Sporting

“Não comprem jornais desportivos, não vejam nenhum canal”: a intervenção final de Bruno de Carvalho

1.429

Bruno de Carvalho ganhou por larga maioria, elogiou a maioria que deixou de ser silenciosa e apontou baterias à comunicação social. No final, houve insultos e tentativas de agressão aos jornalistas.

Bruno de Carvalho apelou aos sportinguistas no final da AG para deixarem de comprar jornais e verem televisão

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

As urnas fecharam por volta das 19 horas, mas por essa altura eram poucos ou nenhuns aqueles que tinham alguma dúvida sobre o resultado da votação dos três pontos em sufrágio na assembleia geral do Sporting. Um deles era Bruno de Carvalho, o presidente do clube. Que, até pela experiência de vários anos em reuniões magnas, sentado no lado dos sócios (ainda antes de ser candidato, até 2011) ou posicionado em frente dos associados (como presidente, a partir de 2013), percebia bem qual era a tendência dominante no Pavilhão João Rocha. Assim, teve tempo para refletir sobre o que diria no discurso da vitória. E, por isso, neste contexto, esta intervenção acabou por ser a grande surpresa da noite, sobretudo quando definiu de outra forma a militância que falou em várias ocasiões.

“Não há cá volta atrás e vamos continuar pujantes. Não há nem grupos nem grupinhos no Sporting, há órgãos sociais que têm a honra de vos servir. E que se desenganem aqueles dos emails, podem pôr os do Sporting que nunca seremos a vergonha que eles são! Tal como já tinha dito, naquele dia [da sessão de esclarecimento] acabou o assunto dos sportinguistas e sportinguistas aziados. Hoje ficou provado que a maioria silenciosa tornou-se uma maioria ruidosa. Isto é o Sporting!”, atirou na primeira fase do discurso da consagração com centenas de sócios que ainda marcavam presença no Pavilhão João Rocha.

E aqui uma pausa para se refletir sobre o que foi dito e sobre o que estava nas entrelinhas, sobretudo num contexto de discurso de vitória e já depois de ter feito inúmeros ataques fortíssimos a algumas figuras do clube na abertura da reunião magna. Bruno de Carvalho teve o cuidado de não repetir o termo “sportingados” (que desagradava até a apoiantes seus), referiu de forma subtil aos seus opositores que, quando tentam “bloquear” os seus projetos, tem uma maioria do seu lado que o defende e sufraga e falou para fora, deixando uma mensagem para os rivais. Palavras que foram aplaudidas e muito apoiadas. Depois, as palavras encontraram outro(s) alvo(s).

Há muito tempo que o presidente verde e branco aponta a falta de militância como um dos principais motivos para o desgaste da imagem que foi sofrendo ao longo dos cinco anos na liderança dos leões. Nunca o fazia com nomes, mas a mensagem principal era clara: estava cansado de ser sempre o único a dar a cara, a defender o Sporting em termos públicos, a oferecer “o corpo às balas”. Como em janeiro de 2017, numa entrevista: “O que é que senti e sinto? Que há uma falta de militância muito grande das pessoas sportinguistas com algum poder na sociedade e não vejo isso noutros clubes. Como presidente, sinto que os outros têm um exército que se mexe e influencia e nós não”. Ou como no início da semana, numa das sessões de esclarecimento: “Sem os sportinguistas atrás, matam-me. Neste momento estão quase a matar-me e a culpa está a ser dos sportinguistas, porque preciso de militância e disse que não ia passar um segundo mandato igual ao primeiro”.

Esta noite, o diapasão mudou e o enfoque começou a recair sobre a comunicação social.

“Pediram-me para fazer alterações e estou nessa disposição, de ir menos ao Facebook, mas vão ter de mobilizar-se naquilo que é a militância e vou explicar o que é isso no seu essencial. E isto é fundamental, fundamental, para que se perceba que se ultrapassaram barreiras”, começou por comentar.

“Ponto 1: a partir de hoje, não comprem nenhum jornal desportivo nem aquele outro que vocês sabem. Ponto 2: não vejam nenhum canal português de televisão a não ser a Sporting TV. No dia em que fizermos isto, vão começar a olhar e a respeitar o Sporting de outra forma. Já não vai ser preciso ser o presidente do Sporting a atacar A, B ou C porque há 3,5 milhões de pessoas que não lhe vão ligar pevides. Para mim, é muito mais pornográfico eu chegar aos Núcleos e ver alguns jornais em instituições ligadas ao nosso clube”, criticou, prosseguindo: “Ponto 3: que todos, mas todos os comentadores afetos ao Sporting abandonem de imediato os programas e que mais nenhum sportinguista aceite porque não podemos estar ao lado daquela gente. Chega de programas que é só difamar e caluniar. Só assim podemos ser diferentes daquela vergonha de ‘cartilheiros’ e ‘paineleiros'”.

“Com estes resultados, há uma coisa que vos garanto: assim como soubemos interpretar os resultados das eleições, também vamos saber interpretar estes. Hoje foi acrescida ainda mais responsabilidade e, com a vossa confiança, teremos esforço, dedicação, devoção, compromisso, atitude e a glória que vocês merecem”, rematou, antes de pedir ao responsável do som no Pavilhão João Rocha para colocar a música “O Mundo sabe que” quando Jaime Marta Soares ainda pedia aos associados para ficarem na sala para aprovarem a ata desta reunião magna.

Os associados começaram então a sair, altura em que um grupo de cerca de 15/20 elementos atacou os jornalistas que estavam presentes à porta do Pavilhão João Rocha para cobrir o evento. Houve insultos, tentativas de agressão, algum material arremessado ao chão e inclusive o rebentamento de um petardo, antes da rápida intervenção dos agentes policiais presentes no local que fizeram depois um cordão de segurança.

“Bruno de Carvalho é um burocrata, gosta da liberdade, de dizer aquilo que sente. Se aconteceu isso, e não tive oportunidade de constatar isso, é uma situação desagradável, mas são momentos de nervosismo à flor da pele, não é essa a imagem que queremos passar”, comentou Jaime Marta Soares, presidente da Mesa da Assembleia Geral.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: broseiro@observador.pt

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)