O Vaticano renegou esta segunda-feira a ideia de que o género de uma pessoa possa ser diferente do sexo com que nasceu. Segundo o The Washington Post, a Igreja Católica também afirmou que a fluidez de identidade não é “baseada nas verdades da existência.”

O direito de “escolher um género”, afirmou o Vaticano através de um comunicado oficial, está em “contradição direta com o modelo de casamento enquanto união de um homem com uma mulher.”

Este documento, apresentado em forma de guia para educadores Católicos, prende-se firmemente aos ensinamentos tradicionais de género e sexualidade. Membros de comunidades LGBT que também são crentes afirmam que esta tomada de posição confirma os pontos de vista que acreditavam estar a mudar.

“Isto leva-nos de volta à Idade das Trevas”, afirmou Marianne Duddy-Burk, a presidente executiva da associação DignityUSA, um grupo de advoga a inclusão e igualdade LGBT dentro da Igreja. “Acho que é incrivelmente insensível ainda estarmos a falar sobre género e sexualidade enquanto escolha ou capricho momentâneo, em vez de o vermos como uma identidade atribuída por Deus.” 

O comunicado, que foi emitido pelo departamento do Vaticano associado à educação, coincidiu com o mês em que se celebra o Orgulho Gay um pouco por todo o mundo. Não foi assinado pelo Papa Francisco, mas sim por dois cardeais importantes — Giuseppe Versaldi e Angelo Vincenzo Zani — da Curia Romana.

Esta tomada de posição surge numa altura em que a Igreja enfrenta uma crescente secularização — quando muitos dos seus ensinamentos sobre a sexualidade estão a ser vistos como ultrapassados. Francisco já expressou várias vezes a vontade de se aproximar às comunidades LGBT mas, ao mesmo tempo, também já fez finca pé sobre os assuntos ligados à identidade de género — “É terrível”, afirmou o Papa em 2016.

Falando sobre a importância de ouvir e “compreender os eventos culturais das últimas décadas”, esta missiva também refere uma crise na educação sexual, uma “desorientação” que está a desestabilizar a ideia de família e a cancelar as diferenças entre homens e mulheres.

A Igreja deixou claro que as crianças têm o direito de crescer numa família “com um pai e uma mãe”. O mesmo documento citou um discurso anterior do Papa Francisco sobre como as crianças beneficiam de ver a masculinidade representada no pai e a feminilidade na mãe.

“É precisamente dentro do núcleo da unidade familiar que a criança aprende a reconhecer o valor e a beleza das diferenças entre os dois sexos”, lê-se.

Grupos tradicionalistas aplaudiram o dossier de 31 páginas que tem como título “Masculino e Feminino Ele Criou-os”. O CitizenGo, um grupo conservador sediado em Madrid, descreveu este documento como sendo “um guia extraordinário.” “Esta ferramenta autoritária é bastante clara no condenar da ideologia de género e dos danos graves que ela causa na sociedade”, afirmou esse grupo.

O Padre James Martin, um jesuíta que defende publicamente uma Igreja mais aberta à receber fieis LGBT, afirmou no Twitter que o documento apela ao diálogo e abertura, “mas põe de parte a vida real das pessoas LGBT.” “Infelizmente”, escreveu ainda, “será utilizado como um estandarte contra a comunidade transgénero, uma desculpa para se argumentar que eles nem sequer deviam existir.”