É quase impossível isolar o dia de campanha da acusação do Ministério Público sobre o caso Tancos, que envolve o ex-ministro da defesa Azeredo Lopes. Jerónimo tentou desvalorizar de manhã dizendo que não acreditava que a acusação fragilizasse o PS porque esta não era “uma questão central da campanha”, mas às vezes a realidade não é aquilo que os políticos gostavam que fosse.

E o mesmo Jerónimo de Sousa teve de despir o fato de candidato da CDU após o último comício do dia, para vestir o de secretário-geral do PCP e reagir – extra campanha – à polémica que, entretanto havia ganho asas.

A declaração não durou mais que uns poucos minutos e foi o ponto final de uma noite que havia começado num registo mais ligeiro e ainda longe de Tancos, com o jantar da CDU, em Serpa, que teve direito a cante alentejano.

Aqui a prioridade era alertar para o perigo de deixar o PS “ficar de mãos livres”. Ainda que tenha assinalado o caminho de convergência feito em algumas matérias com o PS, Jerónimo não esquece as vezes em que os socialistas deram as mãos à direita. Num partido que batalha pelos direitos dos trabalhadores e se mantém “sempre fiel àquilo que propõe” a machadada do PS na lei laboral é inultrapassável e tem ocupado os discursos nestes dias de campanha.

De olhos postos no futuro, depois de já ter sido recordada a habitual política “patriótica e de esquerda” —pela voz do deputado e cabeça-de-lista do círculo de Beja, João Dias — com que o partido quer recuperar o país, Jerónimo alertou: se o PS ficar de mãos livres, os deputados vão servir “de caixa de ressonância, ou ponto de apoio do governo, reduzindo o papel da Assembleia da República a um cartório notarial”.

O secretário-geral do PCP equiparou o trabalho de legislar dos deputados, caso o PS obtenha uma maioria absoluta a 6 de outubro, ao de um funcionário que se limita a “carimbar as decisões” e, neste caso, as decisões seriam as de um governo socialista maioritário.

Ainda antes da chegada ao jantar na Praça da República, que recebeu algumas centenas de apoiantes da CDU, Jerónimo tinha afirmado que o PS não se pode dizer de esquerda se, nas importantes questões laborais, se cola à direita. Conhecedor da realidade fabril, garantiu depois que os seis meses de período experimental, na nova lei do trabalho, não vão servir “para ensinar a apertar parafusos ou coser à máquina”, mas sim para que os patrões não paguem aos trabalhadores pelo trabalho.

No discurso, espaço ainda para valorizar o papel d’Os Verdes “nas últimas quatro décadas” a lutar pelo “ambiente e harmonia entre o homem e a natureza” que, segundo Jerónimo, não tem tido o destaque que merecia. Quanto à batalha de dia 6 de outubro, onde o objetivo é “reforçar” a bancada do PCP e dos Verdes no Parlamento, a CDU está consciente da dificuldade que enfrenta e Jerónimo aproveitou um trecho de poesia para ilustrar a postura comunista e apelar, uma vez mais, ao voto: “Quando um homem perde os bens perde pouco, quando perde a dignidade perde muito, quando perde a coragem perde tudo”, acrescentando que o povo alentejano “sempre esteve longe de perder a dignidade”.