O mundo parou esta segunda-feira quando parte da Catedral de Notre Dame, em Paris, ardeu. A estrutura do monumento salvou-se, as principais obras de arte também e a catedral será reconstruída, mas o sentimento de angústia com o que aconteceu ainda permanece. 106 anos antes, Mário de Sá-Carneiro (1890-1916) escreveu sobre este monumento com 856 anos de história, que sobreviveu a duas guerras mundiais e à Revolução Francesa.

“Nossa Senhora de Paris” foi publicado pela primeira vez no primeiro número da revista Orpheu, em 1915. É o quarto poema da secção “Para os Indícios de Oiro“, livro que só seria editado em 1937, depois da morte do poeta, pela editora Presença. A última referência a “Nossa Senhora de Paris” aparece, de acordo com a edição crítica de Ricardo Vasconcelos, numa carta enviada por Sá-Carneiro a Fernando Pessoa a 13 de janeiro de 1916, na qual o escritor conta que, no domingo anterior, um amigo tinha teimado em declamar uma tradução para o francês do poema.

Mário Sá-Carneiro morreu a 26 de abril de 1916, em Paris, a cidade que tanto amava e à qual dedicou muitas passagens da sua obra.

No poema citado abaixo, o sujeito poético fala nos “altares e velas”, nas “vitrais” da catedral, bem como das “manchas de cores a ogivarem-se” e das “grandes naves” do edifício.

Listas de som avançam para mim a fustigar-me
Em luz.
Todo a vibrar, quero fugir.. Onde acoitar-me?
Os braços duma cruz.
Anseiam-se-me, e eu fujo também ao luar…

Um cheiro a maresia
Vem-me refrescar,
Longínqua melodia
Toda saudosa a Mar…
Mirtos e tamarindos
Odoram a lonjura;
Resvalam sonhos lindos…
Mas o Oiro não perdura
E a noite cresce agora a desabar catedrais…
Fico sepulto sob círios —
Escureço-me em delírios,
Mas ressurjo de Ideais…

– Os meus sentidos a escoarem-se…
Altares e velas…
Orgulho… Estrelas…
Vitrais! Vitrais!

Flores de liz…

Manchas de côr a ogivarem-se…
As grandes naves a sagrarem-se…
– Nossa Senhora de Paris!…

Mário de Sá-Carneiro, o poeta que os deuses amaram

O incêndio, que deflagrou por volta das 18h50 (17h50 em Lisboa), consumiu dois terços do topo da catedral de Notre Dame, ainda que o Presidente francês tenha dito que “o pior foi evitado”. A torre central e o teto sucumbiram totalmente às chamas, que chegaram a ameaçar a torre norte. Mas as duas torres do edifício foram poupadas e a estrutura, o altar, a cruz de Cristo e as relíquias não terão sido destruídos.

[Cinzas, silêncio e um enorme buraco no teto. O que resta no interior de Notre Dame]

Artigo atualizado às 19h14 com mais informações sobre a publicação de “Nossa Senhora de Paris”