Ir ou não ir às urnas, eis a questão. É esta a dúvida que ensombra os vários atores políticos em Itália, depois de o ministro do Interior e líder do partido de extrema-direita Liga ter desfeito a coligação governamental com o Movimento 5 Estrelas (M5E), na passada sexta-feira. Esta segunda-feira, as lideranças dos vários grupos parlamentares reúnem-se para decidir se devem ou não votar a moção de censura ao primeiro-ministro, o independente Giuseppe Conte, proposta por Salvini.

Ao mesmo tempo, começam a delinear-se estratégias: de um lado, uma possível união entre o M5E e o Partido Democrático (centro-esquerda) para formar um governo anti-Liga; do outro, uma união à direita da Liga com o Força Itália e os Irmãos de Itália. A última palavra, essa, pertence ao Presidente, Sergio Matarella — que estará cauteloso face à possibilidade de marcar eleições mesmo em cima das negociações do próximo Orçamento do Estado, em setembro.

Matteo Salvini anunciou que chegou a hora de “dar a palavra aos eleitores”, depois de mais de um ano de uma coligação tensa entre M5E e Liga. A dar-lhe alento estão as mais recentes sondagens: muito embora o vencedor das últimas legislativas tenha sido Luigi di Maio e o 5 Estrelas, quem segue agora à frente nas intenções de voto dos italianos é mesmo Salvini e a sua Liga, com mais de 35%. O M5E não vai, atualmente, além dos 17% nas sondagens.

O antigo primeiro-ministro Matteo Renzi, do Partido Democrático (PD), contra-atacou ao anúncio de Salvini, na noite deste domingo. Na sua conta de Facebook, explicou estar convencido de que “há uma maioria para um governo institucional que está em posição de salvar Itália”, afirmou.

Numa entrevista ao Corriere della Sera, Renzi concretizou: a sua ideia é avançar com um “governo institucional”, que reúna partidos do centro-esquerda e do centro-direita para evitar a ida às urnas e encurralar assim Salvini.

Precisamos de um governo institucional que permita aos italianos votar no referendo sobre a redução de deputados, que evite o aumento do IVA, que marque eleições sem explorar [a situação]. Acho que quando Mattarella iniciar as consultas, uma parte dos deputados já terá expressado a sua adesão a este projeto. Assim, o Presidente poderá avaliar a possível nomeação de um primeiro-ministro com autoridade”, resumiu Matteo Renzi.

As divisões internas do M5E e do PD face a um acordo anti-Salvini

Di Maio reagiu nas horas seguintes e não descartou a hipótese avançada por Renzi. Sublinhando que para o M5E o importante é aprovar a reforma da redução do número de deputados antes de ir a eleições — reforma a que Salvini se opõe —, uma ida às urnas neste momento seria, para o líder do 5 Estrelas, “uma loucura e um perigo”.

Salvini não traiu o Movimento ou [o primeiro-minstro] Conte, mas sim milhões de italianos”, acusou o líder do partido anti-sistema, segundo o La Repubblica.

Mais concretamente, outras fontes do partido não torceram o nariz à proposta do PD. “Depois de termos governado com a Liga, acho que até somos capazes de fazer um acordo com Belzebu”, declarou Roberta Lombardi, do M5E. Um deputado do partido, que preferiu não se identificar, foi ainda mais longe em declarações à edição europeia do Politico: uma aliança com o PD “seria a única forma de impedir que a Itália tenha o primeiro governo de direita da Europa Ocidental desde a II Guerra Mundial”.

Também Beppe Grillo, fundador do 5 Estrelas, se pronunciou contra Salvini: “Erguer-me-ei para salvar a Itália dos novos bárbaros. Não podemos deixar o país nas mãos destas pessoas só porque acreditamos que sem elas não sobreviveríamos”, escreveu este sábado o antigo comediante no seu blogreferindo-se à Liga. Já esta segunda-feira, depois de ser conhecida a proposta de Renzi, Grillo disparou em todas as direções: sobre Salvini disse que parecia um “xerife a fugir da cidade”, mas também atacou o líder do PD, que classificou de “abutre”.

