A polémica entre a Porsche e a Tesla, sobre quem tem o veículo eléctrico mais rápido na selectiva pista de Nürburgring Nordschleife, está ao rubro. Resumindo, a Porsche, desejosa de provar que o seu primeiro veículo eléctrico era o melhor do mundo, dentro das berlinas de quatro portas, decidiu realizar uma série de acções promocionais, uma delas consistindo em fixar um recorde numa volta cronometrada na difícil pista alemã, onde todos os desportivos vão medir meças, para bater o recorde entre os veículos eléctricos com quatro portas. Sim, porque exclusivamente entre os automóveis eléctricos, o melhor tempo está há muito seguro nas mãos dos chineses da Nio, com o EP9.

A Porsche realizou uma volta com o Taycan em 7 minutos e 42 segundos, numa fase em que o carro ainda não estava à venda, o que não é grave, mas sem supervisão dos responsáveis do circuito (que têm de verificar que o modelo está conforme as especificações de série, não está aligeirado para o tornar mais rápido e recorre a pneus homologados para circular na via pública). Logo, um recorde à partida impossível de homologar.

O fabricante de Estugarda é efectivamente um construtor com grande experiência de competição, que já deverá ter rodado em Nürburgring com praticamente todos os seus modelos e é de esperar que seja difícil de bater nestas condições. Por outro lado, seria de esperar que a Tesla se concentrasse em estender a sua liderança na autonomia, nos sistemas de ajuda à condução, no seu Autopilot e em tudo aquilo que fascina os seus clientes. Até porque a vocação do Model S é obviamente mais familiar (tem 7 lugares e uma mala generosa, ao contrário do Taycan, onde só cabem 4 e mais apertados, sendo que a bagageira deixa muito a desejar). Mas Elon Musk, o CEO da Tesla, não resiste a um bom desafio.

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Model S bateu o tempo do Taycan? Como?

Poucos dias depois de a Porsche anunciar o seu recorde (virtual?), eis que o CEO da Tesla e detentor de 20% do capital da empresa não só brincou com o facto da Porsche denominar as versões do eléctrico Taycan com terminologia de motores a gasolina e a gasóleo, apelidando-os de Turbo e Turbo S, como avançou que iria estar na semana seguinte no Nürburgring. A rapidez com que a Tesla reagiu ao recorde da Porsche só pode significar que a visita ao traçado alemão já estava prevista. No seguimento, aliás, da que tinha realizado tempos antes ao circuito americano de Laguna Seca.

Nesta fase, a Porsche deveria ter ficado de sobreaviso, pois o Model S que fixou o recorde na pista americana, de caminho bateu igualmente o melhor tempo conquistado pela berlina de quatro portas mais veloz no traçado, ainda que com motor a gasolina. Referimo-nos ao Jaguar XE SV Project 8, que é também a berlina com o melhor tempo em Nürburgring, onde fixou a melhor volta em 7.21,20. Ora, se o Model S bateu o Jaguar em Laguna Seca, o mesmo Jaguar que se revelou mais rápido 21 segundos do que o Taycan na pista alemã, seria altamente provável que o Model S conseguisse igualmente superar o Taycan no circuito conhecido como Inferno Verde, o que necessariamente iria colocar o fabricante alemão de desportivos e SUV num verdadeiro “inferno”.

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Se a Porsche não registou um tempo oficial com o Taycan, a Tesla tão pouco o fez com o Model S. Segundo a marca americana, o objectivo é apenas rodar e apreender o circuito, uma vez que os americanos estão decididos a, também eles, passarem a ser visitas regulares da pista germânica. Só que as voltas realizadas pelos diversos Model S que se deslocaram à Alemanha foram cronometradas pelos jornalistas da reputada revista germânica Auto Motor und Sport (AMS) e por um fotógrafo veterano do “Ring”, Stefan Bauldauf. Dificilmente este tipo de registo é o mais eficaz do mundo, mas quando se goza de uma vantagem de quase 20 segundos – o Model S terá rodado em 7.23, não muito longe pois dos 7.21 do Jaguar XE SV Project 8 – a margem de erro acaba por ser desprezável, tanto mais que a AMS nunca prejudicaria a Porsche, ou qualquer outra marca germânica, de ânimo leve.

Mas que Model S é este?

São várias as unidades do Model S que a Tesla deslocou à Alemanha (em princípio e tanto quanto se pode ver no vídeo, serão 3, pilotadas por outros tantos especialistas no “Ring”), segundo o próprio Elon Musk, referentes a uma nova versão do modelo que a marca vai lançar no mercado no próximo ano. A estratégia de Musk é clara. Hoje, a Tesla comercializa apenas duas versões do Model S, a Long Range por 89 mil euros e a Performance, por 106 mil euros. A Porsche, pelo seu lado, irá vender o Taycan Turbo por 152 mil euros (ainda assim menos performante do que o Long Range) e o Taycan Turbo S por 192 mil euros, valor que facilmente sobe 30 ou 50 mil euros com uns extras para se aproximar do seu rival em equipamento. Ora, se Tesla conseguir desenvolver um Model S mais desportivo, capaz de envergonhar o Taycan, isso permitirá a Musk surfar a onda do desportivo da Porsche e comercializar mais uma série de unidades do Model S (potencialmente denominado Model S Plaid) por um preço superior (120 a 140 mil euros?) e margens a condizer. Basta que a nova berlina bata o Taycan – e quanto maior for a vantagem, melhor –, para que esta estratégia tenha pés para andar.

