a calcular a distância para todas as estradas do país. Dentro da catedral, e uma vez que são mais de 800 anos de história, há várias relíquias guardadas. No Tesouro (Trésor) estão manuscritos medievais e objetos religiosos, como a coroa de espinhos com a qual Cristo terá sido coroado pelos soldados romanos e um pedaço da cruz onde foi crucificado. Estes objetos podem ser vistos pelos visitantes na primeira sexta-feira de cada mês e na sexta-feira santa.

Um saque, um incêndio e um atentado

Ao longo de 856 anos, a catedral assistiu a alguns momentos que marcaram a história da França. Durante a Revolução Francesa, entre 1789 e 1799, a catedral foi fechada e nacionalizada e a população, pensando que as cabeças das estátuas da Galeria dos Reis representavam os reis de França, destruíram-nas quase todas. Foi, aliás, nesta altura que a catedral ficou bastante danificada. Num dos restauros feitos na construção, Eugene Viollet-le-Duce e Jean-Baptiste Lassus mandaram colocar novas estátuas para substituir as que foram destruídas durante esta altura. Só em 1977 é que parte destas cabeças foram encontradas durante obras na Rue de la Chaussé D’antin, tendo sido posteriormente expostas no Museu Nacional da Idade Média.

Ainda na época da Revolução, o altar foi retirado e o edifício usado para cerimónias protocolares com o objetivo de exaltar os valores revolucionários anti-religiosos. Mais tarde, a igreja seria mesmo usada como armazém para bens alimentares. Os sinos da catedral foram derretidos para construir armas e munições.

Já em 1871, a catedral foi palco da turbulência social que se vivia em França e o seu interior terá sido incendiado durante a Comuna de Paris. No entanto, não há confirmação sobre este dado histórico nem mais detalhes sobre o que terá acontecido.

Mais recentemente, e apesar de não ter ocorrido no interior do edifício, em junho de 2017 um agente da polícia foi atacado junto à catedral enquanto fazia a patrulha na praça em frente ao edifício. Na altura do ataque, disse o ministro do interior francês Gérard Collomb, o homem terá gritado “Isto é pela Síria”. O agressor era um estudante argelino que as autoridades conseguiram neutralizar.

A convocação da Terceira Cruzada

Foi no interior da catedral de Notre Dame que o patriarca de Jerusalém, Heráclio de Cesareia, convocou, em 1185, a Terceira Cruzada, como explica o Vatican News. Foi a partir do apelo feito em Notre Dame que os caveleiros Teutónicos se puseram em marcha rumo a Jerusalém para responder à invasão da cidade pelo sultão Saladino, numa cruzada que ficaria conhecida como a “Cruzada dos Reis”, devido à participação de vários monarcas — incluindo o rei francês.

Coroação de Henrique VI de Inglaterra

Foi na catedral de Notre Dame que, a 16 de dezembro de 1431, Henrique VI de Inglaterra foi coroado rei da França, dois anos depois de ser coroado rei de Inglaterra. No entanto, o filho de Henrique V de Inglaterra e de Catarina de Valois, princesa de França, nunca chegou a ser aceite pela nobreza francesa, que, em vez de Henrique VI, reconhecia Carlos VII da França como o seu rei. Por isso, Henrique VI não chegou a ser considerado rei de França.

Coroação de Napoleão Bonaparte

Cerca de 400 anos depois, a 2 de dezembro de 1804, foi a vez de Napoleão Bonaparte ser coroado imperador na catedral de Notre Dame e, em simultâneo, reatar as relações francesas com a Igreja Católica. Ainda antes, e a pensar nesta ocasião, os franceses fizeram o restauro da catedral e levaram a cabo uma autêntica remodelação, com as próprias ruas de Paris a serem totalmente pavimentadas.