A ideia de uma espécie de governo de salvação nacional que reúna partidos de vários quadrantes, com exceção da Liga, enfrenta outras dificuldades para além da necessidade de unir PD e M5E, durante muito tempo desavindos. Dentro do próprio PD há fortes divisões, com o atual líder do partido, Nicola Zingaretti, a assumir-se contra a sugestão de Renzi: “Todos estamos conscientes do perigo que Salvini representa, mas duvido que a solução seja ter um governo a resolver as finanças públicas que Salvini estragou”, afirmou.

Num artigo de opinião publicado no Huffington Post Italia, Zingaretti concretizou o ataque ao seu antecessor: “Durante meses o PD rejeitou qualquer tipo de aliança com o 5 Estrelas e eu até fui injustamente acusado de ter conspirado a favor deste plano. Agora não acho que haja atalhos possíveis.”

A situação é, nas palavras do ex-ministro de Renzi Carlo Calenda, a de um partido dividido: “Existem dois PD: o dos deputados [mais leais a Renzi] e o do partido [leal a Zingaretti]”, resumiu à Radio Capital, citado pelo La Repubblica. Qual dos dois sairá vencedor? Na opinião do antigo governante, o mais provável é que seja a fação a Renzi a sair vencedora, já que os deputados não quererão abdicar dos seus lugares. “O impulso de auto-preservação da classe política é gigantesco”, resume. Mas o risco dessa atitude, diz, é alto: “Vamos oferecer uma oportunidade gigantesca a Salvini.”

Força Itália de Berlusconi pode ser decisivo

Certo é que, mesmo que o PD e o M5E se venham a entender às mil maravilhas, precisam do apoio de outros para conseguir uma maioria parlamentar. Segundo as contas do EU Observer, os dois partidos ficam a três deputados de distância de uma maioria, razão pela qual terão de assegurar o apoio de partidos mais pequenos — possivelmente até do Força Itália de Silvio Berlusconi. É por essa razão que nos corredores da política italiana já se fala na constituição da coligação “Ursula”, nome escolhido em homenagem à união dos três partidos que aprovaram Ursula Von der Leyen como presidente da Comissão Europeia (PD, M5E e Força Itália).

Sabendo disso, Salvini já se antecipou. Depois de ter criticado no domingo “os acordos feitos debaixo da mesa, as intrigas palacianas, as administrações de união nacional ou tecnocratas”, eis que esta segunda-feira o líder da Liga anuncia que se irá reunir com Berlusconi e com Giorgia Meloni, líder do partido de extrema-direita Irmãos de Itália. “Vou oferecer-lhes um pacto: a Itália do sim contra a Itália do não”, resumiu, em entrevista ao Il Giornale (cujo dono é Paolo Berlusconi, irmão do líder do Força Itália).

A aliança ainda está a ser negociada e, de acordo com uma fonte próxima de Berlusconi ao Il Messaggero, o acordo “será assinado nas próximas horas”. Resta saber se a informação se confirma ou se, por outro lado, o Força Itália decide dar a mão ao PD e ao M5E.

Ao mesmo tempo, permanece a incógnita sobre o que pensa o Presidente. Só Sergio Matarella tem o poder de dissolver o Parlamento mas, como relembra a Reuters, o calendário não é favorável a essa decisão, já que em setembro é necessário começar o trabalho de preparação do Orçamento do Estado, que terá de ser apresentado à Comissão Europeia em outubro. Mas ainda pode surgir uma terceira via às propostas de Salvini e de Renzi: de acordo com o La Stampa, a possibilidade de um governo de tecnocratas está também em cima da mesa — e já se fala de Mario Draghi, que abandonará o cargo de governador do Banco Central Europeu em novembro, para o lugar de primeiro-ministro.