Filas para entrar, ameaças verbais, momentos de maior tensão, pedidos de demissão de uma “minoria” presente no Pavilhão João Rocha, muitos associados a passarem pelas urnas e a saírem de imediato após votarem, um episódio onde as palavras passaram aos atos (e houve mesmo um vidro partido na separação entre campo e bancadas), tentativas de apaziguar os ânimos até pela imagem que dá do clube no exterior. Este foi o resumo da Assembleia Geral Extraordinária do Sporting este sábado mas poderia ser das últimas reuniões magnas do clube. No entanto, e a partir de agora, há um dado novo que não volta atrás: o ex-presidente Bruno de Carvalho, que após ter sido suspenso só poderia voltar a concorrer aos órgãos sociais em 2024, foi agora expulso de sócio do Sporting no final de uma espiral de acontecimentos que começou com a destituição em junho de 2018.

No final, os cerca de 5.200 associados que passaram este sábado pelo Pavilhão João Rocha sufragaram o recurso com cerca de 70% de votos a favor da expulsão do antigo presidente do Sporting (69,3%). Ou seja, contas feitas, dois dos três últimos líderes do clube verde e branco (Godinho Lopes, Bruno de Carvalho e Frederico Varandas) foram excluídos. Também Alexandre Godinho foi expulso da condição de associado, neste caso com uma ligeira diferença em relação ao ex-número 1 (68,21%).

“Não quero tirar nenhuma ilação política nesta situação. Agora o Conselho Fiscal e Disciplinar é que tem de avaliar qualquer situação. A partir de amanhã, poder-se-á falar, analisar, projetar. Estabilidade? Não quero mesmo fazer uma análise política mas é óbvio que todos os sportinguistas têm esse objetivo. Os sócios entenderam, manifestaram-se e agora pensa-se no que tiver de ser pensado. Cada qual pode retirar as ilações que quiser. Todos desejamos a estabilidade, vamos ver agora como as coisas podem evoluir. Boletins? Essa numeração é uma maneira de contornar a falsificação de boletins, é uma espécie de selo de garantia e os serviços já disseram também como eu que esses números não podem ser verificados, não se pode fazer nenhuma ligação entre o número e o associado que vota. Se houver alguma tentativa de impugnação? Tenho de respeitar”, comentou no final Rogério Alves, presidente da Mesa da Assembleia Geral do Sporting.

“Hoje, através dos telemóveis, as pessoas reportam imagens, informações, sons… É impossível controlar. A Assembleia Geral decorreu naturalmente com crítica e divergência, porque são assuntos fraturantes que envolvem paixão, mas o que procuramos evitar é que numa Assembleia Geral onde todos os que pediram a palavra usaram dela haja a mensagem de que as Assembleias Gerais não funcionam. Esses pequenos picos de tensão não são a marca da forma como decorreu”, acrescentou o advogado, a propósito dos focos com ânimos exaltados que se sentiram ao longo da tarde no Pavilhão João Rocha.

Recuando a junho de 2015, com pouco mais de dois anos na presidência, numa altura em que a turbulência criada pela saída de Marco Silva do comando técnico da equipa de futebol já tinha passado depois do anúncio de Jorge Jesus como novo treinador dos leões, uma Assembleia Geral com cerca de 1.000 associados onde foi apresentada a auditoria de gestão ao património imobiliário do clube entre 1995 e 2013 e aprovado o orçamento para 2016/17 anunciou também a expulsão de Luís Godinho Lopes, antigo presidente leonino, por “prática de infrações disciplinares muito graves para a imagem e património do Sporting”.

“Aplicação por seis votos a favor e uma abstenção dos membros do CFD da sanção disciplinar de expulsão, agravando a sanção disciplinar proposta pelo instrutor (que era a de suspensão por um ano), considerando a prática de infrações disciplinares muito graves para a imagem e património do clube, as quais quebraram, de um modo absoluto e irremediável, a relação de confiança que qualquer sócio merece ter por parte do clube, no caso com a agravante de se tratar do seu dirigente máximo, o presidente do Conselho Diretivo, no período em apreciação (2011/2013)”, explicou o Conselho Fiscal e Disciplinar. Estava aberta uma Caixa de Pandora neste particular que, quatro anos depois, acabou por ter efeito boomerang contra Bruno de Carvalho. Agora, contas feitas, dois dos últimos três líderes foram expulsos de associados. E isto apesar de o atual presidente, Frederico Varandas, se ter manifestado contra este tipo de cenários quando estava em campanha, no ano passado.