Segundo Musk, o Model S que está a rodar no Nürburgring e que se diferencia por apresentar entradas de ar maiores à frente, vias mais largas e uma asa traseira fixa, monta dois motores atrás e um à frente – que o CEO denomina motorização Plaid, mais um termo retirado do seu filme favorito Spaceballs –, em vez de um por eixo como é tradicional na berlina. É possível também que já esteja equipado com um pack de baterias com as células 21700, com 30% mais energia para o mesmo volume e melhor capacidade de refrigeração.

E começaram as desculpas… e os ataques!

Este duelo em pista é muito mais favorável para a Tesla do que para a Porsche, porque os pergaminhos da marca alemã a “obrigam” a vencer. Isto ao contrário do que acontece com a sua rival americana, para quem já seria bom não ficar muito atrás da marca do Grupo Volkswagen.

Depois de a Porsche ter anunciado o recorde do Taycan, ver-se batida pela Tesla, um construtor que fabricou o seu primeiro automóvel de raiz em 2012 e nunca participou numa corrida na sua curta existência, é um vexame que vai levar tempo a digerir. Isto a confirmarem-se os tempos anunciados pela AMS, uma vez que a Tesla ainda não fez qualquer anúncio de tempo por volta, nem de tentativa de recorde, revelando-se aqui muito mais discreta e ponderada do que a sua rival alemã. Aliás, quando confrontado com o tempo canhão atribuído pela AMS ao Model S – que a Tesla não pode anunciar (o teste não é oficial e a pista está aberta ao público) mas obviamente regista para controlo próprio – Musk afirmou que era um bom valor, mas que esperava que a versão de série do Model S Plaid, disponível só em 2020, seja capaz de ser ainda mais rápida do que este protótipo.

Mas enquanto o Model S continua a rodar na pista alemã – esperando-se nova tentativa no sábado –, começaram a surgir manobras para tentar justificar a enorme diferença de tempos, com a Porsche a começar por anunciar que o tempo de 7.42 foi realizado com o Taycan Turbo e não com a versão mais potente, o Turbo S. Deixando de lado o facto de ser curioso que a marca tenha tentado estabelecer um recorde sem ser com a versão mais possante, a verdade é que as diferenças entre o Turbo e o Turbo S são de pormenor. Ambos contam com uma bateria de 95 kWh, com uma capacidade útil de 93,4 kWh, ambos montam à frente e atrás os mesmos motores, que somam 625 cv, só que o overboost do Turbo incrementa a potência para 680 cv, enquanto o Turbo S atinge 761 cv. Mas como aparentemente o overboost apenas funciona durante 2,5 segundos, segundo o fabricante revelou na apresentação do modelo, não é provável que o Turbo S consiga recuperar uma parte significativa da actual desvantagem.

Também os pneus utilizados pelos três pilotos da Tesla presentes em pista, aos comandos do Model S Plaid, foram colocados em causa, isto depois de ninguém mencionar que pneus tinha montado o Taycan. Ao que parece, o Model S azul tinha um jogo de Goodyear Eagle F1 Supersport RS, enquanto as unidades vermelhas montavam Michelin Pilot Sport Cup 2R, um pneu que a Porsche conhece bem, pois usou-o no Porsche 911 GT2 RS com que tentou bater o recorde no Nürburgring. A regra para a certificação do tempo na pista alemã é a utilização de pneus vendidos ao público e homologados para circular em estrada, daí que, por exemplo, o Lamborghini Aventador SVJ tenha utilizado uns Pirelli P Zero Trofeo RS, que fazem parte do equipamento opcional do modelo, para se tornar no carro produzido em série mais veloz no Nürburgring, com um tempo de 6.44,97.

O último argumento para tentar denegrir a performance do Tesla, a confirmarem-se os dados da AMS, é que os Model S são eléctricos, mas são alimentados por energia produzida por um gerador a gasóleo. Sucede que o traçado alemão ainda não está equipado com postos de carga rápidos, pelo que todos os veículos eléctricos que ali rodam têm de levar consigo um sistema de carga, normalmente um grande gerador a gasóleo, similar aos utilizados nas obras e até para alimentar as baterias dos Fórmula E. Que só usam diesel no arranque, passando depois a queimar glicerol, produzido a partir de gordura vegetal. Desconhecemos o que move o gerador que a Tesla está a usar, mas num país como a Alemanha, que em 2018 recorreu a carvão duro e a lignito (carvão macio) para produzir 35,3% da energia eléctrica que consome, a poluição produzida pela queima de gasóleo até representa um importante ganho em termos ambientais, pois nada polui tanto como a combustão do carvão.