No dia da cerimónia, a “residência do bispo”, onde o Papa Pio VII e a sua comitiva se prepararam para a coroação e onde Napoleão e Josefina vestiram as suas vestes para a cerimónia, situava-se ao lado da catedral. Nessa parte do edifício, tudo foi branqueado com cal e no interior estavam pendurados tecidos de seda e cortinas de veludo decoradas com insígnias do Império.

Durante a cerimónia, e em vez de se ajoelhar em frente ao Papa, o imperador francês pegou na coroa e ele próprio colocou-a em cima da sua cabeça. Quis, assim, passar a mensagem de que não era o poder papal, mas o seu mérito e a vontade dos franceses, que o tornavam imperador.

O momento em que Napoleão Bonaparte é coroado na catedral de Notre Dame

Lei da separação

De acordo com a lei da separação Igreja-Estado, assinada a 9 de dezembro de 1905, as catedrais construídas pelo Reino Francês (cuja religião de Estado era o Catolicismo) são oficialmente propriedade do Governo de França. O Estado concede, depois, a utilização diária destes edifícios — como é o caso da catedral de Notre Dame — às instituições da Igreja Católica. Neste caso, é a arquidiocese de Paris que a utiliza, uma vez que é naquela igreja que se encontra a cátedra do arcebispo de Paris.

Beatificação de Joana D’Arc

A 18 de abril de 1909, Joana D’Arc, conhecida como a Donzela de Orleans e uma personagem importante da história francesa durante a Guerra dos Cem Anos (1337-1453), foi beatificada pelo Papa Pio X na catedral de Notre Dame, tendo sido mais tarde declarada santa pelo Papa Bento XV. Joana D’Arc foi condenada à fogueira por heresia e queimada viva em Rouen no dia 30 de maio de 1431, quando tinha apenas 19 anos.

Depois de ser assassinada, a família de Joana D’Arc recolheu provas para o seu processo ser revisto e ser considerada inocente, tendo enviado estas provas para o Papa Nicolau V, que recusou o caso. Só em 1456 é que o Papa Calisto III decidiu rever o processo e declarar a sua inocência e em 1803 foi declarada um símbolo de França por Napoleão Bonaparte.

I e II Guerras Mundiais

França esteve envolvida nas duas grandes guerras que marcaram a primeira metade do século XX e, apesar dos vários confrontos que tiveram lugar na capital francesa nos dois conflitos, a catedral resistiu sempre. No final da Primeira Guerra Mundial, em 1918, os sinos da catedral tocaram para assinalar o acontecimento. Já durante os bombardeamentos de Paris na Segunda Guerra Mundial, a catedral não sofreu danos.

Um livro e um filme de animação

Se a catedral Notre Dame é conhecida pelos momentos históricos e pela revolução a nível arquitetónico que provocou, há um marco que tornou este edifício ainda mais conhecido por toda a gente: o livro Notre-Dame de Paris, publicado pelo escritor Victor Hugo em 1831. A obra foi criada num momento em que o edifício se encontrava degradado e serviu como mote para o escritor iniciar uma campanha pela restauração da catedral, iniciado em 1844.

O interior da catedral

No início, o enredo de 1492, no final da Idade Média, não se centrava no romance que conhecemos hoje, mas sim na própria catedral, com o objetivo de alertar a população para o seu mau estado e a necessidade de um restauro profundo. Para isso, o autor faz uma descrição do edifício, bem como da sociedade parisiense naquela altura. Só mais tarde, e depois de a obra ser traduzida para inglês, é que a história se centra no romance entre Quasimodo, um corcunda que vivia escondido dentro da catedral por ter medo de se mostrar publicamente a sua aparência física, e a cigana Esmeralda.

Mais tarde, surgiu a versão cinematográfica da história, produzida pela Disney em 1996. O filme “O Corcunda de Notre Dame” arrecadou cerca de 325 milhões de dólares em todo o mundo.

[Estas estátuas voaram pelos céus de Paris e salvaram-se do fogo por quatro dias]

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