“Se for presidente do Sporting Clube de Portugal, Bruno de Carvalho não será expulso de sócio. Não quero. Para mim, a expulsão de sócio é como se fosse uma pena de morte. Ninguém tem direito a dizer que uma pessoa já não pode ser sócia do Sporting. Tenho a certeza que há outras figuras jurídicas, penalizações, mas expulsão do Sporting? Quem é alguém para expulsar de sócio do Sporting? Sou contra todas as expulsões que foram feitas e já há muita gente a pedir a expulsão de Bruno de Carvalho mas serei contra”, destacou numa entrevista à CMTV durante a campanha eleitoral, entre agosto e setembro de 2018.

Sem intervenção direta do Conselho Diretivo, que não só não se pronunciou sobre esta Assembleia Geral Extraordinária como não falou também ao longo da reunião, o recurso da decisão tomada pelo Conselho Fiscal e Disciplinar acabou por ser também chumbado e o Sporting entra agora numa nova era sem Bruno de Carvalho, que caiu como tinha feito cair e fica de vez arredado da vida social de um clube que continua a tentar sarar feridas que se adensaram após um 2018 “negro” que teve no ataque à Academia em Alcochete o ponto alto de uma espiral de episódios que ficarão na história da formação verde e branca.

Aliás, em menos de cinco meses o antigo presidente do clube acabou por dinamitar cinco anos na liderança do Sporting e com cinco grandes episódios que o colocaram na situação que conheceu este sábado o seu epílogo:

  1. A maior vitória numa Assembleia Geral que terminou da pior forma. No seguimento de alguma contestação sentida numa reunião magna realizado no Multidesportivo de Alvalade, Bruno de Carvalho jogou o seu futuro no Pavilhão João Rocha, fazendo depender a sua continuidade no clube de uma percentagem acima de 75% e ganhou com cerca de 90% os três pontos sufragados: alteração dos estatutos, novo regulamento disciplinar e permanência dos órgãos sociais. No discurso da vitória, o líder destacou-se ainda por ter feito um ataque cerrado à imprensa. A vitória não deixou margem para dúvidas mas o “joker” da reeleição foi jogado demasiado cedo e o tempo acabou por “castigar” essa opção;
  2. Os assobios no jogo com o P. Ferreira após as críticas via Facebook. Um post nas redes sociais de Bruno de Carvalho após a derrota do Sporting em Madrid frente ao Atlético na Liga Europa acabou por ser o dínamo para uma catadupa de acontecimentos que teve o primeiro grande sinal de contestação ao então presidente do clube em abril do ano passado: depois das críticas públicas dos jogadores, dos processos disciplinares levantados ou da ameaça em entrar em campo com a equipa de juniores, foram a jogo as opções dos costume que mereceram uma ovação de pé por parte dos adeptos em Alvalade enquanto o número 1 verde e branco ouviu vaias do início ao fim do encontro;
  3. O ataque à Academia em Alcochete. A fase de instrução ainda decorre, o debate instrutório está marcado para a próxima quarta-feira mas a entrada de cerca de 40 adeptos nas instalações do clube para agredirem jogadores, técnicos e demais elementos após a derrota na Madeira que custou o segundo lugar e o acesso à Champions em 2017/18 acabou por ser um ponto de viragem definitivo na relação dos sócios e adeptos com Bruno de Carvalho;
  4. Destituição do Conselho Diretivo em Assembleia Geral. A 23 de junho de 2018, a Mesa da Assembleia Geral do clube então liderada por Jaime Marta Soares marcou uma reunião magna extraordinária que tinha como ponto único a destituição da Direção chefiada por Bruno de Carvalho: com uma participação massiva de quase 15 mil associados que foram passando pelo Meo Arena ao longo da tarde, o anterior presidente teve uma pesada derrota nas urnas com um total de quase 72% dos votos a deliberarem a saída do comando do conjunto verde e branco;
  5. Suspensão de um ano de sócio pela Comissão de Fiscalização e expulsão de sócio pelo Conselho Fiscal e Disciplinar. No dia em que ia anunciar a sua candidatura às eleições de setembro de 2018, Bruno de Carvalho ficou a conhecer a decisão do primeiro processo disciplinar de que tinha sido alvo, posteriormente ratificado em Assembleia Geral por 68,5% pelos sócios do clube, em dezembro; já este ano, no primeiro dia de março, o Conselho Fiscal e Disciplinar fechou os outros processos pendentes, aplicando a maior pena prevista em termos estatutários por infrações como obstaculizar a realização da AG de 23 de junho de 2018, violação da suspensão preventiva durante dez dias no mesmo mês, factos decorridos nessa AG, publicações em redes sociais ou bloqueio das contas bancárias. Este sábado, o recurso a essa pena foi novamente chumbado em reunião magna extraordinária e o antigo líder ficou de vez arredado do clube.