“Só é vencido quem desiste de lutar.” Foi com o célebre slogan do tempo da resistência antifascista, tantas vezes utilizado por líderes socialistas como Mário Soares e Salgado Zenha, que Mário Nogueira, secretário-geral da Fenprof, quis resumir o estado de espírito dos professores no dia em que o Parlamento chumbou a recuperação integral dos 9 anos em que as carreiras estiveram congeladas.

“O PS e o Governo estão de parabéns porque ganharam esta batalha, mas a guerra vai ser ganha pelos professores”, disse aos jornalistas, já do lado de fora da Assembleia da República, mostrando sinais de que vem aí tempestade. Antes disso, o líder da Fenprof assistira à votação a partir das galerias do hemiciclo, rodeado de professores — como os que, cá fora, gritavam “gatunos” e vaiaram os deputados do CDS que viram sair pela porta lateral do Parlamento.

No imediato, há duas certezas: a luta continua e com Mário Nogueira na rua, já que o secretário-geral da Fenprof anunciou ter tomado a decisão de se recandidatar. “Podem agradecer ao PS e ao Dr. António Costa, que me ajudaram a tomar uma decisão”, esclareceu, quando questionado pelos jornalistas sobre se manteria ou não à frente da Fenprof, que terá o seu congresso a 15 e 16 junho.

Sobre a sua filiação no PCP, nem mais uma palavra. Manteve-se em silêncio, como, aliás, prometera, depois de desmentir a notícia do Público que dava conta de que ponderava desvincular-se do Partido Comunista.

Professores. PS, PSD e CDS chumbam recuperação dos nove anos

Nos últimos meses, a saída de Nogueira da Fenprof parecia iminente. O sindicalista dava sinais de cansaço e de não estar disponível para mais um mandato. Não chegava a ser um tabu, mas quase, e a resposta oficial era sempre de que estava ainda a ponderar o seu futuro. Esperava-se que o anúncio acontecesse mais perto do congresso que decidirá o nome do próximo secretário-geral.

Serei secretário-geral da Fenprof se o congresso assim decidir em 15 de junho, porque o Governo, o PS e António Costa merecem que a luta continue e eu estou disponível para a liderar. Se tenho de agradecer a alguém esta decisão tomada hoje é ao Governo, ao António Costa, que ficará indissociavelmente ligado à minha continuidade à frente da Fenprof”, sublinhou Nogueira.

Quanto à paz social e nas escolas, essa parece cada vez mais uma miragem. Detalhes sobre o que aí vem só serão conhecidos na próxima quarta-feira, mas o previsível é que a greve às reuniões de avaliação, a começar no dia 6 de junho, passe de ameaça a facto real. E se avançarem para esta solução, já tem uma pequena vitória do seu lado: a justiça — Supremo Tribunal incluído, depois dos recursos do Executivo — deu razão aos sindicatos, considerando ilegais os serviços mínimos convocados pelo Governo o ano passado.

Antes disso, os dez sindicatos que constituem a plataforma que negociou com o Governo a recuperação dos 9 anos irão ouvir os professores nas escolas para perceber que caminho seguir.

Depois, a plataforma reúne-se e anuncia o que pode ser esperado neste final de ano letivo, que poderá, assim, vir a ser tão ou mais caótico do que o do ano anterior. Como já Mário Nogueira e João Dias da Silva, líder da FNE, haviam dito ao Observador, o final de ano sem greves estava nas mãos dos deputados. Sem o tempo integral recuperado, os protestos devem regressar.

“A luta continua e até ao final da legislatura”, esclareceu Mário Nogueira, adiantando que irão pedir aos professores que vão votar de crachá ao peito — aquele que diz 9A 4M 2D, numa alusão ao tempo congelado — e deixando claro que os professores se preparam para estar em cima dos partidos durante as próximas duas campanhas eleitorais.

Quanto aos restantes partidos, a desilusão é geral: Nogueira não hesitou em atribuir responsabilidade pelo chumbo à “incapacidade de os restantes cinco partidos”, que diziam defender a recuperação do tempo integral e que, no entanto, “acabaram por confluir em interesses que são distintos, disso resultando que nada foi aprovado”.

Fim de ano letivo sem greves nas escolas está nas mãos dos deputados, dizem os professores

Pouco depois destas declarações de Nogueira, Joana Mortágua, do Bloco de Esquerda, esperava à chuva, que entretanto começara a cair, para dar um abraço ao líder da Fenprof. O abraço aconteceu, de forma seca, enquanto Nogueira dizia, entre dentes, que não seria hoje, mas que diria à deputada o que tinha a dizer.

“Isto acabou, vamos embora”

Antes das declarações aos jornalistas, Mário Nogueira assistiu à votação do  texto final que recuperava o tempo integral de serviço congelado aos professores nas galerias do Parlamento, rodeado de professores. Antes de se chegar ao diploma esperado, o plenário votou uma série de outras propostas. Durante todo esse tempo, o líder da Fenprof manteve a boa disposição nas galerias 2 do Parlamento.

Quando recebeu sinal de que só faltavam duas votações para chegar à tão esperada — que poderia devolver os 9 anos aos professores —, começou o burburinho. “Quando começarem a votar, tossimos todos”, disse Nogueira aos professores que o rodeavam. A mensagem foi passando de boca em boca, da galeria 2 para a galeria 1, mas não passou de uma brincadeira. À entrada para as galerias, os agentes da PSP são bem claros nos avisos: “Não se podem pronunciar, nem bater palmas, nem vaiar.” Se o fizerem, é a expulsão garantida das galerias e ninguém queria arriscar não assistir ao desfecho da votação. Não houve tosse, houve silêncio durante as avocações do PSD e do CDS e durante a votação.

Enquanto os deputados da direita e do PS falavam, Mário Nogueira manteve-se sempre tranquilo, ora cofiando a barba, ora acenando que não, em desacordo com o que ia sendo dito. Mas foi durante as intervenções da esquerda, do BE e do PCP, que esteve mais irrequieto na cadeira, e em que a sua cabeça acenava que não com mais veemência.

O líder da Fenprof assistiu ao debate e à votação nas galerias da Assembleia da República, rodeado de professores (ANTÓNIO COTRIM/LUSA)

Quando a intervenção de Luísa Mesquita, do PCP, terminou e a bancada comunista aplaudiu, começou novo burburinho entre os professores, sobre quem na bancada comunista tinha aplaudido e se o tinham feito com mais ou menos vigor. O desfecho era o previsível. E ainda mal Ferro Rodrigues, presidente da Assembleia da República, dizia que o texto tinha sido chumbado, já Mário Nogueira saltava da cadeira: “Isto acabou, vamos embora.”

Se acabou no Parlamento, não acabou para os professores. “Esta não era a última hipótese que os deputados tinham para resolver isto”, dizia, já do lado de fora, aos jornalistas, garantindo que haverá mais oportunidades de os deputados se pronunciarem sobre a questão. Certo é que, para os professores, o assunto não morreu. “Os professores não desistem de lutar e não vão ser vencidos”, rematou Mário Nogueira, prevendo-se que os próximos tempos nas escolas serão tudo menos tranquilos.